Sexta Feira 13, Parte 5 - Um Novo Começo: A infame e mais tarada continuação da saga

Sexta Feira 13, Parte 5: Um Novo Começo é um filme de horror que causou bastante controvérsia entre os fãs de Jason, para além até do fato de ser o quinto episódio de uma saga de terror famosa. A obra foi dirigida por Danny Steinman e lançada em 1985, entre os capítulos da franquia é considerado o mais apelativo na exploração da sexualidade dos personagens, sobretudo das mulheres.

Ele é visto como apelativo mesmo dentro do contexto de que slasher movies ou filmes de matanças normalmente explorem esse tipo de exposição.

A obra se chama Friday the 13th: A New Beginning no original e foi feito pelos estúdios Georgetown Productions Inc., Sean S. Cunningham Films e Terror, Inc. Foi distribuído pela Paramount Pictures, tendo gravações feitas na Califórnia, com cenas em Agoura Hills, Camarillo, Beverly Hills, e na Upper Franklin Canyon Reservoir de Los Angeles.

Dessa vez Frank Mancuso Jr. assumiu o papel de produtor executivo, deixando a função de produtor para Timothy Silver, que era conhecido por ser assistente de direção e gerente de produção em obras como o telefilme A Single Light. Ao longo dos anos ele trabalharia em séries como Arquivo X e Community e Jane the Virgin.

O motivo que fez Mancuso Jr. deixar de ser produtor não é inteiramente conhecido, especula-se que tem a ver com o fato de seu pai, o executivo da Paramount Frank Mancuso, ter forçado o lançamento desse quinto capítulo. Para Júnior, a saga deveria ter se encerrado em Sexta-Feira 13: O Capítulo Final.

Nos bastidores houveram grandes movimentações. Entre os fatos mais polêmicos, havia uma rusga entre Mancuso Jr. e o diretor.

O produtor xingou publicamente Steinman, afirmou que seu filme parecia uma versão soft porn dos outros episódios da franquia e não um filme de horror. Os dois só "fizeram as pazes" quando chegou o fim de semana de estreia. Como esse Um Novo Começo teve uma arrecadação boa, Mancuso gostou, até ligou para Steinman, para afirmar que estavam vivendo uma era de ouro.

As acusações do produtor não eram infundadas já que Steinman tinha experiência com o cinema voltado para o entretenimento adulto. Seu primeiro filme foi High Rise, de 1973, uma tentativa de superar o clássico de Tinto Brass, Garganta Profunda. Nessa época ele usava o pseudônimo Daniel Stone.

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O diretor seguiu então para um cinema mais tradicional, mas voltado para a exploração de gênero e sempre com orçamentos curtos. Foi assim que ele fez O Mistério do Invisível em 1980, sob o pseudônimo Peter Foleg, além de Ruas Selvagens, filme de ação com Linda Blair, lançado em 1984, já assinando como Danny Steinman.

Esse Sexta-Feira 13 Parte 5 foi seu último filme, já que o realizador se envolveu em um acidente de bicicleta pouco tempo depois da estreia. Dirigir filmes se tornou proibitivo, dessa forma projetos nos quais foi cotado, como o sexto filme da franquia e até uma sequência de Aniversário Macabro (de Wes Craven) ou não ocorreram ou foram para frente com outros realizadores.

Esse foi um filme programado para ter várias cenas de sexo, inclusive uma de três minutos com a atriz Deborah Voorhees, mas a organização dos grandes estúdios - a MPAA - forçou a a produção a reduzir essa para 10 segundos.

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Em materiais sobre os bastidores é dito que o diretor insistia bastante para que as atrizes se exibissem nuas para a câmera.  No livro Crystal Lake Memories, a atriz Juliette Cummins - que fez Robin - disse que durante as filmagens Steinmann queria fazer cenas de nudez que não estavam no script.

A interprete pensou em se recusar a isso, mas concordou, porque tinha medo de ser demitida, especialmente depois que outras atrizes foram mandadas embora por (supostamente) se recusarem a fazê-lo. Ou seja, Mancuso Jr. parecia ter razão, já que a nudez gratuita era algo bizarro, utilizado de maneira tosca até em comparação com os episódios anteriores.

O roteiro ficou a cargo de Steinmann, de David Cohen, que também havia escrito o quarto filme, além de Martin Kitrosser de Sexta-Feira Parte 3 e Natal Sangrento 5: O Horror na Loja de Brinquedos. O argumento era desses dois últimos.

Esse foi o filme que teve uma interferência mais ativa da produção, com diretrizes dadas supostamente por Phil Scuderi da Georgetown Pictures, de que deveria ter uma morte, susto ou choque a cada sete ou oito minutos de exibição.

A trama se passa 5 anos após os eventos de Sexta-Feira 13 Parte 2 e suas sequências, as partes 3 e 4. Se coloca cronologicamente dez anos após os eventos da Sexta-Feira 13 "original".

Boa parte do elenco só soube que se tratava de um filme da franquia na hora de gravar, até então, a maioria dos atores achava se tratar de uma obra chamada Repetition.

A história segue a jornada de sobrevivência de Tommy Jarvis, que está mais velho e é vivido pelo introspectivo Stephen Shepherd. A ideia inicial era explorar ele como um novo assassino, assumindo o papel que Jason fazia nos últimos três longas, mas a ideia adotada é que ele está tentando se reabilitar, sendo levado até uma instituição para pessoas insanas, em um ambiente campestre, que se assemelha visualmente a Crystal Lake.

Os produtores tentaram trazer Corey Feldman para reprisar seu papel, no entanto ele estava ocupado, gravando Os Goonies. Sua participação foi reduzida, basicamente para uma cena de introdução, em um momento de pesadelo do protagonista, que se enxerga tal qual era quando criança.

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Tommy aparece em uma cena na chuva, observando a cova onde Jason está encerrado. Alguns delinquentes resolvem brincar com o caixão dele, puxam para a superfície e abrem a caixa, da onde sai Jason, vivo.

Nessa parte o vilão é interpretado Johnny Hock, que foi dublê em Irmãos Cara de Pau, Vingador do Futuro e Rambo III. A caracterização dele é bem legal, bastante nojenta. Nos buracos da máscara há vermes, e minhocas, que remontam a condição óbvia dele, de cadáver em decomposição, mas que ainda assim tem capacidade de levantar e matar os rapazes.

A sequência termina com ele partindo para cima de Tommy. Os eventos parecem uma viagem total, tão insana que só poderia ser um sonho de um rapaz perturbado e dependente de remédios.

Logo é mostrado o presente do rapaz, já vivido por Shepherd, a bordo do carro da Unger Institute of Mental Health. É só depois dessa introdução que é mostrado o letreiro, com uma explosão revelando o nome do filme, e também uma nova máscara, com a mesma cor branca, mas com detalhes azul claro, diferente do artigo que o Jason do sonho utiliza.

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Uma figura quase tão envolta em polêmicas quanto o diretor é Shepherd, mas não por falta de esforço do mesmo.

O ator se dedicou bastante, fez laboratório de pesquisa dramática, trabalhando em um hospital psiquiátrico estadual para entender os trejeitos dos pacientes desse tipo de clínica.

Era descrito como um sujeito que levava a sério o trabalho, tanto que adotou para si o comportamento típico de um ator do método. Ele levou tão a sério sua caracterização que se tornou indócil, inclusive para seus colegas de cena.

Os outros atores reclamavam do comportamento errático dele no set. Ele era visto como alguém nervoso e problemático, capaz de ser grosseiro com qualquer pessoa que meramente incomodasse ele.

Danny Steinmann reclamou bastante do modo como ele se portava, sempre distante e disperso nas horas de gravações. Membros do elenco como Shavar Ross, Dominick Brascia e Deborah Voorhees também falaram que ele era agressivo verbalmente. O diretor de fotografia Stephen L. Posey tinha que intervir e separar brigas e até dirigir algumas cenas, depois que Shepherd e Steinman brigaram.

O próprio ator assumiu que passou a maior parte das filmagens consumindo cocaína, fato que o fez oscilar emocionalmente e isso influenciou inclusive em seu desempenho, já que essa é a versão mais exagerada e caricata de Tommy.

A tentativa de parecer sombrio esbarra na esquisitice dele. Apesar de se vestir de maneira comportada, com roupas sociais e óculos, é mostrado que ele está em forma. Provavelmente malha, se prepara fisicamente para o embate com o assassino, mas segue mantendo vivo alguns dos seus hobbys, tanto que leva uma máscara de alienígena que havia fabricado na parte quatro.

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Vale lembrar que Tommy tinha esse nome em homenagem a Tom Savini, maquiador do primeiro filme e criador - de certa forma -  de Jason. No entanto, ele não confecciona mais máscaras, parece viver para alimentar a própria paranoia.

Como a história se passa nessa clínica de tratamento de jovens traumatizados e insanos, a estranheza dele se dilui quando comparada com a de outras pessoas. O lugar é repleto de jovens e é comandado pelo simpático Matt, personagem de Richard Young.

Esse certamente é entre os elencos o mais chato e insuportável da saga. Fora Matt e alguns policiais, todo o resto é extremamente caricato, incluindo os vizinhos caipiras Ethel (Carol Locatell) e seu filho Júnior (Ron Sloan), que reclamam de ter pego dois internos fornicando perto de sua residência.

Da forma como Steinman dirige as cenas de sexo e as insinuações, ficou a dúvida se ele mostraria mãe e filho se pegando, uma vez que os dois parecem ter uma tensão sexual reprimida. No entanto incesto não era uma questão que estava no cardápio, ao menos não no que chegou até o público, já que é dado que boa parte das interações sexuais foram cortadas do roteiro ou caíram na ilha de edição.

É difícil entender quais são os despistes cômicos que o diretor escolheu jogar e quais são os momentos realmente sérios do filme. Entre os momentos mais marcantes está a primeira morte em tela, que envolve um interno obeso, o solícito Joey (Dominick Brascia), que é tão caricato que lambuza de chocolate enquanto está comendo.

Apesar de ser bonzinho e voluntarioso, ele acaba sendo atacado e morto por um dos internos mais violentos, no caso, Victor, de Mark Venturini. Esse parece ser um ato passional esse parece estranho, já que acaba com Vic arrancando o braço do rapaz rotundo, sendo depois preso sem grandes resistências. Aparentemente, foi apenas uma fatalidade, mas, obviamente, esse momento se tornou combustível para a paranoia de alguns personagens, Tommy incluso.

Aqui o diretor é pouco sutil, deixando claro que o paramédico Roy (Dick Wieand) se sente pessoalmente devastado, quando vê o brutal assassinato, embora o mesmo nada fale nesse trecho.

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Assassinatos começam a acontecer e o espectador é levado a acreditar que é Tommy que os comete.

Mas fica marcada sempre uma diferença, já que nas ilusões de Tommy é reforçado que a máscara de Jason tem detalhes vermelhos, ao contrário do artefato usado tanto na abertura quanto no Jason que aparece depois na trama.

Isso na verdade é aplacado pelo fato do assassino só aparecer inteiro em tela bem mais tarde na trama. Ainda assim é uma pista que salta aos olhos do espectador mais atento.

As ações da polícia são todas caricatas, parecem saídos da cinessérie Loucademia de Polícia. Aliás, nenhum personagem adulto é minimamente trabalhado, todo mundo é meio bobo e estranho.

As cenas de nudez são muitas e forçadas, com o cúmulo sendo um trecho onde a garçonete Lana, de Rebecca Wood, se prepara para ficar com o seu par. Ela para na frente de um espelho, abre a camisa de botão, mostrando seus seios nus para a câmera enquanto diz que era a hora do show.

Ela termina sua participação com a piada com ela é que é tão atrasada, que ao chegar ao carro, seu homem já está morto. Lana também é atacada, não à toa depois de cheirar cocaína, afinal, o bom assassino slasher tem que ser contra drogas.

Há um diferencial desse para os outros da franquia: as cenas de morte são filmadas com cor, sobre letreiros luminosos. Geram assim momentos mais bonitos, há um esforço do diretor de fotografia Posey em ter momentos que pareçam poéticos, já que esses são os últimos trechos da vida de pessoas.

As mortes seguem na toada de punir quem faz sexo e até quem observa isso. O assassino pega então Raymond (Sonny Shields), o pedinte que observava uma cena de sexo perto da casa de Ethel.

Essa versão do matador é mais agressiva, gosta de torturar os jovens, arranca os olhos de um, usa um tesourão ao estilo de Chamas da Morte e amarra a cabeça de outro, pressionando o crânio do sujeito contra a madeira do tronco.

Ele é cruel demais, fica claro que há um componente passional nessas mortes.

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O modo como o texto desenrola as relações é bem desconjuntado. Tommy não se adequa de modo algum, nem mesmo entre os internos perturbados. Os coadjuvantes também não ajudam. Tenta-se colocar Pam, personagem de Melanie Kinnaman como alguém legal e possível interesse amoroso de Tommy, mas não funciona.

Outra tentativa de emplacar carisma em personagem é com Reggie, um menino feito por Shavar Ross, que é mostrado interagindo com seu irmão, o roqueiro Demon de Miguel A. Núñez. A representatividade racial é bem-vinda, no entanto a maioria dos personagens pretos morre de maneira ainda mais patética que suas contrapartes brancas. Anita (Jere Fields) por exemplo morre fora de tela, e participa do longa somente para assustar Demon, que morre no banheiro, atravessado por um ferro.

Chega a ser ridículo, parece que colocam esses personagens unicamente para serem alvos das piadas mais infantis do filme. O humor que já é baixo nível no geral, piora a medida que humilha os personagens negros.

Em uma das muitas cenas de nudez gratuita, Robin tira a blusa e decide dormir à vontade, de top less. Esse poderia ser um momento comum, de naturalidade, dela se colocando em uma posição de conforto, mas soa artificial, já que ela mora em um lugar cheio de meninos.

Uma garota dormindo sozinha poderia ficar até nua, mas aqui é puro apelo onanista, piorando claro quando ela encontra a cabeça de um amigo, sendo enfim traspassada por um facão embaixo da cama, igual Kevin Bacon, em Sexta-Feira 13.

É difícil imaginar que o leitor não viu Sexta-Feira 13 Parte 5, mas ainda assim avisamos que a partir daqui falaremos da virada no final.

Sexta Feira 13, Parte 5 - Um Novo Começo: A infame e mais tarada continuação da saga

A introdução do novo Jason se dá aos 70 minutos, onde é feito por Tom Morga, dublê e figurante de inúmeras obras, entre elas Jornada nas Estrelas: O Filme, Comando Para Matar, Os Caça-Fantasmas e participações nas séries de Jornada nas Estrelas A Nova Geração, Voyager e Enterprise.

Ted White, que interpretou Jason em Sexta-Feira 13, Parte 4 afirmou que lhe foi oferecido o papel, mas ele recusou, embora depois tenha lamentado essa decisão.

O vilão persegue Pam e Reggie, em uma cena de chuva que é descaradamente falsa. Até há emoção na sequência, já que o menino consegue atropelar o vilão com um trator, mas ao contrário de Tommy na parte quatro, não dá cabo do sujeito.

Outro momento com potencial é uma luta de facão contra motosserra, que Pam tenta travar com Jason, mas que acaba de maneira súbita e sem graça.

O desfecho coloca frente a frente Tommy contra o assassino, negando enfim que Jarvis seria o matador da vez. O fim desse Jason falso é rápido e fraco, o mesmo sujeito que era até então implacável e imparável parece ter perdido força e inteligência quando se depara com Tommy.

Se ainda fosse Vorhess o assassino, faria sentido a hesitação, mas como não é, fica parecendo apenas algo forçado.

O homicida era o paramédico Roy e sua motivação era familiar. Ele era o pai de Joey, mas mantinha esse parentesco em segredo. Aparentemente ele pirou depois que o menino morreu, tentou usar a lenda urbana de Jason para acobertar os próprios crimes, mas não se deu ao trabalho nem de arranjar uma máscara com detalhes vermelhos.

Claramente se tentou arrumar uma nova versão de Pamela Vorhees aqui, mas a tentativa não foi nada sutil, ao contrário, já que pareceu apenas um prato requentado.

Depois de derrotar o assassino e ir para o hospital, Tommy segue tendo sonhos com o Jason real. Nesses trechos a máscara tem cores vermelhas, além de carregar também a ferida de machado que sua irmã Trish desferiu no filme anterior.

Apesar de fazer apenas o Jason/Roy, Tom Morga afirma que algumas cenas de sonhos foi ele quem vestiu a máscara de hóquei, possivelmente foram nesses trechos que ele viveu o Jason real.

Tommy quase cede, pendendo a abraçar o destino homicida, sua cena final é trágica, com o rapaz se preparando para atacar Pam, mas dada a continuidade da franquia, o momento é para ser encarado como mais um sonho do rapaz.

Há quem defenda que esse é um filme subestimado, mal compreendido pela plateia na época. O guru do horror e documentarista Michael Felsher, por exemplo. Para ele, é injusta a fama de que esse é o pior filme da franquia. Nesse ponto Felsher tem razão, inclusive na defesa da utilização de um humor mais ácido, que claramente não foi bem digerido pelas plateias na época, mesmo que o longa tenha rendido bem.

Em um eventual Sexta Feira 13 VI, esse sonho se tornaria real, mas essa reviravolta foi abandonada quando os fãs exigiram o retorno de Jason. Se este filme tivesse agradado aos fãs, os produtores teriam trazido John Shepherd e Melanie Kinnaman de volta para uma sequência direta.

Sexta Feira 13 Parte 5 é uma canalhice sem tamanho, mas é um filme competente, que erra especialmente em se levar muito a sério. Só valeria como obra mais sombrio caso tivesse tido a coragem de tornar Tommy em vilão, tirante isso, suas mortes são as mais violentas e criativas da saga, e soam até charmosas diante dos exageros de Steinman. É de fato um espécime subestimado.

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