Crítica: Anjos da Lei 2

22jumpposter"Apenas repitam o que vocês fizeram da última vez!" Essa é uma linha de diálogo real de Anjos da Lei 2, demonstrando o compromisso do longa com a metalinguagem e em não se levar a sério. O resultado é uma continuação que, sim, repete a fórmula do original, e não, em momento algum, cansa o espectador por isso.

Novamente com Jonah Hill e Channing Tatum no papel dos policiais Schmidt e Jenko, Anjos da Lei 2 parte da premissa prometida ao final do filme anterior e agora ambos vão para a faculdade investigar o crescente consumo de uma pesada droga sintética. Entenderam? Eles não estavam brincando quando reconhecem que a fórmula é a mesma. A diferença é que, como dito na mesma conversa de onde saiu a fala do parágrafo anterior, "o sucesso inesperado do reboot do programa 21 Jump Street fez com que o orçamento fosse duplicado". A cena de ação que abre a trama é maior, a perseguição no final do segundo ato também, assim como a produção dos cenários. Não a toa, o título em inglês é 22 Jump Street. A humilde capela deu lugar a uma ampla igreja, do outro lado da rua Jump.

Como paródia de filmes policiais, o longa é um dos melhores exemplares desde Corra Que a Polícia Vem Aí. O roteiro de Michael Bacall, Oren Uziel e Rodney Rothman coloca os protagonistas em situações típicas do gênero para subvertê-las, mas também flertam com outro tipo de cinema: a comédia romântica. E justamente ao trabalhar o relacionamento da dupla, tratando-o como o bromance que é, brinca com uma das principais características de clássicos como Máquina Mortífera, misturando com elementos de um Harry e Sally, por exemplo. Não que a trama trate Schmidt e Jenko como um casal gay, mas não deixa de tratá-los como um casal, com direito a terapia, discussão de relação e até uma breve separação, culminando em uma ótima brincadeira visual que remete ao primeiro filme, com o personagem de Hill brincando sozinho com sua pistola (não há necessidade de explicar a piada aqui).

Outro ponto forte do texto escrito a seis mãos (algo que geralmente resulta em roteiros bagunçados) é a coerência temática. Se a história é para mostrar como as diferenças entre os parceiros são importantes para o cumprimento da missão, nada melhor do que começar o filme com um discurso sobre o Yin-yang. É para "abraçar os estereótipos", como o Capitão Dickson (Ice Cube) sugere no predecessor? Porque não introduzir os personagens na primeira missão tentando fingir que são latinos? Nada é por acaso e o roteiro é incrivelmente sólido, sem precisar forçar situações para expor o próprio argumento. Tudo se encaixa naturalmente, o que é algo tão difícil em comédias do tipo que só não surge como surpresa porque o anterior também era competente neste sentido, apesar de se perder em seu desfecho, algo que não ocorre desta vez.

Tendo como base a atuação de seus protagonistas, que mais uma vez se saem bem e elevam a química já satisfatória do anterior, o novo Anjos da Lei tem tantas boas ideias que elas se expandem para a animação dos créditos finais, a piada definitiva sobre continuações intermináveis de franquias cinematográficas e sobre a exploração da "marca" que começa como algo adulto e se transforma em linhas de brinquedos e desenhos animados (quem cresceu nos anos 80 sabe bem como é isso). Nem pensem em sair do cinema sem conferir essa parte dos créditos.

Repleto de gags, é até difícil decidir se o filme funciona melhor nas piadas textuais ou de situações. Novamente, o roteiro merece os parabéns por fazer o público rir até com chistes politicamente corretos. Há, por exemplo, um incrivelmente eficiente sobre expressões homofóbicas que, por ironia do destino, deveria ter servido de lição para Jonah Hill, ator recentemente envolvido em uma polêmica justamente pelo uso de uma dessas ofensas. Já no humor físico, é o intérprete de Schmidt o protagonista de um dos melhores momentos do longa, junto com a atriz Jillian Bell, grata adição ao elenco, com uma personagem que cresce ao longo da trama, presenteada com bons diálogos.

Os diretores Phil Lord e Christopher Miller retornam para mostrar que nem toda sequência cuja fórmula é nitidamente a mesma do original precisa ser batida, desde que seja consciente de sua proposta, e criam um filme que não parodia apenas gêneros mas a própria idéia de sequências, geralmente criadas por pura falta de criatividade. E é revigorante que comentem isso sendo, vejam só, criativos.

Alexandre Luiz

Comente pelo Facebook

Comentários

Comente pelo Facebook

Comentários

Deixe uma resposta