Crítica: A Viagem

Cloud Atlas-0081-20121015-96É complicado falar de A Viagem sem comprometer a experiência de quem ainda não assistiu ao novo longa dirigido pelos Wachowski, que desta vez dividem a função com Tom Tykwer. É ainda mais complicado não soar óbvio. Ora, que o longa conta seis tramas situadas em períodos diferentes praticamente todo mundo já sabe. Da mesma forma, é de conhecimento amplo que seus astros principais interpretam personagens distintos em todas as linhas temporais apresentadas, transcendendo sexo ou cor de pele. Então, como falar de A Viagem?

Não é fácil classificar um filme como  obra-prima. Mas A Viagem, com toda sua audácia, criatividade e execução impecável  pode entrar facilmente em listas dos melhores dos últimos anos. Não é exagero. E sua chance de ser um dia chamado de “obra-prima” reside na capacidade de dividir opiniões. Como Árvore da Vida em 2011, a adaptação do livro Cloud Atlas, de David Mitchell, é um daqueles casos de “ame ou odeie”.

Gostando ou não de A Viagem, uma coisa é unânime: não se pode negar a coragem do projeto. Não apenas no que diz respeito à sua narrativa incomum, mas à quantidade de idéias contidas em cada uma das histórias e que aos poucos vão se tornando mais claras e palpáveis ao espectador, com uma naturalidade ímpar. Nos dias de hoje são raros os casos de filmes sob o disfarce de um grande apelo comercial (“dos criadores de Matrix”, diz o cartaz. Com Tom Hanks e Halle Berry, em letras garrafais) conseguirem fazer seu público sair do cinema intrigado. Quer você goste ou não, é impossível não ter vontade de discuti-lo.

Se você consegue ver os três parágrafos acima como formas diferentes de se iniciar um texto mas que ainda assim se complementam, A Viagem não deve ser um problema.  É mais ou menos nessa linha que boa parte do filme se sustenta. Seus primeiros minutos servem justamente para, além de introduzir a narrativa, desafiar o espectador. O personagem de Jim Broadbent, um editor literário, começa dizendo que não gosta de flashbacks, flashforwards e outras artimanhas de autores e completa pedindo ao leitor (pois está escrevendo um livro) um pouco de paciência.

Aparentemente, as seis tramas não têm a menor ligação no início mas, mesmo assim, a sensação é de que uma complementa a outra. Claro que ao fim do primeiro ato, tudo começa a fazer mais sentido. Por falar em atos, os diretores encontraram uma forma criativa de indicar o final de cada um, com momentos de tensão que intercalam entre os segmentos, e a narração de um dos personagens-chave. Assim, a narrativa se aproxima de uma forma mais reconhecível ao público sem perder o ritmo. E como consegue apresentar seis linhas temporais intrigantes, em momento algum soa chato ou arrastado, mesmo que a situada no presente seja a menos empolgante, apesar de funcionar como alívio cômico, uma vez que flerta com a comédia de forma leve e sincera (com alguns toques de Guy Ritchie aqui e ali). Aliás, outro mérito do filme é não se comprometer a nenhum gênero específico. Há o drama histórico, o thriller político, a já citada comédia e a ficção científica e mesmo assim nada parece deslocado, graças ao cuidado do texto mas também do departamento de arte, que cria cada uma das ambientações de forma distinta, mas ainda assim com elementos em comum aqui e ali (as cores da lanchonete futurista podem ser conferidas em uma fábrica no passado, por exemplo).

Não é exagero. A harmonia entre as histórias em A Viagem é digna de nota. A montagem do filme merece todos os elogios, uma vez que sua fluidez fica por conta do raccord (visual e sonoro) que acompanha as transições entre as linhas temporais. Há passagens belíssimas como a da composição do Sexteto Cloud Atlas nos anos 30 para um disco tocando a obra nos anos 70. Ou as cenas intercaladas de uma fuga no futuro com um momento de tensão no século 19. Ou ainda, e aí os elogios vão para o roteiro, o uso da narração em momentos importantes, e que são fundamentais para a compreensão do que está acontecendo e de que caminhos a história, ou melhor, as histórias irão tomar.

Enquanto filmes cujas ambições ficam apenas no mundo das idéias se apresentam de forma séria e sisuda, A Viagem, obra audaciosa que é, não teme rir de si mesma. Por isso quando uma referência engraçada à No Mundo de 2020 (Soylent Green, no original) acontece no presente, não é de se estranhar que reflita em uma inesperada reviravolta no futuro.

Mas a audácia da película não está apenas em sua narrativa. Há todo um discurso filosófico e espiritual que deve ser levado em consideração. Por isso, assisti-la com a mente aberta e sem preconceitos é meio caminho para apreciá-la e ainda pensar sobre ela horas depois da sessão. Aqui cabe um adendo. Uma das poucas falhas no roteiro reside em alguns diálogos expositivos demais para o tamanho do projeto. O texto, por confiar tanto que o espectador conseguirá assimilar os saltos temporais, não deveria fazer uso de longas explicações filosóficas. E não são poucas. Preconceito e a busca por liberdade, por exemplo, estão presentes em praticamente todas as suas histórias paralelas, o que leva a outro ponto. É impossível, com estas questões que levanta, não se lembrar dos dilemas pessoais de Lana Wachowski, que até pouco tempo era Larry. Fica claro que a experiência pessoal da diretora foi fundamental para que o tema não pareça artificial. Ao contrário. É justamente aí que faz mostrar sua sinceridade.

Toda a ambição de A Viagem, no entanto, jamais funcionaria não fosse a total entrega dos atores, principalmente Tom Hanks, cuja chance de exibir várias composições para diferentes personagens (principalmente como o médico do século 19), finalmente acrescenta algo relevante para sua filmografia recente. Broadbent é outro que rouba a cena, em especial quando atua ao lado de Ben Whishaw. Já Halle Berry se sai particularmente bem como a jornalista Luisa Rey.

Mas a discussão mais óbvia do filme é mesmo o encadeamento de ações e seus resultados, sejam imediatos ou tardios. Cada ação, boa ou ruim, irá refletir em outra, nesta vida ou em uma futura, levando ainda à aspectos religiosos, já que parte da premissa de uma alma passando por vários momentos no tempo e evoluindo com isso. Assim, A Viagem é, acima de tudo, um filme cujas idéias importam e estimulam a reflexão, quer o espectador concorde ou não com elas.

Tudo no longa é feito em auxílio da história (ou das histórias), do uso dos mesmos atores nas diferentes épocas (com um trabalho de maquiagem muito bem feito em alguns momentos e muito estranho em outros) até a trilha sonora, composta por Tykwer e seus habituais colaboradores Johnny Klimek e Reinhold Heil, cuja belíssima melodia ecoa nos momentos mais importantes e também nos mais singelos. Outro elemento da narrativa que deve ser observado, por seu significado também fora do filme, é como todas as subtramas encontram em variadas formas de arte, uma maneira de se conectarem. Um livro, uma sinfonia ou um filme podem fazer toda a diferença na vida de uma pessoa. São tantas camadas em A Viagem que escrever sobre todas é impossível em apenas um texto. Assim como percebê-las também não é nada fácil assistindo a obra apenas uma vez.

Por fim, além do bom roteiro e de tecnicamente impecável, é a capacidade de dividir opiniões e estimular debates que fazem de A Viagem uma das melhores produções a passar pelas telonas em 2012 (sim, o filme está chegando ao Brasil com um atraso considerável). Ainda traz os Wachowski de volta aos holofotes, já que desde Matrix os irmãos não conseguiram se destacar com algo que fizesse seu público sair do cinema intrigado. E o mais importante: ao iniciar a projeção com um envelhecido Tom Hanks em volta de uma fogueira, resgata a arte cinematográfica como evolução de uma das mais antigas tradições humanas, estabelecendo os três diretores como grandes contadores de histórias.

Alexandre Luiz

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Comentários

4 comments

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    Marina Souza Urias Gomes 12 janeiro, 2013 at 15:09 Responder

    É incrível como na era dos 140 caracteres, você consiga prender um leitor até o fim em um texto relativamente longo (para os padrões atuais). Até quando você diz que o filme é ruim me dá vontade de ver, devido a sua descrição da obra. Excelente texto sempre meu amigo.

  2. Avatar
    Lucio Belom 14 janeiro, 2013 at 01:27 Responder

    o filme é audacioso, com certeza para mim foi uma obra prima, as historias tem ligação do ponto de vista espirita, o filme fala sobre muitas coisas e cutuca a mente do leitor no sentido religioso… a um questionamento no filme. Muito louco, muito louco mesmo filme muito bem pensado e muito bem produzido…

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