Crítica: Sombras da Noite

A parceria de Tim Burton com Johnny Depp já não é novidade e até se transformou em motivo de piada nos últimos anos, uma vez que o ator esteve em todos os filmes recentes do cineasta. E, apesar de muita gente torcer o nariz para a dupla, já que Burton parece ter perdido o tato e Depp ter se tornado uma caricatura comparado a papéis de outrora, é inegável que quando realmente se dedicam, ambos parecem mesmo feitos "um para o outro" e Edward Mãos-de-Tesoura, Ed Wood e Sweeney Todd estão aí para comprovar. E se Sombras da Noite não compartilha da mesma qualidade destes três filmes, ao menos não é um total desastre como Alice no País das Maravilhas, produção que, embora competente visualmente, falha miseravelmente no ritmo.

Baseado na série de TV de mesmo nome, exibida nos anos 70 nos EUA, a grande vantagem de Sombras da Noite é ser uma trama que não precisa se adequar ao estilo de Burton. O "novelão" já era dotado de características góticas suficientes para deixar o diretor mais tranquilo, uma vez que uma parcela de suas adaptações que não funcionaram como deveriam reside justamente no fato de algumas histórias simplesmente não se encaixarem à visão do realizador. Na trama, o vampiro Barnabas Collins (Depp) é aprisionado pela bruxa Angelique (Eva Green) e acorda dois séculos depois, em plenos anos 70. Após encontrar o que sobrou de sua família em decadência, decide trazer de volta as glórias do passado, mas para isso deverá se livrar de uma vez por todas da vilã, que agora se tornou a mais influente empresária da cidade.

O longa começa bem com o prólogo contando a trágica história de Barnabas até seu confinamento. E o salto que dá para os anos 70 é igualmente satisfatório, pois passa a impressão de que toda a trama será vista pelo ponto de vista de Victoria Winters (Bella Heathcote), garota que chega na mansão dos Collins para se tornar governanta do jovem e problemático David (Gulliver McGrath). E até o vampiro despertar, a narrativa é mesmo voltada para a personagem. Porém, deste ponto em diante, Depp toma as cenas para si. Sim, ele é o protagonista mas a narrativa simplesmente se desencontra a partir deste momento, justamente pela falta de coerência com a forma que começou. Além disso, seria uma abordagem interessante, transformar Barnabas no elemento de mudança e fazer o espectador acompanhar tudo isso pelo ponto de vista de alguém de fora. Mas não é isso que acontece e, embora um romance comece a se desenvolver entre os dois, Victoria simplesmente desaparece em alguns momentos da trama. Claro, boa parte da culpa está na enorme quantidade de personagens. A atual líder dos Collins, vivida por Michelle Pfeiffer e sua precoce filha interpretada por Chloe Moretz são igualmente interessantes em relação à psicóloga alcoólatra encarnada por Helena Bonham Carter ou Jonny Lee Miller na pele do pai de David, o Collins cafajeste. E mesmo assim, nenhum é completamente desenvolvido já que cada um tem sua própria subtrama e o filme não consegue cobrir as 5 temporadas do programa original em menos de duas horas.

Por outro lado, mesmo vivendo novamente um personagem coberto por pesada maquiagem, Depp não desaponta e sua composição de Barnabas é muito criativa, unindo características de outros vampiros clássicos como movimentos sutis que evocam o Conde Orlok de Nosferatu e a postura elegante do Drácula de Bela Lugosi. Mas, quem realmente se destaca é Eva Green. A atriz se diverte como a vilã e protagoniza com Depp as melhores sequências do filme, incluindo uma cena de sexo incomum (com direito a Burton fazendo referência a si mesmo, numa cena tirada diretamente de Batman - O Retorno).

O roteiro, escrito por Seth Grahame-Smith, consegue equilibrar bons momentos de humor com o estilo dramalhão oriundo do original, e a direção de Burton ajuda com a composição de algumas cenas, como a piada visual a respeito de Mefistófoles ou quando Barnabas se declara para Victoria enquanto é observado por Angelique (provavelmente a tomada mais novelesca de todo o filme). Igualmente competente é a homenagem prestada ao seriado, em cenas como a que o vampiro precisa ir de barco até um ponto no mar, filmada como na época da produção do Sombras da Noite original, não escondendo que aquilo foi, na verdade, rodado em estúdio. Mas, se o cineasta é feliz nesse momentos, acaba falhando em outros, em que o ritmo deveria ser um pouco mais acelerado, como no clímax. A cena em questão, sem revelar nenhum spoiler pesado, envolve vários personagens. Cada um tem seu momento importante, mas a forma como Burton filma faz parecer que todos estão esperando sua vez. Quando alguém entra em ação, os outros param, principalmente Barnabas, que está em cena e em vez de tomar alguma atitude, fica apenas observando. Outro problema desta mesma sequência é a revelação de uma característica de um dos personagens, feita meio de última hora cuja única referência é um diálogo no início. Como os coadjuvantes não tem tempo de tela pra serem desenvolvidos, o espectador acaba se deparando com esse tipo coisa.

Como é de se esperar em obras do cineasta, visualmente Sombras da Noite é mais uma de suas conquistas. A direção de arte de Chris Lowe e o design de produção de Rick Heinrichs criam bons resultados na recriação dos anos 70, exagerando em algumas coisas (nas cores, por exemplo) sem adequá-las totalmente aos vícios Burtonianos. Ao menos desta vez, não há roupas com listras preto e brancas ou (muitas) árvores retorcidas e sem folhas. Quem não inova muito é Danny Elfman, em sua trilha incidental, deixando espaço para as músicas da época, em especial as de Alice Cooper, que surge numa participação inusitada como si mesmo.

Sombras da Noite pode estar longe de se tornar um clássico cult como os filmes dos anos 80 e 90 de Burton, mas perto de sua filmografia recente não desaponta tanto. Problemático, mas divertido, o filme rende uma boa sessão noturna no cinema, mesmo para quem sempre espera do cineasta uma nova obra-prima, e que não a encontrará desta vez. De novo.

Alexandre Luiz

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Comentários

1 comment

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    Gisele Santos 15 fevereiro, 2013 at 11:36 Responder

    Adorei o filme até porque eu gosto do estilo Tim Burton com Johnny Depp, não concorda que o filme Alice tenha sido uma produção ruim é um filme maravilhoso, mas com um estilo sombrio, mas centrados para os jovens sendo que o conto original é infantil adoraria uma continuação com um enredo diferente.

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