O Exorcista do Papa: A tentativa da Sony em instaurar o seu próprio universo compartilhado

O Exorcista do Papa: A tentativa da Sony em instaurar o seu próprio universo compartilhadoO Exorcista do Papa, filme recente de Julius Avery mira acertar não só a possibilidade de abrir uma franquia de vários filmes como pode ser a ponta de lança de um novo universo compartilhado entre cinebiografias de horror, ao estilo da iniciativa dos filmes de horror de James Wan, sobretudo na saga de Invocação do Mal.

O longa mistura elementos de horror com ação, tornando seu personagem central Gabriele Amorth em uma figura forte, mal-encarada e badass. A começa pela escolha do protagonista, Russell Crowe, famoso por papéis de ação desde os anos 1990, quando fez Gladiador.

O simpático e prolixo padre, que escreveu alguns livros sucesso de vendas é apresentado aqui como um sujeito heroico, de postura altiva, tão imponente que só faltou ele carregar uma metralhadora para parecer um personagem da Image Comics nos gibis da década de noventa.

O material de divulgação do filme assustou um pouco os fãs de filme de exorcismo, pois colocava Amorth em posições que lembravam demais a posição do Padre Lankester Merrin que Max Von Sidow fez no clássico de William Friedkin.

No começo da trama até se ensaia uma postura do religioso na mesma posição que o pôster famoso, mas não se cumpre essa promessa, fazendo a apresentação ser ligeiramente mais séria do que a possibilidade de ser uma paródia já na introdução.

Será bem difícil falar sobre o filme sem destrinchar a trama. Portanto, falaremos abertamente com spoilers a partir da imagem abaixo.

O Exorcista do Papa: A tentativa da Sony em instaurar o seu próprio universo compartilhado

O longa flerta com a condição de ter uma abordagem divertida, de se levar pouco a sério. O primeiríssimo exorcismo mostrado se dá com o protagonista falando em italiano com um sotaque carregado, com um desempenho tão bom de Crowe que quase engana.

Mas não demora muito e a manifestação como a ocorrer com palavras em inglês. Aparentemente o diabo apela para a língua universal do planeta, ou isso ou o roteiro faz o que melhor convém.

Poderia ser pior, uma vez que o desempenho do ator facilmente cairia em um aspecto mais caricatural, como foi com a Valentina Gucci que Lady Gaga interpretou em Casa Gucci, mas não. Os defeitos de seu personagem são outros, bem piores que a voz e a diferença idiomática.

O padre é um baita estrategista, manda o primeiro demônio apresentado largar o homem para possuir um porco, confiando que o espírito será burro e ingênuo para responder a seu desafio e armadilha óbvia. Quando finalmente isso ocorre, o dono do suíno o mata com um tiro calibre 12 na cabeça do animal.

É tão absurda a sequência que não rir com ela se torna um desafio, mas há de se valorizar o trabalho da direção, que consegue trazer tipos de abordagens diferentes sem estranhamento. Ponto para Avery.

O diretor aliás tem uma certa experiência com misturas de terror e outros gêneros. É dele o bom Operação Overlord (2018) que mistura horror, invasão alienígena e ação. Seu último trabalho foi (criticado) filme de Sylvester Stallone via Amazon, O Samaritano, que mistura elementos de filmes de heróis com drama.

O roteiro é escrito por Michael Petroni (O Ritual) e Evan Spiliotopoulos (Rogai Por Nós) com argumento de R. Dean McCreary, Chester Hastings e Jeff Katz. Os textos adaptam An Exorcist Tells His Story and An Exorcist: More Stories escrito pelo padre Gabriele Amorth.

O Exorcista do Papa: A tentativa da Sony em instaurar o seu próprio universo compartilhado

A história vai até 1987 ainda no início e localiza a trama na Espanha, onde uma família se muda para uma casa em reforma. O grupo familiar são os Vasquez, com a mãe Amy (Laurel Marsden), a filha mais velha Julia (Alex Essoe) e o caçula Henry (Peter DeSouza-Feighoney). A apresentação deles divide tela com os preparativos de um julgamento envolvendo o Padre Amorth.

Nesse momento tenta-se criar uma rivalidade entre ele e outros sacerdotes, basicamente por que esses padres são menos midiáticos e pouco espalhafatosos.

A tentativa de apelar para a dicotomia é fraca, exibida de uma maneira tola e repleta de bobagens que é difícil levar minimamente a sério.

Quando desdenha de si mesmo o filme acerta muito. Sua proposta é outra quando usa a galhofa como norte, especialmente quando nessa pequena corte, os religiosos exigem que a discussão seja em inglês, convenientemente graças a produção do filme ter origem em países cuja língua mater é essa.

Gabriele é esperto. Todos os casos de expulsão de demônios que lhe são atribuídos ele afirma que era uma questão de problemas de estados alterados da mente.

Fica claro que ele faz isso para montar seus ardis e a desculpa faz sentido, afinal, não é qualquer pessoa que acreditaria tão piamente no mundo espiritual, mesmo entre crentes no cristianismo católico. Ele ainda fecha esse breve momento falando que se houver uma crítica a ele, deve-se procurar o "seu chefe", terceirizando a culpa de seus atos para a hierarquia mais alta, no caso, sua santidade, o papa.

Na nova casa da família começam estranhas manifestações. O menino Henry vai ficando cada vez mais a mercê do diabo. Ele faz baterias de exames, copia na cara dura o caso de Regan no filme de Friedkin.

O menino possuído é exagerado em seu comportamento de possesso. Ele faz piada com mamar, tem a palavra hate talhada no abdome e altera a voz de maneira semelhante a caricaturas.

Chega a ser cômico involuntariamente, um pastiche bizarro. Também se opta por utilizar uma voz modificada, e tem um efeito amarelado bizarro no olho, como se um réptil estivesse dentro da vítima.

É tudo muito exagerado e telegrafado, claramente essa entidade tem uma rivalidade com Amorth. Ela parece até ter tido contato com ele, tal qual Pazuzu e Merrin em O Exorcista, mas em momento nenhum isso é provado em tela. Ainda assim, ele só aceita defrontar com o homem de confiança do papa.

Falando em papa, Franco Nero está bem demais, desempenha uma versão da figura religiosa bem diferente do comum. Sua postura, visual e figurino combinam bem com o papel de figura central de um catolicismo que tenciona parecer viril e potente, no entanto, ele é pouco utilizado.

Gabriele é estiloso, vai para a Espanha em uma mobilete da Ferrari, ou seja, voto de pobreza é claramente engolido pelo merchandising do filme. Mais vale a versão de que os padres são figuras fortes e titânicos.

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O padre é bastante humano, apesar de buscar a justificação cristã. Ele tem vícios, gosta de tomar uísque e tenta fingir que não bebe muito. Também parece ter um vício em cafeína.

O texto segue repleto de clichês, até introduz um padre novato, Thomas Esquibel (Daniel Zovatto). Um bom acerto é a tentativa de estabelecer uma mitologia clara e sem firulas. É dado que quanto mais alto um demônio está, mais acesso a poder e conhecimento ele tem.

Também é dado que uma vez confessados os pecados, um simples demônio da ralé não sabe das fragilidades dos homens de fé. Portanto, os exorcistas estavam em uma posição de grande vantagem.

Crowe é puro carisma. A forma como ele afirma que demônios ficam mais fortes a noite chega a ser fofa, de tanta ternura que há em seu discurso. Ele pede que façam café, pois ele precisará ficar acordado, enquanto todos ao seu redor estão desesperados, de maneira justa aliás.

Avery utiliza bem o cenário interno da casa. Há muitos cômodos, isso facilita os sustos diabólicos.

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O Demônio tem seus ardis, gosta de imitar pessoas do passado dos padres, fato que demonstra que ou Gabriele se enganou ao explicar a Thomas as limitações do Inimigo, ou o terreno favorece seu opositor.

Há algumas cenas de genuíno e bom horror, inclusive com momentos sérios. Próximo do minuto 55, Julia é encurralada no closet, enquanto sua mãe é capturada por uma mão masculina em sua cama. Infelizmente isso ocorre justamente durante uma manifestação de Henry possesso.

O uso de maquiagem digital fica aquém, é fácil perceber os retoques em efeitos. A caracterização do garoto mira o choque e esbarra em uma tolice tremenda. Não assusta senão pela condição malfeita do CGI.

Há muitos clichês. Fica claro que Amorth descobrirá algo escondido nesse cenário, mas expor um poço cheio de caveira parece um baita exagero. Faltou só um letreiro luminoso, escrito "o mal está aqui", apontando para o fundo do poço.

Inconveniências à parte, a dupla de padres desce até o andar baixo, encontram chaves escondidas em cadáveres e acham boa ideia deixar a família com uma criança de manifestando como endomoniada justamente pela noite.

Há um sem número de baboseiras, com discussões sobre a existência de um segredo escondido ali desde a época da Inquisição Espanhola. Tudo é construído de maneira tão jogada que não faz diferença. Sendo a entidade conhecida pelo Vaticano ou não a fama da igreja jamais foi boa, segundo o próprio filme.

O pecado maior é quando se tenta deixar séria a trama. Os flashbacks do passado de guerra com Amorth na guerrilha contra os fascistas é uma alternativa fraca. Se focasse mais em falar dos problemas de exorcismos anteriores, como é com o caso de Rosaria (Bianca Bardoe) uma moça que ele tratou e que teve um destino bastante trágico, certamente o personagem seria mais humanizado.

Próximo do fim o filme abre mão de qualquer convenção lógica ligada ao catolicismo. Gabriele se deixa possuir e até ensaia u suicídio. Parece competir para completar uma cartela de bingo de pecados.

Quase rola um deus ex machina, no exorcismo final, mas é menos vergonhosa que a interferência que retira o padre rival de Amorth do seu caso. Esse artifício não tem lógica, é horrendamente conveniente e termina com a substituição do mesmo pelo padre que foi advogado do protagonista anteriormente.

O Padre Amorth certamente é uma figura com potencial para se transformar em um bom personagem do cinema de horror, mas daí a ser um paralelo legal com o casal Warren, não é possível inferir nesse primeiro episódio de saga.

O Exorcista do Papa acerta nas piadas de Crowe e peca ao de levar a sério demais, investindo em sustos falsos baratos e em ações toscas que imitam filmes de sucesso recente. Caso fosse uma produção mais despojada, poderia ser uma belíssima paródia de filmes de horror sérios, mas isso infelizmente não ocorre. Sobra uma produção sem muita identidade, pautada demais no carisma do elenco.

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