Crítica: Branca de Neve e o Caçador

Agora que a moda dos vampiros parece perder um pouco sua força, a nova mania é resgatar contos de fadas. Séries de TV, quadrinhos, livros e cinema estão sendo invadidos por versões "reimaginadas" de clássicos contos como os dos Irmãos Grimm, por exemplo. Em 2012 as telonas receberam 2 versões da história da Branca de Neve. A primeira era uma comédia extravagante (Espelho, Espelho Meu) e a segunda, que chegou neste final de semana às salas, é uma espécie de épico de fantasia medieval. Branca de Neve e o Caçador busca trazer uma visão séria e sombria, distante da versão da Disney lançada em 1937.

Os trailers e imagens divulgados davam conta que o longa estrelado por Kristen Stewart guardaria semelhanças com a trilogia O Senhor dos Anéis, com emocionantes batalhas entre o exército liderado por Branca de Neve e os soldados místicos da Rainha Ravenna (Charlize Theron). Porém, o resultado final é muito mais parecido com filmes de fantasia dos anos 80 do que com a épica aventura dirigida por Peter Jackson. Visualmente, o filme dirigido pelo estreante Rupert Sanders, lembra muito longas como A Lenda, de Ridley Scott ou O Feitiço de Áquila, de Richard Donner. Por isso, assistir Branca de Neve e o Caçador com a ideia de contemplar sua direção de arte, figurinos, locações e efeitos especiais é um deleite. O filme realmente é bonito de ver. Porém, se uma coisa faz a nova versão da história se tornar uma experiência difícil, é a falta de emoção. Talvez por ser o primeiro longa da carreira de Sanders, o cineasta, vindo do meio publicitário, ainda não tenha tato o suficiente, mas a verdade é que a produção é fria, sem grandes momentos que inspirem o espectador, falhando bastante com uma das principais características dos épicos.

Por conta dessa "frieza", Branca de Neve e o Caçador, com seu ritmo lento, acaba se tornando arrastado. São duas coisas distintas. A Sociedade do Anel, por exemplo, é lento (já que precisa apresentar boa parte dos personagens antes de partir pra jornada de cada um), mas não se arrasta. E mesmo os citados longas oitentistas não eram dotados de ação desenfreada e ainda assim se tornaram pequenos clássicos da infância de muita gente. Nesses casos, o espectador se importa com os protagonistas e com suas histórias, coisa que não acontece no filme de Sanders. O Caçador, vivido por Chris Hemsworth, tem um background interessante, mas nunca desenvolvido a ponto de adicionar sentimento à trama. O mesmo pode ser dito de William (Sam Claflin), a outra ponta do triângulo amoroso que divide a heroína, um elemento da trama que parece ter sido adicionado simplesmente para chamar atenção dos fãs de Crepúsculo e que nunca chega a um desfecho, provando-se desnecessário. E Stewart pode não interpretar a Bela da história de vampiros, mas não consegue passar a força que sua protagonista parece ter. Limitando sua interpretação a expressões de medo e dúvida, parece que a atriz atua no piloto automático, se preocupando mais em agradar ao público da cinessérie que a tornou famosa. Irônicamente, a única sub-trama realmente interessante é a da Rainha, cujo passado trágico a transformou na feiticeira malígna que persegue Branca de Neve para conseguir a juventude eterna. Aliás, em um determinado ponto, o filme parece querer seguir por um caminho que seria até muito interessante. Na cena envolvendo o Espelho Mágico, enquanto a vilã pergunta quem é a mais bela do Reino, seu irmão a observa e, para ele, a Rainha está falando sozinha. Seria no mínimo corajoso se o roteiro sugerisse que tudo não passa de devaneios de uma mente perturbada, o que agregaria um tom ainda mais sombrio à trama. Como um dos roteiristas é Hossein Amini, de Drive, talvez até seja uma ideia descartada durante as revisões do texto.

Como já dito acima, quando o assunto é visual, há grandes momentos de destaque e um deles é a transformação de atores nos Anões. Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost e Toby Jones estão entre os nomes que ganharam versões diminutas num efeito que une simples trucagem de câmera com CGI e funciona muito bem. Pena que aos populares coadjuvantes também não é dada a devida atenção. Eles surgem apenas no final do segundo ato sem o carisma de Hobbits ou Anões da Trilogia do Anel ou mesmo de suas contrapartes de outras versões de Branca de Neve. Algumas criaturas que aparecem ao longo do filme também são de encher os olhos, como o troll que protagoniza uma luta num momento em que alguma ação era necessária para despertar a atenção do espectador ou o Cervo branco que surge num momento muito semelhante a uma cena de A Lenda (quem assistiu à fita de Scott deve reconhecer na hora).

Com uma fotografia auxiliada por belas locações, Branca de Neve e o Caçador seria um filme realmente marcante se não lhe faltasse tanto sentimento. Uma prova é que com menos ambição (da trama, porque tecnicamente é um marco) e mais sinceridade, a animação da Disney ainda é referência para qualquer criança que a assista, mesmo depois de 75 anos de existência. Ao novo filme, fica difícil imaginar uma sobrevida tão longa.

 

Alexandre Luiz

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