Crítica: O Legado Bourne

Depois de três ótimos filmes, a franquia “Bourne” finalmente encontrou seu exemplar mais fraco. E, por mais que seja uma história diferente que não se encaixa nas definições de prequel ou sequel, O Legado Bourne carrega o nome do personagem que, além de ter mostrado a capacidade de Matt Damon em encarar lutas brutais, mudou o cenário do cinema de ação (ou ajudou a mudar, com a maior parte da responsabilidade). Por isso seria até justo argumentar que com tanto a provar, este quarto pode desapontar por não superar os anteriores. Infelizmente, sob o comando de Tony Gilroy, a nova investida é decepcionante sob qualquer prisma, seja como parte de uma série bem-sucedida, mas também como exemplar do gênero de espionagem.

Situado durante os eventos de O Ultimato Bourne, o longa apresenta ao espectador um novo personagem, Aaron Cross (Jeremy Renner), parte de outro experimento originado daquele que tornou o protagonista vivido por Damon no superagente dos antecessores. Cross está vivendo num campo de treinamento no Alaska. Sua primeira cena remete imediatamente ao corpo flutuando no mar que abre A Identidade Bourne, estabelecendo uma conexão visual que não soa nada orgânica, já que não há necessidade deste tipo de ligação, uma vez que o título do filme já estabelece isso. Além do mais, a rima não tem sentido nenhum na trama pois a jornada enfrentada pelo novo herói em nada lembra a do anterior, a não ser o fato de ser caçado por agentes do governo norte-americano. Enquanto o personagem de Renner passa frio nas montanhas do Alaska, nos EUA dois executivos da CIA discutem sobre o perigo da exposição de informações referentes aos experimentos genéticos desenvolvidos para a criação de supersoldados. Corta para Cross enfrentando lobos. De volta à sede da Inteligência, o novo vilão, interpretado por Edward Norton, traça planos para começar uma “queima de arquivo” em massa. Corta para Cross escalando uma montanha. Essa dinâmica, que falha em desenvolver qualquer empatia por aquele que o espectador irá acompanhar durante 130 minutos de projeção, segue por quase 40 minutos que soam intermináveis não apenas por não conseguirem tornar o protagonista interessante, mas pelos diálogos nada chamativos, que discutem um ‘blá-blá-blá’ descartável à partir da terceira ou quarta vez que algum coadjuvante tenta alertar para as ramificações dos atos de Bourne. Na primeira vez era necessário para os que nunca viram os filmes anteriores. A segunda apenas para reforçar o conflito. Qualquer coisa que continuasse o assunto sem adicionar nada à trama, não merece um lugar no corte final.

Quando finalmente a narrativa parece engrenar, com a introdução da Dra. Marta Shearing, personagem de Rachel Weisz, principalmente durante a sequência envolvendo o tiroteio no laboratório (que parece sugerir um ‘motivo’ para inúmeros surtos em pessoas comuns, que do nada saem atirando em colegas de trabalho), tudo volta à se tornar enfadonho, com Cross e a cientista precisando viajar para as Filipinas, onde o herói conseguirá o medicamento que o torna inteligente. E aí está um dos graves problemas da trama idealizada por Tony Gilroy, que além de dirigir também escreve o filme. Jason Bourne tinha um motivo para fazer o que fez. Além de começar tentando saber quem era, sua missão se torna relevante já que decide não só acabar com a caçada contra si mesmo, mas expor os atos duvidosos da CIA. Desta vez, a motivação do protagonista reside em não voltar a ter um QI baixo, uma vez que o tratamento do programa Outcome, além de melhorar seu condicionamento físico, dá ao ‘participante’, maior uso do cérebro. É um filme de espionagem sem nada para espionar.

Outro problema criado por Gilroy, tanto pelo texto (que divide com seu irmão, Dan) quanto por sua direção errática, é a falta do “senso de urgência” que marcou tanto a trilogia original. E são vários os motivos para o longa falhar nesse quesito. A ausência de uma motivação melhor é um deles, mas também ajuda (ou atrapalha, dependendo do ponto de vista) que alguns momentos sejam dotados de um ritmo arrastado e aborrecido, seja pelos diálogos desinteressantes ou pelo excesso de cenas desnecessárias. E há um flashback envolvendo Norton e Renner que entra nessa lista já que não oferece nada de relevante. Não serve nem para estabelecer a dinâmica entre herói e vilão.

Mas, se há um acerto por parte do diretor (que fora responsável pelo roteiro dos três Bourne anteriores, informação que causa espanto pelas decisões bobas nesta nova aventura) é comandar as cenas mais calmas sem a câmera se movimentando de um lado para o outro, como era o hábito de Paul Greengrass. Porém, numa decisão questionável, Gilroy decide emular o cineasta anterior nas cenas de perseguição, falhando vergonhosamente. Muita gente reclama dos originais pela dificuldade de se entender o que está acontecendo na tela. Bom, se você é uma dessas pessoas, vai sentir saudades da “câmera tremida” dos filmes com Matt Damon. O que acontece na cena envolvendo motocicletas e inúmeros carros pelas ruas movimentadas e lotadas de Manila se torna incompreensível aos olhos de qualquer fã do cinema de ação pós-Bourne. Somando isso à uma trilha genérica criada por James Newton Howard (que infelizmente, após anos de experiência, está se tornando expert nesse tipo de composição sem inspiração), O Legado Bourne não consegue se sustentar nem naquilo que a série ajudou a redefinir: a ação.

É triste também perceber como Gilroy levou a sério um trabalho tão fraco, a ponto de não encerrar a trama para deixar uma continuação engatilhada. Como os livros de Robert Ludlum deixaram de ser inspiração, tendo esse novo longa compartilhado apenas o título com um romance escrito por Eric Van Lustbader, que continua as aventuras do espião criado pelo autor já falecido, está muito clara a ambição de dar continuidade à franquia custe o que custar. Mesmo que o preço a ser pago seja sua própria qualidade.

Alexandre Luiz

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