Crítica: Amantes Eternos

Amanter Eternos PosterA cultura é o sangue que pulsa nas veias do mundo. Pelo menos para Adam (Tom Hiddleston), o vampiro que protagoniza Amantes Eternos, a analogia é perfeita. O mais recente longa de Jim Jarmusch é um emaranhado de metáforas para o presente, uma análise romântica da atual forma de se consumir produções culturais.

Hiddleston divide a trama com Tilda Swinton, que vive Eve, sua esposa, e também vampira antiga presa em tempos contemporâneos. O texto de Jarmusch começa com ambos vivendo separados pelo oceano, mas trata de uni-los novamente para divagarem sobre épocas melhores. Pelo menos para Adam, nostálgico de quando havia algum valor na música, uma de suas paixões. Sua companheira enxerga as coisas de outro modo: ela concorda com o vazio atual, mas postula que a história é cíclica e um dia a humanidade (ou zumbis, como as criaturas da noite preferem) vai voltar a ser relevante e produzirá novamente obras dignas. Aliás, a ideia de ciclo é constantemente trabalhada de forma visual ao longo de Amantes Eternos. Seja pelo disco de vinil girando na abertura, ou no diálogo que finaliza a trama, a ideia é romântica porque encontra alguma esperança no conceito de que tudo é passageiro.

Situado em Detroit, que surge como metáfora da decadência cultural (há uma belíssima cena envolvendo a história do Michigan Theatre para confirmar isso), o longa aproveita a paisagem da cidade desolada também como referência do estado de espírito de Adam. Em situação que beira a auto-destruição, o vampiro de aparência boêmia não se conforma com uma geração que vê tudo com olhos deslumbrados, como se nada feito no passado tivesse impacto em suas vidas, servindo assim como base para análises mais profundas. Isso fica bem exemplificado nos diálogos entre Eva (Mia Wasikowska), irmã de Eve, com o jovem Ian (Anton Yelchin), humano que consegue itens raros para Adam. Ambos descrevem tudo em adjetivos como "brilhante", "genial" ou "incrível", um sintoma da era da internet, em que qualquer coisa viraliza rapidamente, independente de sua qualidade, e qualquer reação que não seja exagerada é "elitista" ou "chata". O protagonista, no entanto, aponta que mais do que problema de hoje, essa é uma característica histórica do ser humano. "Ainda duvidam de Darwin", reclama.

O comentário de Jarmusch é relevante e em nenhum momento soa pedante. Mesmo com sua nostalgia, Adam tem na figura de Eve o equilíbrio com a esperança da capacidade humana para um melhor uso de sua criatividade. Não a toa, ambos se completam, como uma espécie de Yin-yang (como bem destacado pelo figurino). O diretor também faz jus à outras de suas obras, seja no humor empregado, sem histeria, e no uso da trilha sonora, que vai do blues, R&B e rock de garagem à música árabe. Apesar do ritmo lento, a duração de 123 minutos não incomoda, já que os diálogos existencialistas do casal protagonista prendem tanto a atenção como qualquer cena agitada de filmes mais pop "de vampiro". Claro que as boas atuações de Hiddleston e Swinton ajudam a segurar ainda mais a projeção. Ele, com sua tristeza e acidez, ela com a experiência de quem, aparentemente, viveu mais que Adam, mesmo que no sentido figurado; ambos até podem ter a mesma idade, mas Eve com certeza parece ter aproveitado mais a longa "vida", ao invés de ter momentos de décadas de introspecção.

Com a fotografia granulada pela constante falta de iluminação (toda a ação se passa, obviamente à noite), e uma direção de arte que abusa da acumulação de objetos como metáfora à anos de conhecimento histórico, o filme de Jarmusch é tão rico visualmente quanto é em seu texto.

Acima de tudo, um filme sobre observação, Amantes Eternos usa a visão de dois personagens cuja bagagem envolve séculos de registro da criatividade humana. Sempre houve o bom e o ruim, o eterno e o descartável. A diferença é que dava-se o devido valor justamente aos primeiros destas dicotomias.

Alexandre Luiz

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