Cinerama: David Lynch - Parte 1

1979 – Lee International Studios. – Londres.

Sentado com seu milk-shake na cadeira de diretor, esperando a demorada maquiagem de John Hurt ficar pronta para fazer mais uma diária de The Elephant Man, David Lynch é interrompido de sua quietude por seu Produtor Jonathan Sanger: “David! Quero que conheça esses dois amigos meus lá de São Francisco. Eles trabalham com George Lucas na ILM.” Animado e boa gente como sempre, Lynch os apresentou o set e todas aquelas figuras.

Papo vai, papo vem, um dos rapazes lhe disse: “Superinteressante, David. Gosto muito de seu trabalho de câmera, amei “Eraserhead” e os efeitos orgânicos que você fez.” Feliz, Lynch agradeceu e perguntou onde eles haviam visto o filme. O mais jovem foi logo falando: “Semana passada estávamos em Elstree Studios e encontramos com Kubrick gravando com Nicholson e aí ele ficou falando sobre umas referências em seu filme novo e perguntou se não gostaríamos de ir até a casa dele para assistir o seu filme favorito. Aceitamos e aí ele nos mostrou uma maravilhosa cópia em 35mm de “Eraserhead”.” David quase caiu para trás. Um largo sorriso surgiu em seu rosto e ele soltou um longo e alto: “Uauuuu! Great!!”. Um dos homens que mais haviam inspirado Lynch não só admirava o primeiro filme dele, como o exibia a diversas pessoas e o usara como ponto de partida para The Shining, chegando a dizer até que Eraserhead era o único filme que achara incrível e já teve a vontade de ter sido o diretor. O jovem sonhador do interior americano que juntava artes plásticas e surrealismo e que havia lutado por cinco anos para finalizar seu primeiro filme ouvia isso e mesmo assim não conseguia imaginar nem metade das realizações que encabeçaria a seguir.

David Lynch

O primeiro surrealista popular

Nascido em Missoula, Montana, David é filho de um pesquisador do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos e de uma professora de Inglês. Lynch não vivia mais do que 6 meses em uma cidade que não tivesse árvores o bastante para seu pai pesquisar e dizer coisas maravilhosas sobre suas texturas, seus nomes e peculiaridades: “Então, toda a cidade que eu ia, era uma verdadeira Disneylândia selvagem, que não tinha mais do que 4 quadras. Todos sempre faziam um churrasco a céu aberto quando chegávamos nessas cidadezinhas. O bom foi que eu treinei muito o meu senso de comunicação, de modo a fazer amigos logo que me mudava”.

Garoto de classe média, sua vida, apesar de nômade, sempre foi repleta de cercas brancas, jardins bem cuidados e casas vitorianas com cômodos extensos e largos.

Em meio a tantas viagens, Lynch conheceu o artista Bushnell Keeler, pintor premiado que disse ao futuro diretor que seu gosto pela pintura se diferenciava do gosto das outras crianças porque ele procurava materiais diferentes para fazer suas pequenas gravuras. Maravilhado de saber que podia fazer por toda a sua vida aquilo que o deliciava, Lynch embarcou para a Escola de Belas Artes de Boston, na qual foi amigo de quarto de Peter Wolf, mas ao passar pela rotina estafante de “Engessar o talento”, David e seu melhor amigo Jack Fisk decidiram que iriam para a Europa encontrar com o pintor expressionista Oskar Kokoschka para treinar a pintura como se devia, em telas brancas.

Quando chegaram à Europa, Kokoschka não estava disponível a novos alunos e o que deveria ser uma viagem de três anos, se tornou um passeio de quinze dias. Logo, os dois retornaram a terras Americanas.  Mais uma vez os pais de Lynch haviam se mudado e ele decidiu que partiria para sua própria vida artística, indo para a Filadélfia onde se tornou aluno da Academia de Belas Artes da Pensilvânia.

David Lynch

Vivendo por lá com sua recente esposa – Peggy Lynch – e sua filha recém-nascida – Jennifer Lynch – David trabalhava imprimindo gravuras e prosseguia com seus estudos na Academia, até que um dia ele e seu amigo Jack Fisk, que começava a trabalhar como diretor de arte e se interessava muito pela área, discutiam sobre a vontade que David tinha de ver suas pinturas se mexendo. Encorajado por Jack, Lynch arrumou uma precária 8mm e desenvolveu o roteiro e a estrutura de Six Figures Getting Sick (Six Times), de 1966, que era exatamente isso, seis “homens” adoecendo e vomitando em stop motion frente a objetiva, por seis vezes. O experimento que foi bem sucedido pela quantia de 200 dólares – fortuna para Lynch, que vivia em um perigoso bairro da Filadélfia, onde pessoas eram assaltadas e morriam todos os dias – fez muito sucesso na escola e foi comprado por um homem rico em uma feira que a Academia promoveu, e esse mesmo homem o incentivou a continuar fazendo filmes e se prontificou a financiar a próxima loucura de David.

The Alphabet de 1968 foi o resultado, uma mescla das técnicas de pintura e animação – adquiridas em Six Figures – e de imagens em movimento e imagens de longa exposição, de uma mulher – no caso sua própria esposa – a “dançar” durante uma febril e agoniada recitação do Alfabeto. O curta de três minutos impressionou ainda mais que o primeiro, levando Lynch a ganhar uma bolsa para a American Film Institute, e ele largou a Belas Artes pelas salas de cinema.

Com curtas como “The Grandmother” de 1970 e “The Amputee” de 1974, David Lynch impressionou todos na American Film Institute, e era tido por muitos professores como o melhor aluno da instituição. Quando o cineasta propôs a criação de mais um material, a Instituição se mexeu para ajudar o “garoto”.

Lynch apresentou a eles 21 páginas do que seria “Eraserhead”, um média-metragem, olhando pelo ponto de vista técnico de roteiro, com cada página equivalendo a 1 minuto de filme. Achando o material surrealista demais para conseguir agradar o público, alguns conselheiros tentaram convencer David a colocar mais elementos que contassem melhor o drama do homem que tem uma mulher jovem que dá a luz a um bebê deformado e anormal. Recusando todas as sugestões, Lynch defendia fervorosamente as páginas e o estilo visual e iconográfico que elas teriam quando transformadas em imagem. Convencidos de que nada mudaria Lynch de ideia, conseguiram 10 mil dólares para que ele fizesse o material. Lynch reuniu seus amigos mais próximos: Jack Nance, Jack Fisk, Alan Splet, Frederick Elmes e Sissy Spacek – que mais tarde estrelaria “Carrie - A Estranha” – e montaram nas dependências desativadas do campus da AFI algumas locações, que passaram a servir de moradia para Lynch também, quando cortou o dinheiro gasto com aluguel para alimentar a equipe.

As filmagens principais começaram em maio de 1972 a todo o vapor, mas foi interrompida fatalmente em Junho, pois o dinheiro acabou. Quando procurou a AFI para conseguir terminar a película, que a essa altura não seria mais considerada um média, eles o frearam: “Me disseram que ninguém queria dar mais de 7 mil dólares a ninguém, pois filmes estavam sendo feitos com pouco orçamento e arrecadando muito desde “Easy Rider””. Sem saber de onde tirar dinheiro para finalizar o material, as filmagens pararam por cerca de 6 meses. Amigos doaram suas poupanças, o pai de Lynch hipotecou a casa, e David cortou drasticamente todos os seus gastos, alimentando-se no máximo 2 vezes por dia: “Certa vez, quando estava quase conseguindo dinheiro para rodar um rolo de 9 minutos, meu pai e meu irmão mais novo me levaram para o porão e começaram a gritar comigo dizendo que eu deveria esquecer “Eraserhead” e encontrar um emprego de verdade, pois eu tinha uma filha e estava sendo irresponsável. Concordo com eles, mas “Eraserhead” era uma coisa que ou eu fazia ou eu morria, e decidi não morrer”.

david lynch

Lynch gravou mais cerca de 9 minutos de material e a produção congelou por mais 1 ano e meio. Durante esse tempo, passou a entregar jornal e a fazer pequenos bicos em todos os lugares. Peggy Lynch, agora divorciada dele, o ajudava com as despesas de sua pequena filha, que tinha uma deformidade em sua perninha esquerda e teve de passar por inúmeras cirurgias para a correção: “David era carinhoso, mas evitava um pouco Jennifer, talvez por medo de machucá-la, de fazer mal sem querer, ou por não conseguir conceber direito a ideia de que tinha outra pessoa que dependia exclusivamente dos cuidados dele. Ele não estava tão preparado para ser pai assim.”

Depois de muito tempo e mais esforço conjunto ainda, eles voltaram e gravaram mais um pouco: “Jack Nance foi minha sorte, pois ele acreditava muito e foi muito bom ter alguém que esperou mais de um ano no papel e que não mudou um centímetro de seu cabelo em todo esse tempo. Sem ele “Eraserhead” não funcionaria.”

Outras pausas aconteciam, com menor espaço de tempo, mas essa “agilidade” não tirava a sensação de derrota que David sentia: “Pensava dia e noite em montar uma maquete de papelão e acabar logo com aquilo eu mesmo, mas as pessoas me puxavam, e isso foi lindo, mas era muito ruim se sentir deixado para trás, derrotado. Eu não conseguia mais ver televisão, olhar para a minha filha crescendo, pois me sentia impotente. Minha sorte foi a técnica da meditação transcendental, pois pude encontrar em mim mesmo a motivação para terminar o filme, e me sentir feliz com isso”.

Com o longa finalmente pronto, em 1977, Lynch tentou enviá-lo para Cannes, mas foi recusado, e isso aconteceu em diversos outros festivais, até que conseguiu exibi-lo no Los Angeles Film Festival, onde o dono da Libra Films se interessou pelo filme, pelo esforço que foi realizá-lo e fez negócio com Lynch para distribui-lo em todo o Estados Unidos, o que aconteceu, tornando uma produção que custou 20 mil dólares em sucesso de 7 mil em arrecadação nas bilheterias – sim, para esse tipo de filme é muito –, onde ficou por mais de dois anos graças ao sucesso das salas de “Sessão da Meia Noite”, onde filmes como “Pink Flamingos” e “The Rocky Horror Show” faziam furor. David tirou um enorme peso da consciência e partiu para escrever outras coisas.

Com um roteiro tipicamente “Lynchano” chamado “Ronnie Foguete” quase uma mistura de “Eraserhead” e o que mais tarde seria “Twin Peaks”, o cineasta foi a diversos pequenos estúdios, mas todos recusaram o material, até o dia em que Stuart Cornfeld – que na época trabalhava como Produtor com Mel Brooks, que acabara de fundar a BrookFilms e estava em busca de talentos – ligou para David e disse: “Amei “Eraserhead” e quero que trabalhe conosco. Você é original, ousado e maluco. É isso que precisamos no cinema americano, coração selvagem e artista. O que anda fazendo? Vamos produzir o que quiser.” David arregalou os olhos e contou a história de “Ronnie Foguete”, que foi bem recebida por Cornfeld, mas que certamente levaria tempo até que alguém aceitasse colocar dinheiro no projeto.

Alguns meses depois, David ligou para Cornfeld e disse: “Bem... Esqueça Ronnie! Encontre um roteiro que eu posso filmar. Faço Ronnie depois que tiver algum dinheiro.”. Cornfeld buscou roteiros que haviam sido entregues em seu escritório e da enorme pilha, selecionou cinco e foi até Lynch que ao ouvir o título “The Elephant Man”, gritou do outro lado da linha. “É esse Corn! Temos o filme. Acha que consegue financiamento para esse??”. E Cornfeld disse: “Certamente”.

david lynch

O roteiro de Chris de Vore e Eric Bergren conta a história de um pobre homem, que por motivos estranhos nasceu deformado e foi abandonado ainda criança, usado como atração de circo, sendo chamado de Homem Elefante, por conta de sua estranha pele e braços, que se assemelhavam a uma tromba. Ao ser encontrado nos becos de Londres por um médico que decide estudá-lo, percebe-se que o homem não só fala e tem consciência, como é extremamente inteligente e cortês, apesar de todas as barbaridades pelas quais passou.

Emocionante e com uma mensagem lindíssima colocada no barco, Lynch reescreveu o filme colocando bastante de sua pessoalidade e estilo, tornando o roteiro um assombroso, mas terno, conto de fadas.

Mel Brooks decidiu que pagaria grande parte do projeto pela sua empresa e captaria o restante do valor necessário para o filme. Ao assistir “Eraserhead” para dar o aval sobre Lynch dirigindo, Brooks entrou e saiu da sessão o mais sério possível – o que era extremamente difícil. Lynch ruía as unhas, pois se tratava de seu primeiro grande filme e tudo tinha de dar certo. Ao sair da sessão foram até um café e sentaram-se. Brooks continuava com a cara séria. Quando Cornfeld perguntou: “O que achou, Mel?”. Brooks olhou para Lynch fixamente, totalmente sério e soltou uma enorme gargalhada: “Você tinha de ver sua cara, David! Você é louco! Eu te amo! Você tá dentro!” dizia a gargalhar e a dar palmadinhas nos ombros de Lynch que sorria o mais constrangido possível. Era oficial, David Lynch era diretor.

Em 1979 as filmagens começaram e para o elenco, Lynch reuniu talentos como John Hurt para o papel de Homem Elefante e Anthony Hopkins para o papel do Dr. Treves. As filmagens foram muito tranquilas e David conseguiu fazer um filme comercial e manter sua marca surrealista em cada uma das cenas, começando pela escolha da fotografia em preto e branco e dos cenários industriais sujos e mal iluminados que lembram muito os de “Eraserhead”. O Design de Som é outra coisa que chamava a atenção no filme anterior de Lynch. Quase como um personagem, os ruídos perturbadores são uma constância nas cenas e mantêm o clima de atenção aguçado.

Com o lançamento no primeiro dia do ano de 1980, a bilheteria estourou em 26 milhões apenas nas terras do Tio Sam e o filme cujo orçamento era 5 milhões, se pagou inúmeras vezes, foi indicado para 8 Oscars – inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor – o que transformou Lynch em uma celebridade, que não precisava mais entregar jornais nem morar em suas locações. Na cerimônia daquele ano, Woody Allen concorria a Melhor Filme e Melhor Diretor por “Hannah e Suas Irmãs” e declarou no tapete vermelho que o seu favorito era “The Elephant Man”. O filme não levou nenhum dos 8 prêmios, mas deu a Lynch uma carreira e uma reputação gigantesca.

Com o sucesso, Lynch recebeu inúmeras ofertas, inclusive uma bem tentadora de George Lucas, que o convidou para dirigir o último filme da trilogia original de Star Wars, “O Retorno de Jedi”. David recusou, aconselhando Lucas a ele mesmo dirigir o filme e manter a unidade de direção entre os longas, coisa que Lucas realizaria com a segunda trilogia.

david lynch

Mesmo recusando Star Wars, pouco depois Dino DeLaurentiis, que havia comprado os direitos do romance de ficção cientifica “Dune”, ligou para Lynch oferecendo a direção do longa, que já tinha passado pela mão de Ridley Scott, Alejandro Jodorowsky e até de Salvador Dali, mas nunca havia saído do papel por conta de seu enredo denso, pouco adaptável e de seu universo extremamente complexo. Aceitando o projeto, assinou um documento que restringia seu papel como Diretor a sugerir os técnicos e atores e filmar as cenas, estando vetado seu direito ao corte final e a alterações consideráveis do roteiro sem prévia autorização dos produtores. Mesmo sabendo que estava vendendo sua alma, assinou o contrato de “Dune” e  de mais 2 filmes com a Dino DeLaurentiis Corporations.

Escrito para ser um sucesso como “Star Wars”, o filme tinha diversas personagens estranhas, famosos em papeis chave – Sting do The Police na pele de um dos vilões – e envolvidos em outros setores como a composição da trilha sonora, que era responsabilidade do grupo TOTO e de Brian Eno, que embora fizessem bem seu trabalho, só foram envolvidos para dar retorno aos 45 milhões gastos na produção.

Apesar de bem dirigido, o filme é cansativo, estranho – mesmo estando no universo Lynchano – e de enredo pouco envolvente e interessante. Lançado em 1984, foi um fracasso de bilheteria, mas principalmente um fracasso artístico. Lynch não gostava do resultado, mas odiava muito mais o fato de não ter voz durante toda a produção e suas escolhas não serem mantidas.

Diversas versões do filme foram lançadas após o lançamento original, todas sem o consentimento de Lynch, que depois de alguns anos pediu que o filme fosse creditado a Alan Smithee, pseudônimo muito utilizado por diretores que se negam a assinar a obra, por não terem nela, suas impressões pessoais e artísticas: “Eu sabia que teria problemas quando assinei o contrato, esperava que desse certo, mas não deu. Quando você faz o filme a sua maneira e ele fracassa, dá pra conviver com isso, mas quando isso não depende de você, é como morrer duas vezes, e “Dune” foi uma grande decepção pra mim, foi extremamente doloroso ver um filme que era meu, mas parecia de outra pessoa”.

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