Crítica: Vingadores: Era de Ultron

vingadores_ultron-posterDesde que fora anunciado, o segundo longa da superequipe de heróis da Marvel vem recheado de expectativa, que por sua vez vem acompanhada da dúvida: "será que ele consegue superar o primeiro?" Se essa pergunta é respondida, melhor deixar mais para frente. Se ela é, no mínimo relevante, já é outra conversa. A divisão cinematográfica da Casa das Ideias entregou em 2014 duas excelentes obras que fizeram os fãs esperarem algo sempre no mesmo nível ou melhor. Isso, acompanhado da tola esperança que todo filme de quadrinhos deve ser "do jeito que eu quero" só atrapalha a recepção da audiência e a intenção do longa, que no fim é a de ser uma diversão eficiente. E Vingadores: Era de Ultron é mais do que isso. Melhor que o primeiro? Por que isso importa?

Se na aventura inicial Joss Whedon e o roteirista Zak Penn discutiram as motivações dos heróis, desta vez, com texto assinado apenas pelo primeiro, a trama coloca em cheque as consequências das ações de Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Viúva Negra, Hulk e Gavião Arqueiro (Robert Downey Jr, Chris Evans, Chris Hemsworth, Scarlett Johannson, Mark Ruffalo e Jeremy Renner). Como a população reage perante esses deuses e monstros que resolveram ajudar a Terra? Será que estão mesmo ajudando? Whedon toca no assunto dando a cada um dos personagens uma função específica para ilustrar os diferentes tipos de heroísmo. Se o Capitão representa os ideais mais "ultrapassados" (agora confrontados com a desconfiança, depois dos eventos envolvendo a SHIELD), Tony Stark demonstra uma obsessão perigosa com a proteção da raça humana, que o leva a criar a ameaça do longa, Ultron (James Spader), uma inteligência artificial cuja função é trazer paz para o planeta, um conceito abstrato entendido da pior maneira. Já Bruce Banner, que precisou decidir se deveria ou não liberar o Hulk no primeiro longa, agora deve encarar a destruição deixada por onde passa. A Viúva aos poucos revela suas cicatrizes do passado e o Gavião Arqueiro, um dos personagens mais complexos da fita, precisa tomar uma decisão à respeito de sua vida como herói.

Não é nada fácil lidar com tanto material sem deixar a impressão de uma trama inchada, e Joss Whedon, acostumado a trabalhar com grupos de vários protagonistas, se sai muito bem quando dá aos heróis momentos distintos de desenvolvimento. Apesar de alguns escorregões, como a presença um tanto gratuita do Máquina de Guerra (Don Cheadle) a subtrama do Thor, que sofre com cenas aleatórias, como seu encontro com o Dr. Selvig (Stellan Skarsgård, que parece estar ali apenas para trazer informações sobre o futuro da Marvel), no geral o roteiro consegue até ser bem enxuto e direto, além de, apesar das ligações com o universo cinematográfico formado por outros filmes, se mostrar fechado em si mesmo quando diz respeito à ameaça da vez. Quando o assunto é desenvolvimento de personagens e temas, Era de Ultron é, sim, superior ao antecessor, com seu texto focado nas ações das pessoas por baixo do uniforme colorido.

Se há algum pecado, no entanto, neste segundo Vingadores, é o excesso. Não que existam cenas de ação demais, mas elas são tão pretensiosas quanto a ilustrar os poderes dos heróis que soam um tanto cartunescas e sem muita personalidade. É destruição em larga escala ali, piruetas aqui e, no fim, a tensão fica de lado, já que com tantos "dublês digitais" saltando de um canto para o outro, o elemento humano se perde. O melhor exemplo é a sequência inicial, que mostra a equipe invadindo uma base da HIDRA. Apesar de tecnicamente interessante, por fazer o público acompanhar um take longo por todo o cenário envolvido, a artificialidade é tamanha que parece se tratar de uma cutscene de algum game da nova geração. E artificialidade em um filme que se preza tanto a desenvolver a humanidade de seus protagonistas, não é exatamente algo a ser elogiado. Apenas quando se preza a focar em pequenos momentos em meio à ação (principalmente em seu clímax) é que o filme se sai realmente bem nesse sentido e mostra a força de suas ideias. A luta do Hulk com o armadura Hulkbuster do Homem de Ferro só impacta por mostrar Tony se preocupando em salvar alguns grupos de pessoas, já que a ação, em si, se resume à porradaria genérica.

Outra coisa que Era de Ultron faz de forma eficiente é apresentar os novos personagens. Wanda e Pietro Maximoff (Elizabeth Olsen e Aaron Taylor-Johnson) por exemplo, surgem como ameaças e se unem aos heróis por uma motivação orgânica, graças aos conflitos que, mesmo após mudarem de lado, criam com Stark e Thor. Aliás, em determinado momento há uma interessante cisão entre o Homem de Ferro e o Capitão, já dando indícios de como será a dinâmica de ambos em Guerra Civil. Visão (Paul Bettany) também surge como uma excelente adição à equipe, com uma origem interessante e que ainda deve trazer frutos no futuro. O ator, que dá voz a JARVIS desde o primeiro filme do Ferroso, se sai bem como o robô cheio de conflitos sem parecer frio demais ou alienado à toda situação. E sua presença é cercada de referências e momentos empolgantes para os fãs.

A dinâmica entre alguns personagens, como a encontrada na relação incomum entre Natasha e Banner, é, também, algo a ser elogiado no roteiro do criador de Buffy. A facilidade de Whedon em gerar relacionamentos explicados mais pelas motivações pessoais dos envolvidos e menos por mera atração é o diferencial em sua forma de contar histórias. Mesmo que muitos leitores de quadrinhos possam torcer o nariz para algumas ideias, é inegável que elas façam total sentido dentro da proposta e da construção individual dos heróis. E, mais do que isso, façam bem à própria trama. Esse é, inclusive, o motivo da subplot envolvendo o Gavião Arqueiro se mostrar uma das mais poderosas do longa, até porque o diretor/roteirista adora gerar uma expectativa para depois quebrá-la, tanto no drama quanto no que diz respeito ao humor, que, aliás, está presente ao longo de toda projeção, fazendo esquecer aquela ideia de que o segundo filme deve ser mais sombrio. Mais denso, sim, mas sem perder o fator diversão.

Mesmo incluindo sequências nitidamente impostas pela Marvel para criar pontos que liguem seus próximos filmes (como a já citada envolvendo o Deus do Trovão), Whedon sabe equilibrar suas próprias intenções com àquelas do estúdio e consegue até adaptá-las para servirem aos dois propósitos. Vingadores: Era de Ultron é, portanto, uma sequência digna não apenas de seu antecessor como das mais recentes obras envolvendo o Universo da Casa das Ideias. É o melhor filme até aqui? Não, não é. Mas não deixa de ser um dos mais divertidos. Mesmo com toda atenção dada aos personagens, no fim o que vale é quantas vezes o espectador sorri de satisfação. E com esse longa, não tem como não sair do cinema satisfeito.

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Alexandre Luiz

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7 comments

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    danilo andrade 25 abril, 2015 at 10:39 Responder

    obrigado pela crítica alexandre, enquanto o cinema em cena não tem a crítica (pablo villaça parece muito parado em escrever críticas a filmes recentes e muitas vezes fica falando de filmes que ninguém quer curtir) vocês do cine alerta dão de goleada, pelo menos vocês tem a crítica de carrie – a estranha com chloe moretz enquanto no cinema em cena nem sequer o pablo fez (ao invés disso escreveu uma crítica ao filme do crô), deve ser por isso que prefiro o cine alerta nas críticas e nos podcasts.

    P.S.: façam o alerta do spoiler do filme novo dos vingadores?

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    carla machado 25 abril, 2015 at 19:15 Responder

    Esperando ansiosamente o podcast…
    desculpa a ignorância, mas quem é e o que significa a cena pós crédito?
    O cinema todo aplaudiu e quero saber o porquê…
    bj

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      Alexandre Luiz 26 abril, 2015 at 10:28 Responder

      Oi, Carla! É o Thanos, lembra dele em Guardiões da Galáxia e no final do primeiro Vingadores? Aquele objeto é a Manopla do Infinito, onde ele coloca cada uma das Jóias que conferem ao cara um poder extremo. Ele vai ser o grande vilão de Vingadores 3 e 4.

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    Vitor 27 abril, 2015 at 13:55 Responder

    A origem do Visão superou a dos quadrinhos na minha opinião. [LEVE SPOILER] E o momento da criação em si foi bem Frankensteiniano.

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      Alexandre Luiz 27 abril, 2015 at 16:16 Responder

      Vitor, valeu pelo comentário! Fique ligado no Alerta de Spoiler, nosso podcast que vai ao ar quinta-feira. falamos justamente sobre o momento da criação do Visão que ficou excelente mesmo! Grande abraço!

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