Crítica: Battleship – A Batalha dos Mares

Uma boa ação de marketing para adaptação cinematográfica de Batalha Naval seria o lançamento de  várias versões do jogo de tabuleiro da Hasbro inspiradas pelo filme. Mas com Battleship - Batalha dos Mares, uma ação de marketing  infalível seria a de colocar postos de alistamento para a Marinha na saída de cada sala de  cinema nos EUA. O longa dirigido por Peter Berg é uma tentativa de propaganda muito parecida com o que Top Gun representou nos anos 80 para a Aeronáutica norte-americana. A diferença é que a obra com Tom Cruise no início de carreira tinha muito mais motivos pra se tornar memorável (mesmo compartilhando da mesma pieguice).

A trama mostra Alex Hopper (Taylor Kitsch), um jovem que mesmo tendo boa índole, nunca demonstrou o menor sinal de responsabilidade e vive entrando em problemas. Seu irmão mais velho, vivido por Alexander Skarsgård, é um tenente da Marinha que o convence a se alistar e anos mais tarde ambos acabam servindo juntos numa demonstração de jogos de guerra. O problema é que justo quando sua frota de navios de batalha está no mar, alienígenas começam a invadir a Terra exatamente onde estão acontecendo os tais jogos. Dessa forma cabe à Alex mostrar seu valor na batalha. Típica história de heroísmo cujo pano de fundo é uma trama genérica de invasão extraterrestre.

Com um roteiro pouco inspirado e que demora a ter alguma movimentação, Battleship tem um primeiro ato que beira o enfadonho. Sem jamais desenvolver qualquer um dos personagens com qualquer profundidade, prefere estabelecê-los como clichês ambulantes: além do protagonista-arquétipo e sua namorada objeto (Brooklyn Decker), há a garota durona (Rihanna, que deve estar no filme porque a Michele Rodriguez estava ocupada), o soldado alívio cômico (Jesse Plemons), o cientista desastrado (Hamish Linklater), o militar durão (Liam Neeson) e por aí vai. O texto ainda peca pelos diálogos expositivos e tolos e pela motivação nada convincente dos vilões. Ou alguém acredita que alienígenas que não suportam o Sol teriam algum motivo pra invadir não apenas a Terra, mas qualquer planeta? Esse ponto fraco dos extraterrestres podem indicar duas coisas: ou preguiça dos roteiristas Erich e Jon Hoeber em encontrar algo melhor ou simplesmente falta de tato para perceber quando um elemento sem a menor coerência é considerado uma ideia boa o suficiente pra terminar no filme.

Apesar de tudo, o diretor Peter Berg é feliz na condução das cenas de ação. Mesmo usando do recurso da câmera na mão, por exemplo, o cineasta consegue mostrar tudo que está acontecendo nas batalhas do segundo e terceiro atos, o que surge como uma certa surpresa já que Battleship busca inspiração visual em outro sucesso da Hasbro, a cinessérie Transformers. Felizmente Berg é um pouco mais competente que Michael Bay e entende melhor de enquadramentos, assim como estabelece de forma satisfatória a geografia dos ambientes. Ponto positivo também para o mais próximo que o filme chega do jogo em que se baseou. Há uma solução até criativa para homenagear suas origens de tabuleiro.

O grande problema de Batalha dos Mares é, no entanto, fazer o restante do mundo se sentir confortável com tamanha propaganda bélica. Os EUA já não são um país muito bem visto por outras nações e forçar goela abaixo do espectador internacional toda essa veneração à Marinha sem ao menos dar em troca uma boa história e personagens interessantes não é a mais esperta das opções. Não há um único momento que não sirva para lembrar à quem está assistindo, sobre o poderio norte-americano. Um exemplo? O descartável subplot com a namorada de Hopper e o soldado de pernas mecânicas, que reforça a ideia das Forças Armadas daquele país só produzirem os melhores. A primeira cena no centro de reabilitação mostra vários membros da Marinha que usam próteses em situações extremas como escalada e exercícios pesados. É compreensível que se tenha respeito por quem se feriu em batalha, mas é condenável usá-los como propaganda.

Como se não bastasse isso, o longa se torna ainda mais piegas quando mostra os ataques em algumas partes do mundo sempre vistos pelos olhares de crianças, enfatizando umas 20 vezes que aquela é uma luta pelo futuro da humanidade. E há ainda o final, envolvendo veteranos de Guerras passadas. É claro, um filme que não exibe nenhuma timidez ao explorar a imagem de deficientes físicos, não teria problemas em fazer o mesmo com idosos, mesmo numa cena tão deslocada que se torna engraçada, da forma mais errada possível. Num momento em que o espectador deveria respeitar, a primeira reação é rir dos velhinhos que começam a aparecer na tela. Assim, fica a sensação que Battleship é uma propaganda cujo público-alvo está apenas na América do Norte. Lá, talvez, isso tudo funcione. Mas dificilmente fará efeito onde não se trata a Guerra como algo a ser celebrado.

Alexandre Luiz

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