Autodestruição e Renovação: A Trajetória de Ethan Hunt em Missão: Impossível

Pondo por terra todo o legado do seriado original – e do remake - o início de trajetória de Missão: Impossível nos cinemas tem um caráter de super espionagem, influenciado demais pelos filmes de 007, mas resgatando alguns sinais canônicos da franquia.

A Auto Destruição:

Já nos primeiros minutos, a equipe que predominava no show tem uma nova versão, encabeçada pelo mentor Jim Phelps, personagem oriundo da série, vivido nesta encarnação por John Voight e que era interpretado por Peter Graves, em 1967 a partir da segunda temporada do seriado e no remake de 1988, sendo o personagem mais recorrente em número de vezes dentro dos shows televisivos, o que obviamente causou um estranhamento na parte dos fãs que tinham nele o referencial de líder incansável do IMF – Impossible Mission Forces.

A abordagem que Brian De Palma dá a nova versão de Missão: Impossível é magnânima, digna de um arrasa-quarteirão, que se baseia em um elenco formado por um astro cada vez mais famoso, um veterano e prolífico ator e em uma trama repleta de tragédias. Apesar do cenário do novo protagonista ser tão grandiloquente, Tom Cruise não parece ainda a vontade com o papel, demonstrando uma insegurança que faz combinação com seus métodos e com seu código ético ainda em formação. No entanto a canastrice do artista cobra um alto preço junto a fita. A inocência e ingenuidade de Hunt se manifesta através de devaneios e sonhos com seus antigos companheiros, além de apresentar uma sequência de cenas onde a tensão sexual é o que predomina, relembrando que o arquétipo da juventude por vezes dá mais vazão aos hormônio que aos neurônios, mas que não funciona, especialmente pela visão que predomina na crítica de cinema especializada.

Apesar de todo o arcabouço visual muito bem enquadrado, falta substância ao roteiro, que tem a sua volta pontos altíssimos e momentos de muita inspiração do talentoso diretor, mas que não condizem com as situações e nem com o personagens arquetípicos traçados pelo argumento de David Koepp e Steve Zailliam e roteiro de Koepp e Robert Towne.

O filme e toda a franquia foram reavivadas em um momento em que não era fato comum o revival de séries antigas, mas funcionou comercialmente, se provando um acerto financeiro em cheio da parceria em produção de Tom Cruise e Paula Wagner, além de representar uma pessoalidade enorme na construção do script, que foi abandonado em determinado momento por Koepp e assumido por Towne, que por sua vez, tinha a presença de Cruise o tempo inteiro na feitoria do texto.

Fato marcante é que um dos ditames para o cinema de ação dos anos noventa foi este filme, bem como para aos filmes de assalto, com influências que iriam desde o visual saturado de cores, até as sequências de ação repletas de adrenalina, inclusive introduzindo um novo arquétipo físico de herói de ação, saindo os brucutus marombados, democratizando e pulverizando a virilidade do paladino, conseguindo manter uma aura extrema adrenalina mesmo com agente de baixa estaturas e sem um perfil atlético indiscutível.

A capacidade dos membros do "novo" esquadrão é semelhante ao uma equipe de vigilantes comuns, como visto normalmente nas fileiras dos Minutemen em Watchmen, ainda que seu principal agente destoe ainda mais da realidade, já que Ethan concentra em si a maioria das ações visuais, demonstrando até capacidades sobre humanas, tanto pelas proezas que faz quanto pelo pedantismo exacerbado. Cada atitude de Hunt exala um forçar de masculinidade bastante desnecessário e risível, desde falas que diminuem a moral de seus colegas, até caminhadas pela rua chuvosa em guarda chuvas ou capas, além, claro, das corridas onde só se movem os antebraços.

Hunt só mostra algum traço de humanidade quando diante de Jim, abrindo mão por um momento, diante da figura que o inspirou. Sua onipotência encolhe diante do ardiloso e prepotente plano de traição, que relembra a paranoia da Guerra Fria e deturpa os personagens principais das outras encarnações da saga. As sequências finais, arrojadas para a época, envelheceram mal, especialmente os momentos mais escapistas, como a irreal perseguição acima dos  vagões de trem, cujo ar de falsidade não chega a impedir a suspensão de descrença do público - mesmo com a frequentes coincidências e apelos ao milagre do cinema - mas irritam pelo excessivo uso de bonecos de CGI mal feitos. Por vezes, os acordes de Danny Elfman soam como algo irritante, graças ao distanciamento deste do objeto original.

Reanimação: A Tentativa de Voltar as Origens

Com Cruise seguindo na produção executiva da saga, os episódios cinematográficos passaram a ser executados como antologias, com um novo diretor e abordagem por filme. O estilo do longa vem na esteira da filmografia americana de John Woo, com uma violência e peripécias bastante estilizadas. Ethan retorna de cabelos maiores, com as madeixas prontas para ser o primeiro sinal visual da transformação, sendo a música de Hans Zimmer mais um dos fatores diferenciais. O uso mais irrestrito de máscaras e equipamentos de alta tecnologia autodestrutivos faz este se assemelhar um pouco mais ao seriado original.

O encalço do destino amoroso do super agente também é melhor definido, fixado em uma figura belíssima, a ladra Nyah Nordoff-Hall (Thandie Newton). A carga de erotismo neste é bem maior, apesar de ser bem mais apelativa e de qualidade discutível. Já nas primeiras cenas, Cruise exibe seus músculos em cenas de tremenda exposição e exibição gratuita. A concentração de profundidade apenas em Hunt diminui ligeiramente, mas todos os outros corpos seguem orbitando ao redor dele. A trama envolvendo uma arma química é interessante, até pelo aporte na nova década de uma série de paranóias relacionadas a doenças.

A câmera em velocidade reduzida faz do filme uma ode ao cinema de Sam Peckinpah, enquanto a movimentação das personagens lembra bastante os filmes de samurai de Akira Kurosawa. No entanto, a ordem dos fatos segue um descompromisso com realidade e com os padrões do cinema de ação norte-americano, apresentando uma outra série de clichês. Os momentos variam entre interessantes paralelos entre motovelocidade e de lutas medievais, até referências que mais parecem comercial de shampoos, que termina de maneira açucarada e colorida, aludindo a uma aposentadoria do action hero, que obviamente não se concretizaria.

O erro de Woo está exatamente na sua melhor característica, pois seus estilo pessoal acaba por preencher todas as qualidades do filme, incluindo na equação os positivos e negativos. A ausência de um vilão interessante é repetida, e se não reprisa a questão da traição do personagem antigo, tenta em vão apresentar um nêmesis de proporções iguais, com um Sean Ambrose vivido por Dougray Scott que não convence como contraparte de Hunt, que tem um ator cujo passado profissional em nada combina com filmes de ação, o que se reflete na dificuldade em ser um antagonista a altura. Tampouco houve uma utilização interessante da equipe no entorno, o que segue afastando os filmes do ideário original.

A Volta As Origens: A Trilogia Moderna de Hunt

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A terceira abordagem é a partir da experiência de J.J. Abrams, que surpreendentemente começa com uma câmera tremida, a la Paul Greengras e Nova York Contra o Crime, com Hunt vendo a esposa Julia (Michelle Monaghan) em perigo. Toda a equipe de roteiristas mudou, com o texto assinado por Alex Kurtzman, Roberto Orci e Abrams, outra mudança, já anunciada nos momentos finais do filme de John Woo, era a aposentadoria de Hunt, que havia sossegado, se casado e esquecido todo o passado. O retorno dos "pedidos de viagem" fez com que ele repensasse sua posição, retornando a ação junto ao seu companheiro Luther Stickel (Ving Rhames), além de ter uma nova equipe, bem mais proativa que as outras, influência clara do fanático por seriados que Abrams era.

A missão consistia em resgatar uma antiga discípula de Hunt, o que infere uma questão pessoal, que se agrava com a morte dela. O caráter de falsidade em realização se torna definitivamente charmoso no terceiro filme, incluindo brincadeiras com a feitoria de uma máscara do vilão Owen Davian, rival intelectual do super agente, bem executado por Phillip Seymour Hoffman, que estava no auge de seu talento e carisma.

Os tons de azul presente nas luzes e na arquitetura de todos os cenários remetem a melancolia de um homem arrependido de seus atos pretéritos, rancoroso consigo mesmo por ter retomado suas atitudes, mas ainda assim preso a antiga rotina, como se agir como espião fosse o único modo de vida que lhe resta. A resignação dele encontra eco em alguns dos erros de execução dos planos, mas não o suficiente para fazê-lo fracassar, e apesar de seguir como um homem de capacidades semidivinas, Hunt apresenta mais defeitos, mais hesitações, ganhando um ar de profundidade maior, um pouco além da figura de perfeição em condições de perigo e adrenalina extrema. O desfecho também aventa a possibilidade de Hunt tornar-se civil, mais uma vez com uma adocicada conclusão, para novamente retornar com uma recaída.

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Depois de se especializar em animações, Brad Bird conduziria uma fita live action, que se iniciaria ainda mais videoclíptica que o capitulo três. Logo no começo se estabelece que a equipe de apoio varia sempre a volta de seu objeto de atração, no filmes  sendo normalmente Hunt, mas no período entre os episódios recentes, era Trevor Hanaway (Josh Holloway). O sinal mais evidente da valorização da equipe é o retorno de Benji (Simon Pegg), que tem até ações de campo, junto a Hunt. De todas as encarnações cinematográficas, esta equipe da IMF é a mais ligada em termos de cooperação mútua, tanto que conseguem eclipsar a falta de uma figura vilanesca carismática.

Talvez a mais arriscada aposta do roteiro de Josh Apelbaum e André Nemec, tenha sido a funcionalidade da vida privada de Hunt, que passa então a parar de fingir querer levar uma rotina normal para se assumir como agente quase imortal em tempo integral, inclusive aludindo ao fim da vida privada de casado que levava com Julia (Michelle Monaghan), mas sem ignorar por completo a plot, até aludindo a ela momentos antes de finalizar a fita.

Apesar de não ter quase nada de semelhanças com o seriado de Bruce Geller, através das mãos de Wagner/Cruise – parceria que durou até o terceiro filme -  se desenvolveu uma saga que vai se tornando cada vez mais interessante com o passar do anos, claro, apelando bastante para a suspensão de descrenças, mas apresentando tramas interessantes e roteiros que se aprimoram, atingindo o ápice de bela urdição deste novo Nação Secreta.

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Curiosamente, Paula Wagner, que saía da franquia, teria produzido o primeiro filme dirigido por Christopher McQuarrie com Cruise protagonizando, em Jack Reacher O Último Tiro. A parceria entre ambos compreendeu alguns filmes, entre eles Operação Valquíria e No Limite do Amanhã. Credenciado por Os Suspeitos, de Bryan Singer, McQuarrie não tinha realizado muitos filmes antes de Nação Secreta. Seguindo a esteira de Brad Bird, o quinto filme apresenta até sinais de estilo próprio, já que esta era parte da proposta no revezamento na cadeira de diretor, mas consegue um equilíbrio entre roteiro e momento de adrenalina e ação.

O apelo ao principal inimigo da IMF, com a instituição do Sindicato, vem para justificar toda a ausência de vilania em Protocolo Fantasma, bem como resgata parte da genialidade de Owen Davian em Missão Impossível 3. A estranha e incógnita do antagonista de nome Soloman Lane, vivido pelo emergente Sean Harris, se assemelha demais aos melhores vilões de 007, essencialmente sério e calado, escondendo através de uma persona peculiar, uma intelectualidade monstruosa, finalmente retornando como um vilão que rivaliza com o protagonista em inteligência.

Tom Cruise segue se valendo da extrema beleza que têm para fazer seduzir o público, mas encontra em um par de Rebecca Ferguson e sua Ilsa Faust, uma agente britânica, ex-MI6, que tem dificuldades em provar que está infiltrada no Sindicato. As ações de campo são bem melhores divididas, até pelo fato de Hunt estar foragido, e o argumento ser mais inteligente, por usar a personagem Alan Hunley de Alec Baldwin para discutir as ações intempestivas da IMF, que chega a ser dissolvida pela Central de Inteligência Americana.

A presença de Jeremy Renner é repetida neste, e seu William Brandt consegue ter bons momentos de ação, inclusive acompanhando Cruise em sua corrida que compreende somente o movimento de antebraços. Benji também está de volta, assim, como há uma aproximação da atual equipe de Luther, que em sua especialização, se mostra o mais exímio, além de ser figura fiel ao seu amigo de longa data, desde o filme de Brian de Palma.

A sensação de família no quarteto – quinteto, se contar com Ilsa – se prova no momento de maior crise, onde a IMF já não existe e o herói clássico vive na clandestinidade, como se a resposta para a crise, fosse uma maior ação conjunta, que consegue ser madura e verossímil, mesmo com as grandes cenas de ação de cunho irreal. A trama pensada por McQuarrie é a mais catastrófica de todas as cinco, e a mais bem construída, tanto em tensão quanto em cunho emocional, fazendo valer o espírito aventuresco de Hunt, onde não há mais espaço para negar sua volúpia por escapismo e adrenalina.

Após tantas incertezas quanto ao futuro, Missão: Impossível segue bem encaminhada para possíveis continuações, com ou sem seu astro principal, em uma variação estilística que finalmente encontrou sua identidade independente do seriado, isso sem necessitar dos famigerados reboots, não abrindo mão de bons textos, provando que a pecha imbecil de “o filme cumpriu o que se propôs” não passa de um sofisma barato, como justificativa para erros constantes nos atuais blockbusters. A mediocridade não abarca o atual momento de Ethan Hunt e seus convivas.

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