Dia dos Namorados | O Dia do Terror, um slasher "moderno" sobre relacionamentos

O Dia do Terror foi um filme dos anos 2000 que tentou surfar na onda dos neo-slasher inaugurada em Pânico, mas também explora outra formula de filme: a temática de datas festivas. O longa-metragem de Jamie Blanks adapta um livro, chamado Valentine, de Tom Savage, que mostra uma história no passado onde um rapaz sofre bullying num baile escolar, e supostamente volta com desejo de vingança 13 anos depois do ocorrido.

Blanks é mais conhecido por ter feito Lenda Urbana, obra de temática semelhante a este O Dia do Terror e que se encaixa na categoria de Filme de Matança, além de explorar um tema popular.

Em ambas obras ele utiliza um elenco jovem, que ficaria bastante famoso ao longo dos anos mas que na época, era apenas um amontoado de corpos bonitos e almas vazias.

Filmes Slasher normalmente são moralistas, com algum assassino punindo quem tem vida sexual ativa. Aqui a ideia de vingança é um pouco diferente.

O matador que usa uma máscara de querubim (ou de cupido) pune não só as pessoas que fizeram mal a ele no passado - supostamente, dado que no começo não se sabe se quem está matando é o Jeremy Melton, o rapaz agredido no epílogo - mas também pessoas que se mostram super bem resolvidas, que vivem em uma solidão sentimental carente e hipócrita.

MCBASTARD'S MAUSOLEUM: VALENTINE (2001) (Scream Factory Blu-ray Review)

No presente o roteiro se foca em um quinteto de moças, todas adultas, cada uma buscando um rumo para suas vidas amorosas. Por mais que elas tenham crescido, seguem praticamente dentro do estereótipo que lhe foi atribuído na infância.

Shelley (Katherine Heigl) é a inteligente, que trabalha como médica, Kate (Marley Shelton) é a popular e protagonista e que se torna a final girl, Lilly (Jessica Cauffiel) é a divertida, Paige (Denise Richards) é a femme fatale e Dorothy (Jessica Crapshaw) a ex-gordinha complexada com seu corpo. Esses arquétipos fazem lembrar o  estilo de produtos pops da época, como a série Sex And The City.

A intenção do roteiro de Donna Powers e Wayne Powers seria o de soar irônico, mas acabou resultando em outro tipo de apelo. Dia do Terror é hoje uma obra bastante louvada por extremistas de direita, inclusive pelos Incel, sigla em inglês para celibatários involuntários.

Suas personagens femininas são condenáveis, porcas, bizarramente vaidosas e escrotas, continuam com a mesma mentalidade Mean Girls/Garotas Malvadas do ensino médio, e cada uma delas é uma particular demonstração de que as aparências enganam.

Heigl por exemplo, faz o papel de uma mulher que deveria ser esperta, mas que é tola o suficiente para ser ludibriada por um assassino que entra em um necrotério, consegue esconder um cadáver sem ela perceber e ainda prega uma peça nela, se colocando no lugar do corpo onde ela enfiaria o bisturi.

Valentine (2001)

Para piorar, após o psicopata mostrar que tem superpoderes (só isso explica a velocidade com que ele despe as roupas, assusta a moça e depois se veste com um sobretudo e máscara), ainda chega ao cúmulo de se fechar em um saco de embalar corpo, praticamente impedindo a si mesma de se defender caso o sujeito a achasse, como acha.

Após a morte da futura estrela de Greys Anatomy, o quarteto de amigos enfim se reúne, para lamentar a morte da amiga. No velório, conhecem o detetive Leon Vaughn (Fulvio Cecere), que obviamente traz uma série de suspeições, prendendo previamente Jason Marquette um rapaz que se encontrou com Shelley e possui as iniciais de Jeremy Melton.

Ele obviamente também coloca em suspeição os parceiros e ex-namorados das meninas, ampliando o escopo de suspeitos para praticamente todo homem que adentra a trama, sem grandes critérios além desse.

Vaughn é outra mostra do quanto o script tenta fazer uma crítica a sociedade, já que a polícia é lenta e incompetente para prevenir os ataques as moças. Mesmo com a suspeita suspeita oficial, ele não deixa nenhuma delas sob vigia, e demora dias a perceber que uma delas foi assassinada, condição essa agravada pelo fato do sujeito violento mandar para cada uma delas cartões pseudo românticos, com mensagens macabras escondidas.

No entanto a maior crítica é sobre as garotas.

Paige cresceu e segue tão fútil quanto antes, imatura e incapaz de manter uma relação por muito tempo. Tem um dos fins mais trágicos e inventivos do filme, em uma cena que lembra um assassinato do filme Slasher Quem Matou Rosemary de 1981.

Já Lilly é a que está melhor resolvida, tem um par bastante estranho, mas ainda tenta encontrar um namorado em programas de namoro via correspondência de fitas. Ela protagoniza dois momentos icônicos, um nojento, comendo chocolate repleto de vermes, e sua morte, em um stand de arte erótica, sendo flechada pelo cupido assassino, em uma baita justiça poética por todo o desprezo que Jeremy passou.

Valentine (2001) - Lily's Death [HQ] - YouTube

Não é à toa que boa parte do público frustrado sexualmente abrace esse filme, pois mesmo personagens mais simpáticos são mostrados com falhas de caráter ou comportamento. Kate, que não havia sido mal-educada com Melton no passado, é mostrada como uma pessoa frustrada, que não consegue terminar seu relacionamento com o Adam de David Boreanaz.

Seu momento mais baixo é quando ela usa a água da privada para terminar de limpar seus cabelos quando o chuveiro para de funcionar. A bela e perfeitinha é capaz de se banhar com água contaminada por coliformes fecais, mas ainda mantém a pose de moça com a vida sem defeitos.

O mesmo pode-se dizer de Dorothy, que até foi legal com Jeremy no início do filme, mas depois o acusou de estar abusando dela. No "presente", ela é complexada, frustrada por não conseguir ter relações duradouras e ainda dá espaço para um aproveitador e ladrão de fortunas ir morar com ela depois de conhecê-lo há poucos dias.

Não há nenhuma pessoa para se afeiçoar, ao contrário, todos são personagens odiáveis, sobretudo as meninas.

Visualmente o filme é arrojado, seu diretor de fotografia é Rick Bota, que trabalhou no trash Barb Wire: A Justiceira e na série Contos da Cripta. Aqui seu trabalho é sóbrio, valoriza tonalidades mais escuras, fato que ajuda a aumentar  o escopo da violência e ainda possui uma exploração de ângulos bastante curiosos quando as mortes são mostradas.

Valentine (2001): A Review | Halloween Love

A música de Don Davis também ajuda a estabelecer bem o horror brutal do homem frustrado, que mostra sua impotência sexual com mortes, que ocupam o lugar de seu gozo, não à toa ele mata suas vítimas com armas fálicas, com facas, cacos de vidro ou eletrodomésticos.

O grave problema do filme é o roteiro. Não é plausível que o rapaz tenha se escondido por 13 anos. Filmes como o já citado Quem Matou Rosemary, O Terror da Serra Elétrica entre outros se valem disso, da pausa de muitos anos entre chacinas, mas mostram pessoas perturbadas, que cometem seus crimes a partir de um catalisador, a partir de um gatilho. O rompimento do hiato de mortes é justificado ao menos em parte, o que jamais ocorre aqui.

Um filme de assassino serial dos anos oitenta e setenta pode ser feito sem grandes motivações para tal, mas um produto que se vale da estética e forma de Pânico, não. Ou se é um filme sem qualquer fundamento esperto, uma bobeira trash, ou se é uma metalinguagem do horror, e a obra de Blanks erra ao tentar ser um pouco dos dois.

Valentine (2001) – Jessica Capshaw | 2000's Movie Guide

O desenrolar bizarro se vale de muitas conveniências e de deduções de mulheres nada espertas que estão na trama basicamente para ser abatidas, são capazes (quando querem) de serem geniais e mais inteligentes que investigadores forenses. Isso não faz sentido.

Aos menos as mortes são bem mostradas, o que para um filme de horror de 2001 é de fato um mérito. Há afogamentos, gente eletrocutada, empalamento, degola, além de inúmeros golpes de faca.

Dia do Terror sofre exatamente por ser um produto dessa época. Caso tivesse sido lançado em outra onda de filmes de horror, poderia ser melhor aceito. Seu final tenta soar dúbio, mas esbarra na falta de sutileza e na necessidade de parecer tão surpreendente quanto Blanks foi em Lenda Urbana, mas dado que seus diálogos são expositivos o filme inteiro, soa confuso que falte uma maior explicação de como o assassino montou o cenário final.

Ainda assim, é uma boa pedida para quem quer ver um filme de terror mais leve, com seu par.

Avatar

Comente pelo Facebook

Comentários

Comente pelo Facebook

Comentários

Deixe uma resposta