Crítica: O Homem de Aço por Davi Garcia

O-Homem-de-Aço-poster-nacionalDepois do mal sucedido reboot de 2006, não era fácil a missão desse bom O Homem de Aço. Afinal, além de ter que estabelecer uma nova reintrodução do Super-Homem no Cinema que não soasse repetitiva, o filme de Zack Snyder tinha - tal qual já ocorrera com O Homem de Ferro em relação aos planos da Marvel em 2008 –o peso de carregar a responsabilidade de ser a pedra fundamental da esperada expansão do universo DC de forma interligada nas telonas. Nesse contexto, é curioso notar que se por um lado a produção (que contou com a supervisão de Christopher Nolan e roteiro de David Goyer, da trilogia Batman) alcança seus maiores e já mencionados objetivos, por outro derrapa ao mostrar um herói que, apesar do potencial, ainda não tem toda alma e carisma que, imagino eu, os fãs esperam daquele que deve ser o grande protagonista e catalisador de uma nova franquia que culminará no comentado e esperado filme da Liga da Justiça.

E não me entendam mal. Se não chega a ser excelente, dada a incômoda ruptura de tom e estrutura escancarada entre seus dois (e melhores) atos iniciais e o último, O Homem de Aço ainda assim merece ser reconhecido muito mais por suas qualidades do que por seus equívocos. E digo isso primeiro por conta da decisão de abrir a história contextualizando o panorama político e social de Krypton (e no processo as motivações de Jor-El para mandar seu pequeno filho Kal-El para longe) e depois pela interessante escolha de quebrar a linearidade da narrativa para explorar (ainda nos dois primeiros atos do filme) o conflito existencial de Clark Kent (Henry Cavill, bem melhor do que seu antecessor Brandon Routh, é eficiente ao conferir nuances ao personagem) durante várias fases de sua juventude e início da vida adulta quando ainda surge como um sujeito totalmente deslocado no mundo e que por não compreender sua natureza fantástica, mergulha em pequenos exílios suavizados apenas pelo conforto da presença e das palavras de seus pais adotivos, Jonathan e Martha Kent, feitos com competência por Kevin Costner e Diane Lane e, mais tarde, pela conexão que cria com a intrépida Lois Lane de Amy Adams.

O problema é que quando O Homem de Aço parece estar prestes a se impor efetivamente - com Clark enfim tomando ciência de suas origens; da plenitude de seu poder (no que aliás rende uma divertida sequência em que o herói se choca contra uma montanha depois de voar de forma desajeitada pela primeira vez “testando” seus poderes e habilidades) e do papel que poderia representar na Terra como símbolo de uma liderança positiva (um conceito, àquela altura, já amplamente martelado por Jor-El em ótima interpretação de Russel Crowe, diga-se),o filme acaba dando uma guinada descendente e menos interessante sob o ponto de vista de estudo de personagem justamente a partir do momento em que Clark abraça sua porção super e revela-se ao mundo para encarar, em grandes e destruidoras batalhas que deixariam Michael Bay e seus Transformers orgulhosos, a ameaça refletida pelo general Zod (interessante vilão do sempre ótimo Michael Shannon) e seus asseclas.

Sim, é claro que dali em diante há todo um espetáculo visual proporcionado pelo escopo e pela intensidade das sequências de ação (pontuadas pela trilha grandilhoquente de Hans Zimmer) que sem qualquer dúvida elevam à última escala o potencial do personagem como nunca havíamos visto antes em live action. Contudo, o lado negativo disso surge quando ganha força a impressão de que o Super-Homem, de maneira consciente ou não, parece deixar de lado a ideia de humanidade de Clark Kent (e seu respeito pela vida alheia) para, sem maiores cuidados, “ajudar” a destruir praticamente metade de Smallville num primeiro momento e de Metrópolis depois (matando milhares no processo evidentemente) sob a ‘desculpa’ de ter que subjugar Zod - que àquela altura já havia provocado a morte de outros milhares, o que, claro, é uma pena visto que o resultado prático de tanta quebradeira acaba contribuindo mais para esvaziar do que para elevar o impacto emocional do desfecho daquele embate.

Assim, por mais contraditório que possa parecer, a verdade é que O Homem de Aço do, dessa vez contido, Zack Snyder, embora feliz em muitas escolhas (elenco, montagem, trilha e até mesmo na escolha daquele efeito de zoom que remete à Battlestar Galactica nas cenas de ação), acaba revelando-se no final como um filme muito melhor quando focado no Clark Kent do que naquele que confere protagonismo à figura mais icônica do universo dos super-heróis, o que obviamente não diminui a importância e a relevância deste reboot, mas deixa no ar um gostinho de algo muito bom, mas que poderia ser ainda melhor.

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