Cinefantasy 13 - Abertura | Dreamover

O tradicional festival de cinema fantástico Cinefantasy chega a sua décima terceira edição, com programação ainda a ser anunciada e sessões presenciais para o início do mês  de Junho. Dentro da seleção de longas e curtas-metragens há material do Brasil, América Latina e de  todo o mundo, e o filme de abertura é este Dreamover, longa russo que mistura a melancolia tangente e o mundo dos idílico dos sonhos.

Dreamover é escrito e dirigido por Roman Olkhovka. Sua história se inicia em uma cena forte, com Dmitriy, personagem de Ilya Chepyrev mergulhando fundo, se afogando em meio a água que parece ser limpa como a de uma piscina, mais profunda como a de um rio ou mar, já estabelecendo que a fronteira entre o real e o irreal serão pervertidas ao longo dessa trama.

Isso na verdade é um sonho mau, um pesadelo e essa condição não demora a ser demonstrada desta forma. O personagem é perturbado pela condição recorrente de terror noturno, e decide ir até uma empresa que estuda o sono, aderindo a um tratamento clínico de manipulação dos sonhos, através de um aparelho semelhante a um discman antigo, que o mesmo conecta com fones de ouvidos na hora de dormir.

Dmitriy é um sujeito melancólico, em poucos momentos do filme se percebe um estado emocional depressivo, sem perspectivas, uma pessoa frustrada. Não demora a ocorrer uma afeição pela condição desacordada, o que deveria ser apenas uma mera distração se torna uma obsessão crescente pelo nostálgico, já que seus sonhos miram lembranças suas do passado.

Dreamover (2021) Film Review | Movie-Blogger.com

Ele reencontra amigos que não via há muito tempo, e os contacta até no mundo real, estabelecendo portanto uma conexão entre esses dois universos distintos. Mas como uma droga, ele se vicia, e aos poucos perde a noção dentro da especulação do sonho.

A negação do tangível, do que se pode tocar e considerar realidade é um dos maiores cuidados de Olkhovka em montar sua história. Mesmo sem dar grandes detalhes da vida "presente" de seu personagem central é fácil perceber que ele é um sujeito amargurado, uma triste e solitária figura que não sabe o que fazer de seu tempo livre, que achando uma possibilidade de fuga, apela para ela sempre que pode.

Durante seus sonhos, Dimitryi é Demian, um rapaz jovem, vivido pelo próprio Olkhovka, e é bem diferente da versão mais velha. Tem sonhos, anseios de tornar-se um músico, e depois de algum tempo, é introduzida a personagem feminina Masha, de Angelina Savchenko, uma moça com interesse por fotografia que sonha em ser modelo, mesmo que tenha timidez demais para assumir essa condição.

Dreamover (2021) - IMDb

Dreamover lida também com o conceito da negação, e mostra como um comportamento obsessivo pode intensificar a questão. Ao se ver sendo desagradado, Dmitriy entra em contato com o suporte da clínica de distúrbios nos sonhos, para viver dias diferentes dos que vive, mas como o material é experimental, não há como fazer grandes mudanças nos sonhos, tampouco escolher as memórias que se reviverá.

Daí o longa se torna um drama com pitadas de comédia amorosa, mostrando o cortejo entre Demian e Masha que lembra os filmes românticos franceses recentes.

O desenrolar do roteiro é curioso, pois avança vagarosa e gradativamente. Há muito cuidado em estabelecer que os dois não estão juntos por conta de desencontros comuns a vida urbana moderna.

A ideia de estabelecer uma ficção científica de contornos agridoces flerta com o cinema de horror, uma vez que lida com as tentativas de manipulação do destino sonhado, e ao menos nas primeiras incursões, o protagonista não obtém qualquer êxito.

Esse quadro muda na metade final, já que a máquina tem um nível de processamento limitado, girando sempre em torno de um número X de memórias. Desse modo, o vendedor entra em contato com o paciente, avisando que esses momentos se repetirão.

A condição de simulacro aparentemente é forte demais para a mente de quem a usa, aos poucos convence de que os fatos modificados dentro do sono alteram o mundo real. Nesse engodo, até mesmo o espectador pode ser ludibriado. Com a repetição de ciclos, Demian passa a ter mais consciência com as incursões, e o choque de personagens, a mistura entre ele e Dmitriy parece não fazer bem para o jovem, pois o insucesso do velho invade a rotina do rapaz.

Dreamover mostra um fim cíclico, retornando ao início pouco antes dos créditos finais. Olkhovka consegue pincelar bem questões tristes como a vontade de não existir e seu avatar mais sério, o suicídio, e faz isso sempre deixando turva e dúbia a percepção do que é real e do que é sonhado, e o faz de maneira triste, abraçando melancolicamente a nostalgia e a entrega ao passado que não se pode alcançar.

Ficha técnica:

DREAMOVER

Ficção | Drama, Ficção Científica | 99’ | cor | 2021 | 12 anos | Rússia
Direção: Roman Olkhovka
Roteiro: Roman Olkhovka
Elenco: Ilya Chepyrev, Angelina Savchenko, Roman Olkhovka, Maksim Govorunets e Sergey Kuznetsov

Quando a vida se torna insuportavelmente infeliz, um velho solitário participa de um procedimento médico experimental, revivendo uma história de amor esquecida há muito tempo.

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