Crítica: Mudo

Um corpo está boiando na água. A cena inicial de Mudo, que chegou à Netflix neste final de semana, em muito assemelha-se com a cena inicial de outro cyberpunk lançado há poucas semanas pela mesma plataforma: Altered Carbon. Com isso, quero crer que o motivo de adiamento de Mudo pela Netflix tenha sido para não bater de frente com as semelhanças que divide com seu seriado original, pois não havia mais tempo útil e hábil para melhorar o mais novo longa-metragem de Duncan Jones.
Assim, é preciso dizer algo: Mudo, apesar de visualmente encantador, não é bom, infelizmente. Junto com Warcraft, o longa torna-se mais um insucesso de Jones, o filho de David Robert Jones, também conhecido como David Bowie. No filme, acompanhamos a trajetória do barman mudo de nome Leo (Alexander Skarsgård), que é o corpo boiando no frame inicial da trama. Leo, que namora a garçonete Naadirah (Seyneb Saleh), parece ser um homem de tempos de outrora. Alheio às tecnologias, Leo, para usar um smartphone, precisa receber de presente um dos modelos mais antigos. Em um mundo digital, Leo é o estranho no ninho analógico. Para ele, tudo muda quando Naadirah misteriosamente desaparece um dia depois de contar para ele que guarda alguns segredos, mas que o namorado não faz questão de saber. Dessa forma, se a tecnologia do presente do filme faz Leo andar para trás e se sentir um estranho, o passado de sua namorada faz com que ele queira ser o homem que seguirá do presente ao futuro com ela. E assim a trama tem início.

Paul Rudd e Justin Theroux, que vivem dois médicos ex-companheiros de guerra na trama, ao menos em relação aos tempos de tela, dividem o protagonismo do filme com Skarsgård. Cactus, personagem de Rudd, é dúbio pela maior parte do filme, ora deixando seus excessos de fúria vazarem, ora resolvendo punir alguém por cometer atos de pedofilia. No entanto, a trama de Cactus e sua filha é rapidamente e pouco convincentemente explicada em determinado momento. O que leva Cactus a fazer o que faz é um tanto mal costurado na trama principal do filme.

Guardando ainda semelhanças com os filmes noir dos anos 40 do século passado, Mudo, em certos momentos, assume-se objetivamente enquanto tal: carros que poderiam fazer parte de antigamente começam a desfilar pelas ruas da cidade e uma série de contratempos vão surgindo na investigação. A trama se passa em Berlim, e embora não haja nenhum motivo específico para tal, creio que a única escolha possível foi pela cidade ter sido palco criativo da seminal trilogia de álbuns de David Bowie: Low (1977), Heroes (1978) e Lodger (1979) — a Trilogia de Berlim. Ou seja, foi uma homenagem ao Bowie, mas que não acrescenta nada ao roteiro.

Mudo ao menos possui uma trilha-sonora parcialmente interessante. Enquanto o casal de namorados povoa a narrativa, a trilha de Clint Mansell (curiosamente, ele é o responsável pela trilha de outro cyberpunk, A Vigilante do Amanhã, de 2017) utiliza-se do som eletrônico, o tipo de som mais propenso aos filmes futuristas, mas endossa-o com uma aura mais agridoce, servindo não só ao escopo futurista da trama, mas adocicando os momentos românticos vividos pelo casal.

Assim como não há nenhum motivo específico para o filme se passar em Berlim, o revestimento cyberpunk na direção de arte, escopo geográfico e figurinos não acrescentam em quase nada ao fio narrativo e o longa-metragem ainda cria 'plots' (histórias paralelas) que são abandonadas durante o filme, que ainda é excessivamente longo: 2h6min.

Como resultado, Mudo apresenta um anti-clímax, tentando embelezar seu final para rimar com o seu início sem se dar ao trabalho de justificar as razões para que, por exemplo, certa personagem estabeleça um forte laço emocional com outro personagem ao fim do longa (apenas um desenho em um guardanapo não é explicação suficiente), deixando alguns plots semi-abertos ou muito abertos (em determinado momento, e não é spoiler, Cactus encontra um oficial de polícia que destaca sua ansiedade e o oficial some do filme logo depois daí). Em outros momentos, vários, na verdade, personagens vem e vão apenas por conveniência. Há um instante em particular em que um personagem que está desacordado, consegue, ao receber a visita de um outro, dizer exatamente que algo foi levado de seu escritório sem que anteriormente ele soubesse que algo iria ser levado, visto que foi golpeado antes de tudo acontecer.

Para todos os efeitos, Lunar segue sendo a grande obra audiovisual da carreira de Duncan Jones.

Jônatas Andrade

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