Rare Exports é um filme finlandês que mistura humor e horror e fala de tradições e lendas natalinas do norte da Europa. O longa-metragem de Jalmari Helander possui dois nomes no Brasil, Rare Exports: Natal Bizarro e Papai Noel das Cavernas, e obviamente se passa na véspera da data festiva, atravessando o último dia 25 do ano.
A trama desenvolve sua história a partir das experiências de integrantes de uma expedição científica que vão em busca de uma criatura ancestral no Ártico, e acabam encontrando um ser congelado, que seria a origem do mito do Papai Noel.
Duas coisas são importantes de salientar aqui, o longa, lançado em 2010 é uma co-produção entre Finlândia, Suécia, Noruega e França, mas se origina de dois curtas-metragens, Rare Exports Inc. (2003) e The Official Rare Exports Inc. Safety Instructions (2005). Não detalharei as tramas, uma vez que revelam spoilers sobre a virada no final do longa-metragem analisado.
Falaremos mais no final do texto.
A outra coisa é que essa obra varia entre a exploração de lendas antigas, que conversam até com Krampus até a figura de São Nicolau, que é o homem santo de Myra, conhecido também como Taumaturgo ou São Nicolau de Bari, um santo padroeiro da Rússia, Grécia e da Noruega.
O roteiro assinado por Jalmari e Juuso Helander se baseia na dramaturgia de Petri Jokiranta e Sami Parkkinen, e apesar de não citar nominalmente Krampus, o visual do ser mitológico congelado tem muitas semelhanças com a versão maligna do bom velhinho.
Curiosamente Nicolau era uma figura que distribuía riqueza, era caridoso, ajudava o povo pobre e proletário, e não a figura impulsionadora de consumo ou garoto propaganda de refrigerante de cola como é conhecida atualmente, e o roteiro busca resgatar algumas possíveis verdades por trás da lenda, localizando a narrativa na fronteira entre Finlândia e Rússia e começa 24 dias antes do natal, ou seja, início de dezembro.
Escavações encontram algo a 396 metros profundidade. A perfuração encontra serragem, espessa, em uma grossura absurda.
Daí Riley, o personagem de Per Christian Ellefsen é apresentado. Sua figura lembra uma mistura de vilões de Caçadores da Arca Perdida, com o visual de Arnold Toth e o caráter de René Belloq.

Os cenários montanhescos compõem um visual deslumbrante, ressaltados pela fotografia assinada por Mika Orasmaa, que valoriza a beleza natural de Korvatunturi, com as montanhas enevoadas, que servem de túmulo para o algo incomensurável.
Os efeitos especiais da Fake Graphics são assertivos, mesmo que o filme evite usar efeitos digitais. Não há tanto gore, mas quando aparecem cenas violentas e com a sangue a maquiagem de Salla Mäntymaa é de excelência.
A outra parte da trama envolve personagens proletários, que vivem a duras penas nas condições gélidas da Finlândia, caçando renas.
Eis que, misteriosamente, dezenas dessas renas morrem e os trabalhadores ficam sem a matéria prima do seu sustento, incluindo aí a família Kontio, no caso o pai Rauno, personagem de Jorma Tommila e seu filho, o pequeno Pietari, de Onni Tommila.

A cena dos homens observando a enorme quantidade de animais mortos é poderosa, demonstra a grandiosidade do feito malévolo e ser de preambulo para a preocupação com algo maior, com as necessidades e gastos deles além de deixar explícito a preocupação urgente com o sustento das famílias que dependem desse comércio.
Com o tempo é mostrado que Pietari morre de medo de histórias natalinas, desenvolvendo uma fobia ao Papai Noel, ao passo que os adultos, incluindo seu pai, Aimo (Tommi Korpela) e Piiparinen (Rauno Juvonen) resolvem invadir a instalação russa, atrás de respostas.
Ao chegar lá percebem um enorme buraco de escavação, mas ninguém nas caras instalações. Seja lá o que havia ali antes, os rastros foram cobertos.
Dentro da investigação, os personagens se deparam com situações semelhantes ao visto no clássico Enigma de Outro Mundo, do mestre John Carpenter.
Em comum há o cenário de neve e também a irresponsabilidade de uma grande companhia e de governos, em manejar algo ou alguém que pode causar infortúnio para uma nação e talvez até para o mundo.
Mesmo diante dessa série de eventos nonsense, dá para perceber que a relação entre os protagonistas é fria, aparentemente. O pai tenta em vão esconder a tristeza, possivelmente por desespero financeiro, mas também temperada pelo luto, resultando provavelmente em um misto dos dois sentimentos.
Piiparinen encontra um corpo, de um trabalhador de uns 50-60 anos, interpretado por Peeper Jakobi, e achando que o sujeito estava morto, decide com Rauno "fatiar" o sujeito. Pouco antes do esquartejamento, o sujeito responde a estímulos.

A figura é estranha, e aparentemente tem a ver com o mistério das renas e com os relatos e boatos dos vizinhos, que afirmaram que uma figura sombria passeava pela localidade, roubando sacos de batata e aquecedores caseiros também.
Desesperado, o menino afirma que aquele era o Papai Noel e é prontamente ignorado, menos por Piiparinen, que se tornou crédulo após ter sua orelha arrancada pelo idoso misterioso.
O sujeito segue sem falar, parece não ter muitas habilidades sociais, fora a força descomunal, além de ter olhos brilhantes e um tom amarelado. Fosse o que fosse, havia algo mágico nele.
A partir daqui haverão spoilers que certamente vão estragar a experiência de quem se importa com isso.

Os trabalhadores acorrentam o homem, e o levam ao magnata, que revela a eles a real identidade dele, como duende/elfo, um dos servos de Noel, e aparentemente após todos terem ciência dessa identidade, surgem outros idosos, da mesma floresta estranha, que saem meio que do acaso.
O conceito dos duendes é uma doideira, uma vez que são senhores idosos, que raptam crianças para alimentar seu ídolo e mestre, cuja resistência física é descomunal.
Os vinte minutos finais viram uma loucura total, com direito a uma perseguição de elfos aos humanos, tentando proteger o monstro congelado, o assassinato do homem rico, e um plano arquitetado rapidamente, mas que dá certo.

Mas o nonsense não para nos elfos, já que é a criança quem lidera o plano para isolar a criatura de seus protetores. A tal criatura congelada referencia o mito conhecido como Joulupukki - lê-se ”iôulupuki- ou Yule Goat, o Bode do Natal, que por sua vez, tem origem no ser místico Nuuttipukki.
Joulu significa natal em finlandês e pukki, tem vários significados, desde bode, antílope, a um homem velho fanfarrão. O personagem que é retratado em imagens antigas como híbrido entre homem e bode data do começo do século XVIII.
A entidade chamada Nuuttipukki era o personagem central de uma festa pagã, e era celebrada na Finlândia e Suécia em 13 de Janeiro. Nessa data as pessoas andavam pelas ruas vestidas com roupas de pele de animais e máscaras. As crianças, que seguiam a tradição com suas fantasias, percorriam a vizinhança apresentando cantigas tradicionais em troca de doces e presentes.
Não ficou claro como o Nuuttipukki ou Joulupukki acabou se tornando a figura de consumo que é conhecida como Papai Noel, sequer há no filme um esforço para associar essa história ao bom velhinho.
A crença geral foi que ao longo do tempo tradições orais se misturaram e com a escrita começou o registro de variações dessas lendas, até o que se sabe hoje a respeito de São Nicolau de Myrna. Esses conceitos não são explícitos e cabe ao público pesquisar e se informar, como fez Pietari ao longo do filme. Mas até esse personagem se transforma, se permite mudar e evoluir.
O menino chega a se pendurar na carga de um helicóptero, algo bem perigoso...até sua saída é perigosa, já que ele se joga nos fios da cerca onde os seres mágicos ficarão presos.

Ele que começou o filme muito infantil, se agarrando a brinquedos para se sentir seguro, e até usou uma roupa de hóquei já que no seu guarda-roupas não havia nada mais seguros, acaba vencendo sua própria insegurança. Com o tempo, ele supera a fobia da figura mitológica e até o medo de morrer, se colocando em um perigo real, sem se permitir ser impedido por qualquer adulto.
O desfecho envolve um baita plot twist, envolvendo a criatura e seu "legado".
O trio, com poucas opções de renda, higieniza os elfos idosos, adestram eles com os modos que o Bom Velhinho prega para as crianças, e passam a exportar "os genuínos papais noéis europeus" para todo o mundo.
Os dois curtas citados antes, mostram o trabalho da Rare Exports, inclusive com alguns dos personagens desse filme. Neles os trabalhadores caçam papais noéis selvagens, embalam, treinam e enviam para o mundo.
Como nessa versão dos irmãos Helander há uma quantidade exorbitante de velhos, há um paralelo não só com os milhares bons velhinhos de shopping, como também acaba explicando a suposta onipresença do Papai Noel na noite entre 24 e 25 de dezembro, sendo enfim uma força tarefa que entrega os presentes das crianças.
É estranho e nonsense, a comercialização élfica, quase humana, direto da terra do Papai Noel original. Rare Exports resulta em uma comédia de moral questionável e politicamente incorreta, que ainda fala brevemente o bode de Yule e a lenda pagã que acabou sendo absorvida nos festejos cristãos do nascimento de Jesus, abordando tudo isso numa trama direta, engraçada e repleta de mistérios.









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