Viagem Radioativa: A lisergia, apocalipse e noir na obra de Albert Pyun

Viagem Radioativa: A lisergia, apocalipse e noir na obra de Albert PyunViagem Radioativa é uma doideira sci fi lançada em 1985, comandada e escrita pelo mestre dos filmes B Albert Pyun. Misto de filme conceito com uma exploração de cenário pós-apocalíptico, o longa-metragem tem um tempero noir, especialmente graças ao comportamento de seus dois protagonistas.

O texto especula sobre o alvorecer da Guerra Nuclear. Se passa em um futuro próximo, começando a trama em 1° de abril de 1986. Depois da introdução são mostrados dois rapazes, que vivem no subterrâneo e que sobreviveram aos eventos do passado.

Essa segunda linha do tempo se passa em abril de 2001 e o mundo está (supostamente) em colapso, com poucos sobreviventes, ou ao menos é o que pensam os dois rapazes, agora homens. São eles Phillip Chandler, o principal narrador do filme, interpretado por John Stockwell, e Marlowe Chandler, vivido pelo American Ninja e astro de filmes de ação classe C Michael Dudikoff.

A dupla é especializada em filmes de qualidade discutível ou cinema de gênero. Stockwell é mais lembrado por sua participação de Christine: O Carro Assassino, filme de John Carpenter que adapta um romance de Stephen King, além de filmes de ação como Top Guns: Ases Indomáveis, A Onda dos Sonhos e Mergulho Radical.

Já Dudikoff é conhecido pela cinessérie Guerreiro Americano, que é o nome nacional da saga American Ninja, mas esteve em dezenas de filmes terríveis e maravilhosos, como A Guerra Cruel, A Última Festa de Solteiro e Assassino Perfeito.

Pyun começa a sua desventura distópica sendo referencial até nos nomes dos dois garotos, que homenageiam ícones da ficção policial noir Philip Marlowe, Raymond Chandler e Mike Hammer.

Viagem Radioativa: A lisergia, apocalipse e noir na obra de Albert Pyun

Outra questão bem apontada por ele - profeticamente até - é o apego nostálgico a mídias mortas, já que a dupla vive consumindo os restos da cultura do passado, vidrados nas músicas lançadas nas décadas de 1960, 70 e até 80, reciclando métodos, literatura, cinema e até lixo dessa época.

Outra referência clara são os filmes de detetives, os clássicos do cinema noir. A linguagem do filme, narrada em primeira pessoa denuncia isso, além é claro graças a maneira datada que eles usam para se referir as mulheres, como as "donas de virilhas perigosas".

Os dois rapazes se cansam de ficar em seu bunker particular e decidem sair pelas ruas, acreditando que não havia ninguém vivo na superfície. Eles pegam um carro e dirigem seu rumo, até encontrar finalmente uma mulher, uma moça, chamada Miles Archer.

A personagem interpretada por Lisa Blount se espanta, porque eles claramente vivem personagens, se dizem investigadores, e não tem vergonha de demonstrar sua atuação. Eles provavelmente consideram que aquele é o comportamento normal, uma vez que nunca viram gente de verdade, e nem mesmo a presença de mutantes bizarros estraga a fantasia da dupla, que segue desempenhando o seu papel.

Viagem Radioativa: A lisergia, apocalipse e noir na obra de Albert Pyun

O longa foi produzido por Thom Karnowski, que na época assinava Thomas Karnowski, e atualmente trabalha em grandes estúdios e faz filmes como O Homem Com Punhos de Ferro, Entre Facas e Segredos e Os Últimos Jedi, e por Moctesuma Esparza, de Anjos Assassinos e Deuses e Generais.

O roteiro de Pyun é um pretexto para várias situações estranhas e aparições nonsense no deserto ocorrerem sem ter o seu cunho nonsense discutido. Há moças com faixas no cabelo e figurino hippie, punks andrógenos, gangues com crianças armadas vestidas no estilo Rockabilly, dezenas de personagens que parecem saídos de obras como Mad Max e Vamp: A Noite dos Vampiros.

Há toda sorte de estereótipo bizarro, que por sua vez miram simbolizar as turmas e tribos do passado, forçadas a conviver graças ao fim do mundo nuclear pós novo milênio.

Viagem Radioativa: A lisergia, apocalipse e noir na obra de Albert Pyun

É uma ode a desesperança e uma demonstração de como a humanidade tem dificuldades básicas de convivência com o diferente. Quase todas as pessoas que aparecem são vocais e histriônicas, causam na dupla de amigos espécie, já que não tiveram muito contato com o diferente desde que ficaram soterrados após a queda da bomba.

As atuações não ajudam, ninguém desempenha bem o seu papel, são todos atores fracos. Filmes dentro do conceito Coming of Age já são naturalmente desinteressantes para plateias mais velhas, por lidar com novas descobertas e ser normalmente algo datado, e quando as atuações pouco convencem, fica difícil.

Aqui se fala de tabus como virgindade, sobre os perigos da vida adulta e como a ingenuidade infantil simplesmente não cabe em um cenário posterior ao fim do mundo.

O filme possui bons animatrônicos, que infelizmente são escondidos pela fotografia escura de Charles Minsky. O filme carece de uma boa remasterização, urge até, e boa parte dos bons tentos visuais são escondidos pela filmagem meio "lavada" que Pyun emprega.

A música Nightmare, cantada por Jill Jax toca bastante, chega a incomodar, uma vez que parece uma claque, estando sempre nas interseções de partes dos filmes.

A trilha é quase toda pegada New Wave, exceção a Zim Bim Zowie e Daddy's Gonna Boogie Tonight, que tocam em um fonógrafo na cena que Philip e Marlowe se preparam para deixar o abrigo nuclear.

Como dito antes, as tramas são confusas, não há uma grande linha narrativa amarrando fatos e conflitos. Basicamente há jovens e pós-adolescentes entrando em conflito, pessoas que como Phillip e Marlowe, tiveram seu futuro comprometido, mas diferente dos dois, a maioria das pessoas tiveram a liberdade de viver na superfície.

Próximo do final aparece o líder dos Freaks, um homem lagarto. O sujeito usa uma máscara, e foi o responsável por trancar a dupla, enganando eles sobre a sobrevivência desse mundo.

A dúvida sobre o que é real nessa fantasia radiativa fica no ar, uma vez que de fato a sociedade mergulhou na distopia, e há criaturas não naturais vivendo sobre a terra, incluindo monstros.

Eles observam os sobreviventes, e tudo isso cheira demais a anos 80. A noite uma nova fauna de personagens fantasiados surge, com influência a música pop como em Thriller do Michael Jackson, e até da banda fictícia de O Fantasma do Paraíso, a Juicy Fruits.

Há rapazes e moças que se vestem tal qual a banda punk Misfits e o hard rock farofa do Kiss, e há até influência visual de Indiana Jones e o Templo da Perdição, com personagens que claramente imitam os modos de bons selvagens e estrangeiros asiáticos caricaturais.

Pyun é imitado até hoje, basta ver o material de divulgação de Homem Formiga e a Vespa: Quantunmania e o visual do Reino Quântico, para além do vilão principal. A condição lisérgica se vê presente tanto nos personagens quanto no cenário. O que faz pecar aqui é a falta de foco e o ritmo lento.

Isso torna a obra em um filme normalmente esquecido, mesmo com seus bons tentos, e como ele tenta ser algo comercial, é preciso aderir a alguma convenções, que são ignoradas pelo cineasta.

Viagem Radioativa é insano, investe em uma linguagem camp e não tem receio de parecer ridículo exatamente por ter seu caráter igual ao dos seus protagonistas, baseado na ingenuidade de não perceber estar fazendo um papel não intencionalmente cômico.

3 comments

  1. Prince Higaneda 14 abril, 2025 at 20:24 Responder

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  2. Alight Motion 15 dezembro, 2025 at 13:45 Responder

    Artigo muito interessante sobre a estética sombria e o clima apocalíptico na obra de Albert Pyun. Esse tipo de abordagem visual mostra como atmosfera e narrativa caminham juntas, algo que também influencia bastante o mundo da edição e do motion design atualmente.
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