Criticia: O Palhaço

Segunda incursão do ator Selton Mello na direção de um longa-metragem, O Palhaço conta a história de Benjamin (Mello), vulgo Pangaré, um palhaço de circo que viaja pelo país com a trupe comandada por seu pai (Paulo José). Em meio a dificuldades financeiras, Benjamin ainda tem que lidar com problemas pequenos, mas que o consomem; como fazer uma carteira de identidade, comprar um ventilador e conseguir um sutiã novo para uma colega de palco.

Encarnando o seu palhaço como uma figura triste e incapaz de sorrir, é impossível não comparar (salvas as devidas proporções, é claro) a concepção do personagem de Pangaré, com a versão que Robert Downey Jr. fez de Charles Chaplin no ótimo “Chaplin” (de 1992), quando o atual Homem de Ferro mostrou uma diferente faceta para um ícone da comédia. Sendo assim, é uma decisão um tanto corajosa, ainda que não necessariamente criativa, que Selton opte por apresentar ao público um palhaço depressivo.

Ainda assim, o filme conta com boas tiradas de humor (como as conversas dentro do carro) e um ótimo tempo para comédia – a história do gato Lincoln é hilária. Porém, tal humor muitas vezes é prejudicado pelas fracas e irregulares atuações de quase todo elenco, inclusive do próprio Mello, algo raro de acontecer. Mantendo aqui todo o respeito que tenho pelo mestre Paulo José (e lembrando que isso nada tem a ver com seu talento ou capacidade de atuar), sou obrigado a admitir também que, em alguns momentos, é difícil entender o que ele fala, devido à sua saúde debilitada.

Problemas a parte, o cineasta mostra que conhece bem a linguagem cinematográfica e sabe como construir seqüências criativas. Colocando os personagens sempre no centro do quadro, e muitas vezes mostrando eles parados antes de darem sua ação, o ator/diretor cria uma ambientação que remete diretamente ao teatro e ao universo diegético em que vivem aqueles personagens.

Reparem também como, no início da projeção, quando tudo ainda está relativamente bem, os planos em contra-luz falseiam a pequena dimensão do público que assiste ao espetáculo, fazendo a pequena apresentação parecer um grande show. Posteriormente, quando Benjamin já está consumido por seus problemas, tais recursos não são usados, o que ilustra bem as mudanças de “humor” de seu protagonista.

Ainda que tenha os seus defeitos – a parte da alucinação com ventiladores é inexplicável –, O Palhaço comprova (mais uma vez) o talento de Selton Mello no comando de um longa-metragem. Em entrevista, ele admitiu que ainda tem muito o que aprender, e que é exatamente a possibilidade de melhorar e aprender mais que o fascina nessa profissão. Tendo isso em mente, confesso que fiquei curioso para ver um possível próximo filme sob seu comando.

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