Os 25 anos de Dick Tracy - Quando o Tempo Recompensa a Ambição

dick-tracy-posterDepois do estrondoso sucesso de Batman, em 1989, era inevitável que a indústria hollywoodiana passasse a assumir uma postura mais aberta quanto a adaptações de quadrinhos. Descobriram um público massivo em potencial e a aventura do Homem-Morcego serviu como ponto de partida para diversas produções que tentaram capitalizar em cima do sub-gênero. Nenhuma foi tão bem sucedida, nem em termos de qualidade e, principalmente, quando o assunto é bilheteria. Em 14 de junho de 1990, apenas um ano após o lançamento do sombrio longa de Tim Burton, chegava aos cinemas Dick Tracy, adaptação do popular detetive das tirinhas de jornal nos anos 30, que ganhava vida graças a insistência de Warren Beatty, que desde o começo da década de 70 exibia interesse em levar o personagem para as telonas.

Com produção conturbada (Beatty criou má fama por ser um sujeito difícil), Dick Tracy não conseguiu, nem de longe, repetir o feito de Batman. O orçamento de U$ 46 milhões até conseguiu ser pago com a arrecadação mundial de pouco mais de U$ 160 milhões, mas perto dos quase 500 mi do longa do Morcego (que custou o mesmo montante gasto em Tracy), era um número morno. A crítica ficou dividida: uns diziam se tratar de uma obra visionária, outros consideraram uma bagunça narrativa e condenaram a escolha de Madonna para um dos papéis centrais. Com o tempo, no entanto, o filme foi adquirindo status de Cult, mostrando que muito de seus acertos estavam até mesmo à frente de sua época, principalmente quando em 2005, 15 anos depois, Robert Rodriguez utilizou técnicas e conceitos semelhantes em sua elogiada versão de Sin City, alardeada como uma das mais fiéis e criativas adaptações de quadrinhos da primeira década do século XXI.

Assistir Dick Tracy nos dias de hoje funciona como um interessante exercício. Muito de seu visual permanece com grande apelo, mesmo para o público mais recente, acostumado a efeitos digitais. E a caracterização dos vilões, que mantinha os traços deformados de suas contrapartes das tirinhas originais de Chester Gould, ainda funciona, desde que se abrace as intenções da produção, como a criação de um universo particular altamente referencial aos quadrinhos, seja em cor ou estilização e a visão quase maniqueísta de tornar os antagonistas figuras grotescas enquanto os agentes da lei são retratados como homens limpos e de roupas vibrantes, quase imunes ao contraste de luz e sombras criado pela fotografia de Vittorio Storaro. A narrativa, por outro lado, pode parecer ultrapassada, e é, propositalmente, já que traz uma inocência clássica nos diálogos e trejeitos dos protagonistas, típicos das aventuras cinematográficas dos anos 40, em contraponto com a violência estilizada dos anos 80, presente nas ações do justiceiro/anti-herói sem face, The Blank.

Os esforços de Beatty e dos roteiristas Jim Cash e Jack Epps Jr trouxeram um longa único para a época, mas que talvez não tivesse um público totalmente preparado para a extravagante abordagem que precisou de recursos técnicos caros para se concretizar. Analisando Dick Tracy hoje, é impossível não notar os cuidados com cada detalhe, a atenção despedida aos figurinos, cenários e maquiagem e a qualidade de um roteiro que não se contentou em agradar apenas às crianças (o que fez a Disney deixar a distribuição a cargo da Touchstone, sua divisão de filmes mais maduros).

“Chamando Dick Tracy! Chamando Dick Tracy!” Das tiras de jornal para as de celulóide

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Warren Beatty não foi o primeiro a levar o detetive de amarelo para o live action. Ainda na década de 30, o personagem ganhou as telonas na forma de seriados de matinê, aqueles que sempre terminavam com um cliffhanger para a fazer a garotada voltar na semana seguinte. O primeiro ator a dar vida à Dick foi Ralph Byrd, que mesmo trazendo uma autenticidade para o papel, enfrentava missões que pouco lembravam as aventuras policiais dos quadrinhos e mais tinham em comum com o sci-fi B da época. Na década de 40 foi Morgan Conway quem vestiu a indumentária característica do herói em vários filmes que traziam o espírito das tiras de Gould ao mesmo tempo em que se encaixavam na temática noir dos longas policiais da época. Mesmo sem grandes recursos, esses filmes, produzidos entre 1945 e 1947, trouxeram também alguns vilões marcantes por suas características físicas, principalmente em Dick Tracy Meets Gruesome, com o antagonista do título sendo vivido por ninguém menos que Boris Karloff. Em 1967, William Dozer, que um ano antes criara, com sucesso, a série televisiva do Batman, decidiu tentar o mesmo com Tracy. Um piloto chegou a ser rodado, mas não foi para frente. Parece que os destinos desses dois personagens estão mesmo relacionados, já que foi justamente a adaptação do Homem-Morcego lançada em 1989 que catapultou o lançamento do filme de 1990. Mesmo que a Disney tenha iniciado a pré-produção de Dick Tracy em 1988, é impossível não perceber como o Batman de Tim Burton influenciou a película de Beatty: do uso massivo da técnica de matte panting para conceber o visual da Cidade até a contratação de Danny Elfman para compor a trilha incidental.

“Se eu fosse te prender, você já estaria preso” – Warren Beatty, Dick Tracy e diretor

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Warren Beatty transformou a jornada de levar Dick Tracy para o cinema em uma espécie de missão pessoal, que só poderia ser cumprida caso encontrasse a equipe perfeita e a “sintonizasse” na freqüência certa. Os nomes envolvidos na produção, somados, haviam sido indicados 63 vezes ao Oscar. O design de produção de Richard Sylbert precisava estar de acordo com as exigências da direção de fotografia de Storaro, assim como as do departamento de figurino, gerenciado por Milena Canonero, que tinha de vestir o elenco de acordo com as características mais marcantes de seus respectivos personagens. E que elenco: além do próprio Beatty no papel do detetive de queixo quadrado, Al Pacino como o vilão Big Boy Caprice e Madonna dando vida a Breathless Mahoney, o longa ainda teve participações de Dustin Hoffman, William Forsythe, Paul Sorvino, James Caan e Mandy Patinkin. A trilha de Elfman trazia atmosfera, enquanto as canções de Stephen Sondheim, interpretadas por Madonna, traziam um clima musical para combinar com as cores vibrantes em tela: vermelho, azul, amarelo, verde, laranja e lilás, as paletas exatas utilizadas nas versões coloridas das tiras de jornal. Cores primárias, assim como as emoções.

A gangue reunida - elenco estrelar escondido pela maquiagem

A gangue reunida - elenco estrelar escondido pela maquiagem

A fama de Beatty como cineasta não era das melhores no que dizia respeito aos bastidores. Como a Disney estava investindo alto na produção, decidiu garantir o controle da obra, estipulando no contrato que qualquer alteração no orçamento seria deduzida do salário do diretor, que também atuava como produtor e, claro, protagonista. Com um valor inicial aprovado de U$ 25 mi, o orçamento quase duplicou por conta das exigências de Beatty. O estúdio estava certo em estipular a cláusula, já que sabia que teria de gastar bastante com o marketing (U$ 54 mi).

Acumulando funções, o astro queria unir sua habilidade de criar uma obra com apelo amplo, de interpretar um ícone da cultura pop norte-americana e ainda levar um bom dinheiro por conseqüência.

O lucro não veio da forma desejada, mas a visão de Beatty e a união dos fatores já descritos acima ajudaram a fazer uma adaptação sofisticada, longe dos padrões da época e até mesmo do que os filmes do gênero se tornaram ao longo dos anos 90, só conseguindo recuperar a boa fama com a chegada do século 21, quando puderam novamente ser levados a sério.

“Eu tenho uma visão. Um chefão precisa ter uma visão!” A cidade impossível e o visual

Antes e depois dos efeitos visuais

Antes e depois dos efeitos visuais

O trabalho do departamento de efeitos visuais não era nada fácil em Dick Tracy. Sob o comando de Michael Loyd e Harrison Ellenshaw (de Star Wars – O Império Contra-Ataca), os profissionais tinham a tarefa de levar o público para uma viagem a um mundo que não existia e tornar real e palpável algo totalmente irreal, na forma da Cidade. A área de atuação do detetive foi criada toda em estúdio, misturando maquetes, fundos pintados e prédios cenográficos.

Diferente do caos urbano de Batman, Tracy trazia o colorido dos quadrinhos e uma paisagem cartunesca, com uma aura mítica, evocada pelo visual típico de uma metrópole parada no tempo.

Tendo como personagem central um herói de outrora cujo traje era de um amarelo vivo, o cinematógrafo Vittorio Storaro sabia que tinha nas mãos uma chance única de “desenhar com luzes e cores”. A ideia foi de conectar cada um dos personagens principais com uma cor diferente. O amarelo de Tracy representava o brilho do sol, que iluminava as ruas com esperança. Já Big Boy Caprice vinha sempre em tons azuis, que surgia como contraponto: a lua que brilha (ou não) nas ruas do submundo. O Garoto usava tons vermelhos, que misturados à cor predominante do protagonista, resultava no alaranjado usado por Tess Trueheart, o par romântico do herói (evocando o tema da família em formação, constantemente trabalhado no roteiro). O Promotor Público Fletcher usava tons de verde, pois era um personagem que oscilava entre o bem e o mal (amarelo e azul). Já Breathless era carregada de violeta, como o sangue banhado pela lua.

Amarelo, vermelho e laranja forte: as cores da família

Amarelo, vermelho e laranja forte: as cores da família

Storaro foi além e, com o uso minucioso da iluminação, pintava as ruas com cores que representassem a emoção e o sentimento de cada cena. Em um tiroteio, os policiais estão inundados por um vermelho sangue, indicando perigo. O caminho por onde o carro de Breathless trafega é azulado, manchado por um rosa vindo das janelas dos prédios, refletidas em poças d’água. Quando Tracy é preso em determinado momento, sua cela é transposta por luzes e sombras formadas pelas grades. Em termos visuais, nada é por acaso no filme e tudo ajuda a contar a história, a definir os personagens e a indicar ao espectador as emoções envolvidas no texto.

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Tracy levando a luz pra escuridão da Cidade

“Você não acha que seríamos mais felizes se...”

Assim como o desajeitado pedido de casamento de Tracy para Tess, a união do público com o filme veio tardia. Apenas com o passar do tempo Tracy pôde ser reconhecido com o carinho merecido. Mas não foi por falta de tentativas do marketing, já que a Disney investiu bastante para criar um sucesso de bilheteria: de produtos relacionados à prequels em quadrinhos desenhadas com o estilo inconfundível de Kyle Baker. Três discos com a trilha sonora foram lançados, obviamente o mais vendido foi o que trouxe as canções interpretadas por Madonna, incluindo Vogue, sucesso instantâneo da cantora.

Se não fez bonito com o público na época, pelo menos recebeu algum reconhecimento da Academia. Indicado a sete Oscars, levou três: Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhor Canção Original.

Até recentemente Warren Beatty ainda declarava instigado a criar uma continuação e até entrou em uma briga judicial (que venceu!) para garantir os direitos. Talvez intimidado pela quantidade cada vez mais crescente de “concorrentes” adaptações de HQs, o astro ainda não tirou a ideia do papel. Será que hoje existe espaço para Dick Tracy nos cinemas? Talvez um dia a resposta para essa pergunta apareça mas, enquanto isso, o jeito é comemorar o aniversário de uma obra realmente visionária, e que, por bem ou por mal, pagou o preço de sua alta ambição.

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Capa de uma prequel lançada em quadrinhos na época do longa

Mais um antes e depois dos efeitos visuais

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Al Pacino e o processo de transformação em Caprice

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Com Madonna, a femme fatale clássica

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Alexandre Luiz

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1 comment

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    Danilo Andrade 15 junho, 2015 at 14:30 Responder

    lembro muito da globo passar o filme no supercine em 1994 lá no finalzinho do ano (tem até uns intervalos comerciais da sessão quando passava o filme no you tube onde em 2 intervalos tem cenas dubladas do filme no final dos vídeos).

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