Crítica: O Homem de Aço por Alexandre Luiz

O-Homem-de-Aço-poster-nacionalNo panteão dos super-heróis, o Superman não é apenas o mais antigo, mas o que, ao longo do tempo, mais precisou passar por reformulações. Nos últimos 25 anos foram, ao menos, 6. No final dos anos 80, com a fase de John Byrne nas HQs, na metade dos anos 90, com a série de TV Lois & Clark e com a animação produzida por Bruce Timm e nos anos 2000, na minissérie em quadrinhos O Legado das Estrelas, no seriado Smallville e no recente reboot editorial passado pela DC Comics. Os tempos que urgem sempre pedem para que o Azulão se adéqüe, seja à novas formas de pensamento ou as mudanças de comportamento do público. Assim, para contemplar o pessimismo e o cinismo acometidos pela audiência nos últimos anos, O Homem de Aço chega aos cinemas, tentando mais uma vez mostrar que o Superman pode ser relevante, independente do quanto de esperança ainda resta na humanidade.

Dirigido por Zack Snyder, com roteiro de David S. Goyer e argumento de Christopher Nolan, o filme tenta uma abordagem mais “realista”, não na mesma linha da Trilogia Batman, em que tudo deve ser funcional (embora essa característica surja vez ou outra), mas de forma temática,  voltada à reação da humanidade ao se deparar com a informação de que não está sozinha no Universo. Desta forma, o texto acerta ao deixar boa parte da “fantasia de ficção científica” para os 20 minutos iniciais em Krypton (e que volta a fazer parte da trama no terceiro ato, quando da ameaça do General Zod). São estes os momentos mais fiéis à mitologia do Superman, afinal, é uma raça alienígena, não dá para ser inteiramente realista quanto a sua forma de agir, algo que fica restrito (e o uso desta palavra aqui não é de forma negativa) às idéias daquela civilização quanto à evolução.

É na Terra, no entanto, que a verossimilhança filosófica é mais evidente e as diferenças quanto a alguns personagens são mais latentes. A que mais chama atenção, certamente, diz respeito ao Jonathan Kent vivido por Kevin Costner. Esqueça aquela figura que serve como um mentor do jovem Clark em outras encarnações, fazendo de tudo para que seu filho tome a decisão de usar seus poderes da melhor forma possível. Desta vez, o espectador se depara com um personagem complexo que tenta a todo custo mostrar que a humanidade não está pronta para um ser superpoderoso à sua volta e que o melhor a se fazer, talvez, seja lançar mão de uma vida simples. E ele tem motivos para essa visão desacreditada de mundo. Basta observar sua reação quando a mãe de um dos colegas de Clark atribui os talentos do garoto a um “ato de Deus”. Costner se mostra uma escolha acertada de elenco nesta, que é, talvez, sua cena mais importante, pelo menos para estabelecer suas motivações e receios.

É um mundo diferente, o deste novo Superman. Clark cresce acreditando nos ensinamentos de seu pai adotivo, procurando um lugar para se encaixar sem se revelar. Infelizmente, a humanidade tende a erros. Assim, por mais que procure se esconder, o jovem Kent sempre se encontra em situações cujos seus poderes são necessários. Como a boa história de origem que é, O Homem de Aço constantemente mostra a inclinação do rapaz para o bem, para ajudar ao próximo, construindo para o espectador, o caráter de seu protagonista. Assim, quando a ameaça do General Zod (Michael Shannon) surge, é inevitável que Clark, agora consciente de sua origem extraterrestre, se revele como aquele que irá se tornar o “maior herói de todos os tempos”.

O caminho para essa revelação, no entanto, é longo. Por quase uma hora, a história cobre vários momentos da vida do futuro Superman, de forma não-linear, por conta da irregular edição de David Brenner. Irregular porque embora sofisticada, com momentos interessantes como o corte da chegada da nave de Clark à Terra para sua idade adulta à bordo de um navio, é responsável também por não conectar totalmente a audiência com seu protagonista, algo fundamental para que seu arco dramático funcione. Jonathan Kent, por exemplo, tem boa parte de seu potencial desperdiçado por conta de sua participação um tanto aleatória na narrativa. Assim, aquela que deveria ser sua cena mais forte, perde boa parte do impacto, deixando para o espectador apenas a citada anteriormente como ponte para estes acontecimentos. Em um filme que procura trabalhar as visões distintas dos dois pais do Superman, este problema prejudica um pouco suas intenções.

Se o pai adotivo de Clark é pessimista em relação à humanidade, o biológico vê seu filho como a esperança de um mundo melhor, que não repita os erros cometidos pelos anos de avanços tecnológicos de Krypton. Jor-El, interpretado por Russel Crowe, com serenidade e imponência, começa o longa como um herói de ação, agindo para garantir o futuro de seu planeta, em um elemento inédito na mitologia do Superman e que faz todo sentido, levando em conta que o personagem é o cientista-chefe daquela civilização. Jor-El é a encarnação do principal tema de O Homem de Aço, a esperança, que o próprio escudo de sua família representa. Assim, quando a inteligência artificial contendo sua consciência finalmente encontra Clark, agora chamado por seu nome verdadeiro, Kal-El, o confronta com uma ideia oposta àquela do patriarca Kent: a de usar, sim, os poderes que a atmosfera terrestre e anos de exposição ao Sol lhe garantiram. É um dos fatores que tornam o Superman um personagem complexo nesta versão: sua luta constante quanto a que lado abraçar. O protagonista é alguém que pertence a dois mundos, e mesmo assim se sente deslocado.

Com todo o terreno preparado em uma primeira metade voltada para o desenvolvimento de Clark/Kal, O Homem de Aço pode, finalmente, se dedicar ao lado heróico de seu personagem principal, o colocando frente a frente com seu primeiro grande desafio: a invasão de Zod e seus asseclas, libertados da Zona Fantasma. É aí que o filme encontra seus maiores problemas. Por mais que as sequências de ação, que seguem quase ininterruptas, sejam de grande qualidade técnica, acabam soando um pouco repetitivas e sem muito impacto, uma vez que a destruição em larga escala acaba se tornando algo normal para o Super. Falta a preocupação com a população de Smallville e de Metrópolis, ou seja, com os humanos que ele passou metade do filme tentando defender. A situação se complica, principalmente, levando em conta que a primeira batalha só acontece na pequena cidade do Kansas porque Clark a leva para lá, mesmo estando em um lugar cheio de grandes campos em que a destruição causada por um combate entre seus semelhantes não ofereceria tantos riscos à vidas humanas. Esse é um dos problemas latentes do filme, mas que existe justamente por conta da audiência.

Como a reclamação principal quanto a adaptação anterior de Superman para os cinemas fora a falta de ação, o roteiro não mede esforços para que o grande público, acostumado às épicas batalhas de Os Vingadores ou Transformers, deixe de pensar no Homem de Aço como um “escoteiro” infalível, sempre pronto para salvar o dia. Aquela que deve ser a maior polêmica do longa, inclusive, é reflexo deste pensamento e coloca o Superman em uma situação pouco vista (mas não inédita, é bom ressaltar). É um mundo diferente, afinal de contas. O espectador quer heróis que vão até as últimas conseqüências. A cena em questão, no entanto, seria mais eficiente se o protagonista demonstrasse, constantemente durante a longa batalha que segue no terceiro ato, uma preocupação maior com vidas humanas. A justificativa para seu ato extremo seria melhor desenvolvida.

Desta forma, sempre fica a impressão que O Homem de Aço é mergulhado em boas ideias e elementos novos, mas com um roteiro que não sabe aproveitar todo o seu potencial, gerando uma frágil conexão com o espectador, que pode se perder a qualquer momento. O texto de Goyer também peca por alguns diálogos ruins e situações um tanto absurdas, chegando inclusive a alguns furos, como ter um determinado personagem caindo em direção oposta a um buraco negro, cuja força deveria sugá-lo quase que imediatamente.

Ainda assim O Homem de Aço é uma boa história de origem, servindo para pavimentar o caminho para uma franquia que ainda tem tempo para corrigir os erros apontados aqui. Isso porque, maior que os problemas de roteiro, é o êxito da escolha do elenco. Henry Cavill surge em cena como um Superman tão convincente quanto foi Christopher Reeve. A forma como projeta sua voz quando está usando o emblemático uniforme é fundamental para que funcione como o personagem que o longa tenta construir. Se a ideia é fazer a humanidade confiar neste ser alienígena, este é o caminho correto, assim como o fato do herói ser um dos poucos que não esconde seu rosto quando em ação. Clark Kent é a máscara neste filme e este é um dos grandes acertos do roteiro. Se em boa parte das tramas de origem, o herói termina imponente usando seu disfarce, aqui o terreno é preparado para algo semelhante, mas que não envolve a capa vermelha. Outro destaque é Amy Adams, que cria uma Lois Lane, enfim, soando como a jornalista intrépida que é, a não ser no momento em que diz: “Eu sou uma ganhadora do Pulitzer”, numa demonstração do quão expositivo um diálogo não deve ser. Mas isso não é culpa da atriz, que não desaponta em suas cenas. Os já citados Costner e Crowe também são adições fundamentais ao elenco, sempre impondo grande presença nas cenas em que aparecem. Laurence Fishburne também se mostra uma boa escolha com seu Perry White, que nada lembra aquela figura caricatural e histérica de outras adaptações. Já Michael Shannon não oferece grandes momentos como o vilão, que embora soe operático em seus longos discursos, não rouba a cena, e muitas vezes se limita a um desafio físico e não intelectual, ainda que esta função seja mais comum a Lex Luthor. No próximo filme, talvez.

A execução, um tanto prejudicada pela já comentada edição, tem bons momentos, provando que Zack Snyder não é apenas aquele cineasta preso em suas próprias características. Desta vez o diretor abre mão de praticamente tudo que o tornou famoso e entrega sua produção mais diferente. Não há a câmera lenta, muito pelo contrário, ela nunca pareceu tão ágil nas mãos de Snyder, que intercala cenas de ação com tomadas contemplativas, lindamente capturadas por seu diretor de fotografia, Amir Mokri, que faz escolhas interessantes quanto às paletas de cores usadas no decorrer da trama. Um mundo sem muita esperança sempre é mais frio. Por isso, ao longo da narrativa, conforme o Superman é construído, as cores começam a se revelar mais fortes e quentes. Tudo isso acompanhado da trilha incidental de Hans Zimmer, que repete o êxito de sua passagem pelos filmes do Batman. Fortemente marcada pela percussão, o compositor também encontra espaço para criar belas melodias que servem de tema para os momentos distintos do Superman. Desde a viagem pelo espaço, embalada a sons agudos que lembram típicos efeitos de ficção científica dos anos 50, até o épico primeiro voo do protagonista, com uma música inspiradora e imponente, Zimmer brinda o espectador com grandes composições que não o deixa sentir falta do imortal tema criado por John Williams para os filmes antigos.

Mas, afinal, O Homem de Aço entrega um Superman relevante para os novos tempos? Apesar de que alguns fãs, com certeza, não ficarão contentes com certos pontos da trama, não há como negar os esforços feitos no longa para se tornar a roupagem que o personagem precisa para cativar novamente o grande público. Há vários acertos e alguns erros, mas no geral, sim, o filme é um reinício digno para o herói, uma adaptação que toma liberdades para contar sua própria história e, mesmo lotada de referências aos quadrinhos, é independente do universo de papel. Este é o novo Superman do cinema, livre de algumas amarras que nas mãos de outros realizadores, talvez fossem levadas em consideração, podendo até gerar uma obra sem muito a acrescentar. Este não é o caso aqui. O Homem de Aço não só reformula a origem do personagem na tela grande, mas abre, definitivamente, o caminho para várias discussões quanto ao impacto que um ser superpoderoso teria no mundo atual. Religião e ciência seriam confrontadas e crenças colocadas à prova. O texto trabalha isso às vezes muito bem, outras nem tanto, especialmente quando teima em explicar várias vezes certos paralelos, como o feito entre Kal-El e Jesus. Repetir várias vezes a idade de Clark ou enquadrá-lo frente a uma pintura de Cristo usando uma capa vermelha são apenas alguns exemplos do quanto a sutileza passa longe dessa nova interpretação do herói. Mas esse, talvez, também seja reflexo dos novos tempos, em que o público está cada vez mais acostumado com ideias devidamente mastigadas e digeridas sendo entregues de bandeja.

Alexandre Luiz

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Comentários

2 comments

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    Joe Mendes 30 junho, 2013 at 03:02 Responder

    O Superman é um dos Super-Heróis mais criticados dos quadrinhos!
    E sempre que lançam um novo filme ou seriado do herói, todos esperam uma caracterização perfeita e imune a erros!
    Desde o Christopher Reeve que fez uma interpretação impecável do herói, o elenco sucessor foi alvo de críticas, rejeição e desaprovação.
    O Superman é sim um personagem com uma história de grandes expectativas, mas não é por isso que deve ser o longa-metragem, seriado ou outro tipo de caracterização perfeito!
    Todos estão sujeitos a erro, tudo depende do ponto de vista dos espectadores, que nesse caso sempre esperam algo muito além do que qualquer produção até hoje conseguiu alcançar!

  2. Avatar
    Zé Guilherme 6 julho, 2013 at 01:35 Responder

    Vamos lá cara! Infelizmente o filme não foi Aquele filme que a gente tanto esperou, mas isto não tornou ele menos divertido ou empolgante. Você apontou bem os principais erros dele e concordo com absolutamente todos. Agora o que me deixou mais feliz e sinceramente eu não achei que me pegaria fazendo isso, é o saudosismo das boas referências a Smallville (sério o Clark adolescente que salva o ônibus é tipo a cara do Tom Welling) e as HQ´s mais cultuadas (achei a narrativa bem semelhante a Grandes Astros, mas a edição não ajudou muito).
    Agora ao que interessa, PQP o Henry Cavill merece aplausos e todo o reconhecimento pelo trabalho que conseguiu fazer, ele de longe foi a melhor coisa do filme (que não nos poupou das participações curtas mais pontuais dos grandes atores que encarnaram os icônicos personagens da mitologia do Super). Comparando, eu achei o alcance dele semelhante ao do Christian Bale com o Bruce no Begins… fiquei arrepiado com o Cavill mesmo.

    P.S.: Vergonha alheia de diversas frases, eu meio que desviava o olhar e tentava focar em outra coisa que tivesse acontecendo.
    P.S.2: Ainda quanto ao roteiro, tem uns furos bem esdrúxulos que me faz torcer para que o Goyer ficasse longe do próximo filme. =//
    P.S.3: O plano sequência de quando Clark se despede de Lois no deserto, antes de entrar na nave do Zod foi idêntico as cenas do Coruja e da Spectral evaporando em Marte no Watchmen! ahahahahahaha
    P.S.4: A "polêmica" decisão quanto ao destino de Zod deixou um senhor puto no cinema… ele disse que pra ele o filme acabou ali, quase infartava! ahahahahahahahahaa

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