Cinerama: Frank Darabont – Parte 2

Leia a parte 1 do especial aqui.

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Monstros e Milagres

Enquanto procurava se apaixonar por outra história, como havia lhe acontecido em The Shawshank Redemption, Frank trabalhou como Script Doctor, ou seja, reescrevendo e melhorando roteiros de outros autores. Entre os destaques, “consertando” algumas cenas, estão Eraser de 1996 e Resgate do Soldado Ryan de 1998 de Steven Spielberg. A mais famosa melhoria feita por Frank, neste último, é a da cena inicial em Omaha Beach.

Logo após o lançamento de Shawshank, Francis Ford Coppola comprou os direitos da adaptação de Frankenstein de Mary Shelley, que Darabont havia escrito anos antes. Tratava-se da mais fiel versão do clássico conto de terror. O filme foi dirigido por Kenneth Branagh, e teve Robert DeNiro no papel de monstro, foi mediano nas críticas e segundo o roteirista, essa foi sua mais terrível experiência como escritor, já que Branagh alterou grande parte do roteiro original, o que Frank considerou um absurdo, já que se tratava do trabalho que ele mais se orgulhava até então. Apesar da torturante experiência de ter seu texto mais bem acabado “deformado” por outro diretor, anos depois, Guillermo Del Toro mostrou extremo interesse em filmar um Frankenstein próximo do roteiro de Darabont. O filme entrou em pré-produção algumas vezes, mas não houve êxito até o momento.

Em 1996 Stephen King ligou para Frank e lhe contou a respeito de uma ideia que havia tido para um outro livro de cadeia, que seria muito cinematográfico, mas achava que Darabont não se interessaria em dirigir por conta do tema presente em seu filme anterior. Frank confirmou seu palpite, mas mostrou-se interessado pela trama de um homem misterioso que aparentemente faz milagres no “corredor da morte” de uma pequena prisão dos anos 30. Frank pediu para ser o primeiro a ler tal obra. O livro tornou-se livros, seis no total, que seriam publicados mensalmente. A série The Green Mile se tornou um sucesso, e a cerne dos personagens interessou tanto Darabont, que ele decidiu adaptá-los, tarefa que fez em apenas 8 semanas, criando outra belíssima obra que rapidamente conquistou David Valdes, produtor da Castle Rock, que aceitou prontamente o projeto.

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Cartão verde, muita gente apaixonada pelo ótimo roteiro de Frank, ele e sua equipe, que foi praticamente a mesma de Shawshank, começaram a escalar os atores para o projeto, entre eles: Tom Hanks, David Morse, Barry Pepper, Jeffrey DeMunn (novamente), James Cronwell, Sam Rockwell e a revelação Michael Clarke Duncan – que era segurança de Bruce Willis e arrebentou no teste para o papel de John Coffey.

The Green Mile (À Espera de um Milagre) de 1999, era mais um conto de King distante do nicho de horror, e que tratava basicamente de milagres e sua forma engraçada de acontecer nos mais inesperados lugares e condições.

Para figurar a cadeia da trama foi utilizada a Penitenciaria de Shelbyville, Tennessee, deixada de lado no filme anterior, e um pequeno set com as celas da “Milha Verde” e a “Faísca Velha” foi construído ao lado da penitenciária. Grande parte dos mais de cinco meses de gravações aconteceu por lá.

O elenco e a produção, mais uma vez, formaram uma grande família, quando mesmo os atores que não tinham cenas em determinados dias, ficavam no set.

O resultado do longa, que havia custado 60 milhões, era inacreditavelmente emocionante e conquistou milhões de corações que contabilizaram 290 milhões em bilheteria, sendo o filme mais rentável baseado em uma obra de Stephen King. Vários prêmios foram “abocanhados”, menos as 4 indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante – Clarke Duncan, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som), estando também na lista de filmes injustiçados no prêmio da Academia.

Pouco tempo depois, novamente em parceria com a Castle Rock e a sua produtora, a Darkwoods, Frank produziu e dirigiu o primeiro filme em que o roteiro não era seu, mas do amigo de longa data Michael Sloane. The Majestic (Cine Majestic), de 2001, era uma homenagem aos filmes de Frank Capra e ao cinema clássico dos anos 50, com Jim Carrey fazendo um papel sério de um roteirista acusado de ser antiamericano/comunista e perdendo a memória ao passar por um acidente de carro. Crítico, poético e muito tocante como os últimos trabalhos de Darabont, desta vez, a sua declaração de amor ao cinema não rendeu muito e só recuperou 32 dos 70 milhões investidos, colocando Frank em um longo período longe das telas, trabalhando em vários projetos que não foram aceitos, como seu remake de Fahrenheit 451.

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Saindo do nevoeiro e voltando para o sucesso

Mais alguns trabalhos de Script Doctor apareceram, como Minority Report, em 2002, King Kong, 2005, e a refilmagem de Godzilla, atualmente em produção.

Felizmente, em 2005, Darabont anunciou que voltaria às telas dirigindo mais um conto de King, desta vez retornando às suas origens no terror. The Mist (O Nevoeiro) é um filme de horror que seguiu as regras clássicas do gênero: gravado em pouco tempo, com pouquíssimo dinheiro, mas com toda a autonomia que lhe era de direito, coisa necessária para contar tal história horripilante e em tom apocalíptico.

Depois que uma violenta tempestade devasta a cidade de Maine, David Drayton, um artista local, e seu filho de 8 anos correm para o mercado, antes que os suprimentos se esgotem. Acontece então que um estranho nevoeiro toma conta da cidade, deixando David e um grupo de pessoas presas no mercado. David logo descobre que o nevoeiro esconde algo de anormal e que sair do mercado pode ser fatal, mas conforme o grupo tenta desvendar o mistério, o caos se instala e fica evidente que as pessoas dentro do mercado podem se tornar tão ameaçadoras quanto as criaturas do lado de fora.

Embora finalmente tenha adaptado um conto de terror do mestre King, esse não fugia do tema de seus anteriores filmes, a fragilidade humana e sua reação a situações tão extremas. Passando-se quase que inteiramente no interior do supermercado, apesar de ser um filme de monstros, não cai em clichê algum, e se utiliza das melhores saídas para causar o arrepio na espinha, colocar pessoas comuns em situações totalmente inusitadas. Como agir em uma situação absurda como essa? Infelizmente, para os autores, a insanidade é a primeira reação.

Muitos parceiros de Darabont estão na produção, entre eles Jeffrey DeMunn, William Sadler, Gregory Melton e Greg Nicotero.

As filmagens, que duraram apenas seis semanas, aconteceram, como em todos os filmes de Darabont, apesar do tema tenso e seu obscuro final realista. Lançado em 18 de Outubro de 2007, fez 52 milhões, apesar de sua produção modesta de apenas 18 milhões. As críticas foram positivas e deram a Darabont força para se entregar a outra história de tom semelhante, que ele não conseguia contar nas telonas, por conta de seu tempo narrativo: The Walking Dead.

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Mortos vivos e policiais na TV

Em 2008, Frank conheceu o quadrinho em uma de suas longas viagens de avião. Acreditou na força da história, mas achava que sua narrativa era longa demais para um filme, e que a TV seria extremamente útil como veículo narrativo para The Walking Dead. Resolveu comprar a briga. Entrou em contato com os criadores da HQ, comprou os direitos e começou a oferecer o projeto do piloto. A primeira emissora procurada foi a HBO, onde já havia trabalhado, mas o projeto com Thomas Jane de The Mist no papel de Rick não agradou a rede, que recusou a série, mas a sua concorrente, AMC, gostou do material original, do roteiro do piloto e da equipe que Darabont trazia com ele. Em Janeiro de 2010 o projeto foi anunciado e em Maio Frank foi a campo dirigir o primeiro episódio com uma equipe conhecida de outras produções suas, como Jeffrey DeMunn, Laurie Holden, Melissa McBride, Guy Ferland, David Leslie Johnson, Gregory Melton e Greg Nicotero – que aqui teve até a chance de dirigir capítulos – Rohn Schmidt, David Tattersall e tantos outros.

Com o piloto pronto e levado ao ar, a série foi um triunfo enorme, e mais uma vez a fragilidade humana estava lá, com todos os seus problemas e peculiaridades. O destaque para a série vai para o fato de que os Zumbis (Walkers) ficam em segundo plano, com o ponto alto da trama nas relações humanas em situações dramáticas e de extremo risco.

Com a primeira temporada a todo o vapor e a segunda confirmada, Frank passa de diretor/roteirista/produtor da série, para o cargo de Showrunner (Produtor Executivo), ou seja, responsável pelos rumos do programa. Com um bom time e todos felizes com o material da série, em 2011, diferenças criativas entre Darabont e os executivos da AMC levam a desestabilidade da equipe e mais tarde à sua demissão em meio a segunda temporada. Como consequência, Jeffrey DeMunn – que até pediu pela morte prematura de seu personagem (Dale), Gregory Melton, Michael Sloane, Guy Ferland, David Leslie Johnson, Rohn Schmidt, David Tattersall e tantos outros membros da equipe abandonam a série em seu curso. O show prossegue sob a tutela de Glen Mazzara – Produtor Executivo – como atual Showrunner.

Após a desavença com a AMC, Darabont começou a desenvolver o projeto de outra série de TV, baseada no livro L.A Noir de John Buntin, livro que conta o conflito tenso que aconteceu entre o Departamento de Policia de Los Angeles (LAPD) e o criminoso Bugsy Siegel, nos anos 40.

No inicio de 2012 foi confirmado o projeto pela TNT, e na trupe estavam todos aqueles que haviam saído de The Walking Dead junto de Frank. Para completar o elenco, Edward Burns no papel de Bugsy e Jon Bernthal, também do seriado de zumbis, no papel principal, o policial Joe Teague.

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A série começou a ser gravada sob o nome L.A Noir em Maio de 2012. Passou por sérios problemas de financiamento, mas o piloto foi aprovado e uma temporada de seis episódios foi comprada pelo canal. A partir daí, passou a se chamar Lost Angels e após toda a série ser finalizada, mudou novamente de nome, agora para Mob City. Em agosto de 2013, a TNT decidiu que juntaria a série, de dois em dois capítulos, formando três longas de uma hora e meia, e esses “longas” seriam exibidos nas três primeiras quartas-feiras de dezembro, o que acarretou em perda de público. Apesar da burra forma de exibição, Mob City teve uma média de 2,29 milhões de expectadores na estreia, um número bom, mas pequeno para tempos onde séries como a anterior de Darabont fazem 5,39 milhões em uma estreia.

Mob City é uma declaração de amor ao estilo Noir dos anos 40, fundido a um estilo “Scorsesiano”, de obras como Os Bons Companheiros, de 1990, e Cassino, de 1995. O que ressalta o estilo são as cores, o ritmo de cortes e a violência, típicos do cinema ítalo-Americano de Martin Scorsese.

As atuações são fortes e bem direcionadas, a fotografia é impecável e cada roteiro é uma preciosidade do gênero, mas infelizmente os conflitos com a emissora prejudicaram o material onde mais doía, em sua exibições. Mob City não pôde ter continuação, mas felizmente fecha um arco dramático ótimo para o conto.

O que de fato sempre guiou Darabont em sua carreira foram seus amores, e ele sempre conseguiu gravar tudo que quis, e teve a sorte de conciliar por anos sucesso e amor em sua carreira. Dirigiu filmes que emocionaram multidões, que aterrorizaram tantas e entusiasmaram outras. Seus filmes levantaram importantes questões sobre o indivíduo na sociedade, e sempre conectaram os espectadores a seus personagens simples e, principalmente, verdadeiros.

Muitos outros projetos de Frank Darabont estão por vir, e só podemos esperar surpresas deste grande artista contemporâneo.

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