Cinerama: Uma odisseia chamada Cinema

No fim, tudo pode arruinar seu filme: seu diretor de fotografia pode te odiar, seu diretor de arte achar a história um lixo, o ator não acreditar na forma que você fala do personagem, seu assistente de direção pode querer te sabotar, seu editor pode achar seu material um lixo e não dar o melhor de si, seu produtor pode ser um drogado e não lhe dar apoio ou pior, você pode estar se auto produzindo, e o que o grande público vai consumir? O Produto final, fruto de todo o sofrimento e instabilidade que a produção pode ter sido. E agora? O que meu filme é, além de um emaranhado de coisas desconexas? No fim, qual o função do diretor de um filme?

A palavra “Realizador” super condiz com a situação do cinema mundial, principalmente o Brasileiro, onde não existe “Alguém que venha nos defender”. Fazer um filme pode parecer fácil, mas diferente do que muitos acham, levar uma ideia pra frente tende ser muito visionário, louco e principalmente, amar muito o que se faz, pois o caminho é cheio de pedras, espinhos e infelizmente você esqueceu os sapatos em casa. “Eu respirava, comia e cagava cinema. Isso me afastou de muitas pessoas, mas me fez realizar algo que se eu não fizesse eu ia morrer, que era fazer filmes, contar histórias. Como essa tragédia foi acontecer comigo, não faço a mínima idéia, mas surgiu esse monstro e é melhor eu alimentar ele” já dizia ninguém menos que Martin Scorsese que encantou plateias e assustou tantas outras com títulos como Taxi Driver, Goodfellas, Cassino e Hugo.

Quando se tem um estalo e se tem uma idéia, é da função daquele que vai dirigir esse material e comprar essa briga se perguntar: “Gosto o bastante disso aqui? Consigo lutar por ela por 5 anos e ainda assim querer levá-la pra frente? Consigo fazer outras pessoas se apaixonarem por ela? Será que EU estou apaixonado o suficiente por ela?”. Se todas as perguntas fazem sentido para nosso personagem, que é um amigo próximo nosso a partir de agora, que se chama Lemos, bem, Lemos está pronto para fazer dessa idéia um roteiro e com o roteiro em mãos, conseguir chegar para o seu núcleo de amigos malucos – se é que existe o núcleo – e fazer todos aceitarem fazer parte desse barco. Por que um barco?

Em um barco, normalmente temos um capitão, esse pobre rapaz é quem deve encher de coragem seus marujos e ter noção de como exatamente funciona esse emaranhado de cordas, panos, madeiras coladas com pregos e cercado de água, ele deve fazer com que cada um dos membros dessa comitiva façam bem seu trabalho individual, que fará com que o barco saia de um ponto X até o ponto Y. Todos devem conhecer os riscos da viagem e confiarem no capitão, pois ele é o cara que conhece o trabalho individual de cada um e vai saber resolver qualquer problema que venha acontecer em cada uma dessas funções, pois um erro, por mais simples que seja pode fazer o barco afundar, que vai destruir o sonho de ir até o maldito ponto Y, que é o que motivou a todos ali. Claro que todos devem saber bem que se algo der errado, seu papel não é culpar o outro marujo, mais sim buscar junto ao capitão concertar logo aquilo pra que tudo não vá por água abaixo, nesse caso, madeira abaixo.

scorsese

 Porque o capitão é lembrado por todos? Porque ele acompanha desde o começo o trabalho de todos, ele está sempre do alto falando com todos, o que não significa que ele não está cheio de medos e dúvidas também, mas ele precisa saná-los e estar certo de que o que ele pediu que todos façam é o modo certo de fazer aquilo, e que será o melhor para todos, como em um relógio, pois se todas as engrenagens não se combinarem perfeitamente, a droga do relógio vai pifar, e ai já viu, né? Nada vai funcionar, o ponteiro não vai rodar.

Mais importante ainda do que tudo já descrito acima é que o Capitão também deve ser INCRÍVEL com relações pessoais, que ele seja ótimo conversando com as pessoas e convencendo elas, pois se ele não se der bem com a marujada toda, o que lhe vai acontecer? Ele ou vai botar tudo a perder ou vai parar em uma ilha, sozinho, vendo seu barco indo embora sem ele e sem rum.... Péssimo, não?

Voltando ao filme, o Diretor deve escolher pessoas que somem ao projeto, que sejam perfeitas para fazer daquela história realidade. Lemos escolheu bem dentro do possível, pois Lemos é um cara que tem muita vontade e tal, mas nem tem grana e quando ele sentou pra pensar como financeiramente ele ia fomentar a história, encontrou vários obstáculos, mas conseguiu uma grana, que pode parecer bastante, mas que para manter o básico como alimentação, dinheiro para seus colaboradores, transporte e possibilidade de viabilizar as cenas que ele quer fazer se torna algumas migalhas, mas felizmente Lemos e seus produtores, pessoas mais loucas que a maioria e que ele conseguiu contagiar, são criativos e criaram meios de Lemos fazer o mesmo que ele queria inicialmente, mas com menos, cortando algumas coisas aqui e ali, escolhendo uma terceira opção que é tão boa quanto e, às vezes até, com sofrimento abrindo mãos de algumas coisas que eram extremamente legais, mas que tiveram de rodar, pois é pegar ou largar.

Com a equipe de motivados que acreditam na sua história e com a história bem aparadinha, com alguma grana no bolso e com os equipamentos em mãos, Lemos finalmente vai filmar, aquilo que ele imaginou há mais ou menos 1 ano quando ele teve a idéia inicial e se perguntou aquilo tudo. Poxa... Lemos foi muito esforçado e não desanimou nem um pouco, mas Lemos deve se lembrar: Filmar pode ser perigoso, pode ser arriscado, pode ser difícil e chegou a hora de ter muito jogo de cintura.

Steven-Spielberg

A filmagem de Lemos é para um média-metragem, cerca de 30 minutos de filme, mas nem é como entrar em um lugar e fazer a coisa toda em 30 minutos e ir embora, Lemos sabe que para realizar tudo da forma certa ele precisaria de 2 semanas de gravação, com um horário bom, com conforto para todos se concentrarem no material e conseguirem dar o melhor de si, mas como já diziam diversas pessoas, tempo é dinheiro e muito mais que isso, tempo é esforço conjunto e tempo é tempo que não pode ser jogado fora. Diversos são os problemas de Lemos. Como muitos não vão receber quase nada, Lemos não pode ocupar 100% do tempo de todos, que tem suas coisas a fazer, que tem suas contas a pagar e grana para ganhar, e além disso, Lemos tem migalhas em mãos, e alimentar 20 pessoas, transportar 20 pessoas, equipar essas pessoas, mantê-las em um lugar custa muito dinheiro. Resumindo, Lemos tem 4 dias pra gravar tudo. Ferrou, Lemos, pois você agora tende ser extremamente econômico e gastar tempo com o que realmente importa, que é captar o que vai ser editado depois e pronto. Fácil, né? Só que não.

Tudo pode fazer a tarefa de captar o que precisa e ir embora um absurdo impensável, o tempo pode não ajudar, as pessoas podem ter problemas, a luz pode acabar, alguém pode ficar doente e Lemos tende otimizar tudo e pensar em tudo, pois todos os 20 que Lemos juntou vão aparecer com no mínimo 20 questões importantíssimas e Lemos tende responder elas bem, para que essas 20 pessoas que ele colocou no barco, saibam fazer sozinhas aquilo que ele confiou a elas. Lembra do barco, então... Acontece que também não se trata de simplesmente ficar berrando e mandando as pessoas fazerem coisas, você precisa construir com elas ANTES de entrar no set uma relação onde elas também conheçam seu projeto e estejam todas sintonizadas em um corpo só, que é o corpo que vai dirigir o filme no fim. Não se trata do Lemos diretor e sim do Lemos corpo conjunto e articulado formado de diversas pessoas que acreditaram no Lemos e na história do Lemos e agora conjuntamente andam para o fim dessa aventura que é tornar a história que o Lemos contou uma realidade.

Lembra o que eu disse que todos podem estar contra você? Então... a filmagem pode até ser um caos, e nada dar certo e você terminar a obra, mas sabe aquilo de sair do cinema e falar que o filme tem uma linda fotografia ou uma maravilhosa direção de arte ou ainda que o ator tal estava incrível mas jamais falar do filme como um todo? Então, isso é um filme mal dirigido, quando o corpo não é formado ou temos uma pessoa só fazendo o melhor de si, mas não necessariamente o melhor para o filme, e isso não é legal, pois imagina só novamente o barco: o cara que cuidava da vela ou da direção do barco trabalha bem, mas detesta o resto todo da galera, o barco pode até chegar no destino final, mas todo ferrado, pois bateu em corais, em recifes, teve problemas com as amarrações das cordas ou então as velas saíram do prumo e tudo acabou dando errado e o percurso demorou o dobro. Lemos teve a sorte e é claro o talento de conseguir construir o corpo necessário que ser uma equipe e estarem todos preparados pra tudo que pudesse ocorrer.

Acabou que praticamente tudo que eles imaginaram que daria errado deu, e mais um pouco, mas todos estavam prontos e preparados e a sintonia do corpo conjunto funcionou praticamente sem desentendimentos até o final. Foi bem difícil e estafante, mas tudo deu certo. Poderia ter sido bem pior, não é, Lemos? Pois é, mas todos ficaram felizes e comemoram, apesar de cansados, ao fim dos quatro dias destruidores.

Finalmente Lemos chegou com o material final para o único cara que ficou até então animado, mas esperando chegar a sua vez de integrar o corpo do filme, que é o editor. Todos que integraram o corpo estão descansando da terrível batalha que foi o filme até ali, e mesmo em frangalhos Lemos pode sentar tranquilamente e por incrível que pareça, começar a fazer o filme, aquilo que ele imaginou há quase 2 anos quando teve a primeira idéia.

Ao ver a primeira sequência editada, Lemos acha que vai ganhar o Oscar, mas conforme o corte vai ficando maior e a primeira versão fica pronta, Lemos tem uma vergonha tão grande de ver aquilo ou pior ainda, de mostrar para aqueles que estão ansiosos para ver o material e que deram o sangue pro filme. Ai vem na cabeça de Lemos: “Quase dois anos da minha vida pra chegar e ver essa merda? Eu não mereço viver! Tá tudo muito ruim!!!” Calma Lemos, isso acontece, sua cor ainda não está ajustada, o áudio ainda nem foi tratado e a trilha sonora nem existe ainda, agora não é hora de desmotivar e sim de mostrar isso para seus outros colaboradores que vão alimentar como você esse projeto e torná-lo aquilo que imaginou, só que ainda melhor, acredite, pois nessa altura todos deram um pouco de si e de suas cargas pessoais para esse projeto.

Quando um barco chega ao seu destino, é necessário descarregar o que você trouxe ou ainda pegar o que você foi buscar pra finalmente voltar e dar por terminada a viagem e lembre-se, nada termina até que acabe. Bobo mas é a verdade.

A finalização acaba por ser talvez a parte mais desgastante de todas, pois é ai que entra a real arte de fazer cinema que é a arte de fazer escolhas e da alquimia e aqui na finalização é a hora de ir testando aos poucos até ficar tudo bem afinadinho, mas o cansaço é um grande fardo nessa fase, não se sabe se é por conta do cansaço que é chegar até ali, se sua cabeça já está muito cheia do material ou se é porque você como gerador da criança, não vê a hora dela nascer logo, sair de você e ganhar sua própria vida, mas ai é que está, mesmo depois de nascido ainda são necessários alguns cuidados e ai vem uma série de perguntas: Porque você gerou ele mesmo? Para que colocou essa criança no mundo? O cineasta tem no sangue o instinto de pegar grandes problemas e transformar em problemas menores certo? Certo, mas para depois trabalhar com caixas menores que se encaixam em coisas ainda maiores que você e que a própria obra terminada: como esse take se encaixa na cena, como essa cena se encaixa na sequência, como essa sequência se encaixa no filme, como esse filme se encaixa na minha filmografia, como minha filmografia se encaixa no cinema, como meu filme se encaixa em toda a sociedade, sendo essa caixa a maior e mais complexa de lidar. O que a sociedade vai achar do meu filme, o que o público maior vai achar do meu filme. Esse é o momento em que a arte do cinema se faz, quando as pessoas o veem na tela gigante. Como viram nesse texto todo, o cinema é quase como construir uma casa, bloco após bloco, vigas vem primeiro, a estrutura é importante, o acabamento é o que dá o “tcham” e assim por diante, a arte do filme está no estalo da primeira idéia, na história, na forma como você construiu isso tudo mentalmente e principalmente, a arte está nos olhos de quem vê, de quem absorve aquilo que você vai contar e que vai julgar se seu filme foi bem dirigido ou não, se ele é bom mesmo. O que VOCÊ tem pra contar? O que você quer que as pessoas olhem e se apaixonem? Teve o estalo que o Lemos teve? Comece a ler o texto novamente e se arme bem, pois o caminho é longo, mas lembre-se: “Fazer cinema é difícil, é foda, mas é do caralho.”.

Quentin-Tarantino

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