Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo: O Multiverso da Vida Real

PARTE 1: TUDO

Em dois ou três momentos de ‘Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo’, vemos a personagem da carismática atriz Michelle Yeoh, Evelyn Wang, trajando um casaco com um dizer nas costas: PUNK. O casaco com o dizer aparece em um momento crucial do clímax dramático da obra, realçando visualmente uma chave de leitura para que qualquer espectador possar ter melhores condições para adjetivar ‘Tudo em Todo o Lugar...’ com(o) uma só palavra: punk!

Na arte, até podem haver interpretações não idealizadas pelo artista idealizador da obra. Acham-se sentidos após meses, anos, décadas e séculos após o lançamento de uma peça, livro, pintura, filme. É natural que isso aconteça. No entanto, e apesar do que estará logo à frente ser justamente uma interpretação, me proponho a tecer comentários iniciais justamente sobre a mensagem do casaco, que parece querer nos apontar algo sobre a própria radical, embora não necessariamente original, estrutura do roteiro do mais novo filme dos The Daniels, o duo de diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan.

Quando penso na estrutura visual que a montagem e edição do filme se propõe a ter, toda essa coisa de multiverso, linhas do tempo alternativas e que se sobrepõem e se influenciam, retroalimentando a si mesmas, soa orgânico que, em uma extensa parte das suas duas horas e vinte minutos, o filme pareça emular uma viagem progressiva à base de LSD. É como se Evelyn e sua trupe embarcassem no ônibus da ‘Magical Mystery Tour’, aquele filme dos Beatles repleto de improvisos lá de 1967, só que ouvindo todo o ‘Aqualung’, o clássico disco da banda Jethro Tull.

No filme, Evelyn, uma idosa chinesa que reside com seu marido em sua casa/lavanderia, e que eventualmente recebe Joy – a sua filha não tão alegre quanto a tradução de seu nome –, se vê as voltas com, além dos problemas rotineiros no planejamento financeiro de um lar, as cobranças da clientela da lavanderia, a espatifada relação com a própria filha e a decisão de um por um fim oficial à relação com Waymond Wang, seu aparentemente bobo e meigo marido. Uma curiosidade é que Ke Huy Quan, que dá vida ao personagem de Waymond, antes de ‘Tudo em Todo o Lugar...”, havia feito um filme menor em 2021 e, desde 2022, estava afastado do trabalho no cinema enquanto ator, já que acabou tendo outros trabalhos por trás das telas, seja como diretor assistente, seja como coordenador de dublês. Quem não o reconheceu diretamente, talvez melhor lembre dele por dois clássicos dos anos 80: ele interpretou o inventor mirim Data, em Os Goonies, e Short Hound, em Indiana Jones e o Tempo da Perdição.

PARTE 2: EM TODO O LUGAR

Em tempos de meta e multiverso, e tendo sido há pouco lançado um filme ousou inserir Multiverso em seu título (a continuação de Dr. Estranho), foi ‘Tudo em Todo o Lugar...’ que realmente nos fez atravessar multiversos tão distintos um do outro, e com permanências mais fixas em cada um deles (diferente do pout-porri em velocidade 5x da Marvel). A maneira como o filme justifica as transições de Evelyn de um universo para outro, são justificadas e justificáveis, visto que nem sempre o universo visitado fornece a habilidade que ela precisa. Ou seja, nem tudo é acerto na transição da personagem, valorizando mais e melhor cada visita que é feita, sabendo que nem tudo será fisicamente aproveitado por ela enquanto uma habilidade físico-motora, porém, poderá haver, ali, uma descoberta, um reconhecimento ou um aprofundamento de uma habilidade emocional que Evelyn deixou de ter ou pouco explorou em seu universo-padrão.

Michelly Yeoh, que ainda em 2022 completará 60 anos, é uma consagrada atriz de muitos sucessos do cinema de ação asiáticos (como um dos seus mais famosos, o belo ‘O Tigre e o Dragão’), mas também dar o ar da graça em polpudos blockbusters hollywoodianos: ‘007 – O Amanhã Nunca Morre’, ‘Guardiões da Galáxia Vol. 2’, ‘Shang-Chi’ e os próximos filmes da megafranquia ‘Avatar’, do diretor e produtor James Cameron (Titanic). Aqui, ela brilha e carrega o espectador que sabe tanto quanto ela sobre o que vem a seguir. Por ser um character-driven movie, ou seja, ao ser um filme guiado pela própria personagem, suas descobertas e necessidades, fica ainda mais fácil de embarcamos junto com Evelyn nesse multiverso de uma mãe, filha, esposa e microempresária.

Como somos guiados por Evelyn, é natural que o filme vá, ainda que lentamente, exibindo sua fisicalidade. Tudo começa de forma cadenciada, ainda que com um ritmo distante da inércia, para que, naquele espaço diminuto de uma casa/lavanderia, já nos acostumemos com aquela específica cadência narrativa que, do meio para o fim do longa-metragem, nossos olhos e ouvidos já foram suficientemente treinados para aglutinar os saltos visuais, gráficos, de figurinos, fotografia e direção de arte que vão acontecendo.

E já que falamos de alguns dos aspectos técnicos da linguagem cinematográfica, não me surpreenderá se, em 2023, o filme não venha a ser indicado em algumas tantas categorias do Oscar. De cara, posso afirmar que Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original me parecem ser indicações bem encaminhadas. Ainda assim, Melhor Edição, Melhor Montagem, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia podem vir a se somar às indicações sugeridas anteriormente.

Aproveite também pra conferir o vídeo sobre o filme no nosso canal do YouTube

PARTE 3: AO MESMO TEMPO

Na viagem lisérgica, sci-fi, familiar e cômica do filme, há e sobra espaço até mesmo para outras referências bastante diretas e outras mais indiretas. A mais óbvia das homenagens é à brilhante animação ‘Ratatouille’, da Pixar. Sem spoilers, basta dizer que o clímax consegue inserir uma referência quase que literal ao potente clímax do filme-evento ‘Vingadores: Ultimato’. Já para os cinéfilos ainda mais inteirados com a cinematografia mundial, há lindas passagens que refazem certos diálogos e cenas quase completas da obra-prima ‘Amor à Flor da Pele’, do diretor Wong Kar Wai, que em ‘Tudo em Todo o Lugar...’ acaba tendo ao menos mais um dos seus outros filmes sendo referenciados: ‘2046 – Os Segredos do Amor’.

Como é um filme de misturas, colagens, inserções e homenagens, para que ele possa atingir seu potencial narrativo em maior profundidade, o filme se propõe a flertar com alguns gêneros cinematográficos, conseguindo ir do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelo cinema de artes marciais wire-fu com facilidade invejável. Em determinado momento, se estamos diante de uma passagem cômica que faz uso irreverente do escopo sci-fi, no instante seguinte, sem sairmos dessa mesma cena, evoca-se um drama familiar de reparação e conclusão com profundida emocional capaz de verter lágrimas em qualquer espectador que não esteja preparado para tal. Segundos depois, a ação cabeada wire-fu é iniciada bem em nossa frente. De forma eficaz, o filme consegue, assim, brilhar em qualquer gênero que ele se disponha a emular (e quase nunca é apenas um ... ‘Ao Mesmo Tempo’, como somos informados desde o título).

A partir de um roteiro original, com um elenco multifacetado que ainda inclui Jamie Lee Curtis – a dama e nome mais importante dos filmes das scream queens –, e com um orçamento relativamente baixo (25 milhões de dólares) para uma produção que esbanja técnica e faz parecer que estamos diante de um filme quatro vezes mais caro, The Daniels conseguem cravar, em meio a um processo de retorno presencial aos cinemas, um enorme (mais um entre vários) sucesso para uma das produtoras mais queridas da atualidade, a A24 (produtora de enormes sucesso como ‘Hereditário’, ‘Joias Brutas’, ‘Moonlight’, ‘Ex Machina’ e muitos outros), que tem emplacado muito facilmente diversos filmes entre a preferência dos críticos, dos espectadores e também arrecado bastante dinheiro nas bilheterias. ‘Tudo em Todo o Lugar...’, no exato momento, já quase quadruplicou o seu orçamento, estando atualmente com quase 90 milhões de dólares arrecadados desde a sua estreia nos cinemas.

Com tamanho sucesso, é certo que os Daniels logo serão convidados ao comando de muitas megaproduções hollywoodianas que certamente já depositaram os roteiros nas mesas dos dois diretores. Que Hollywood possa continuar investindo em produções de menor custo, mais originais e que sejam e ousem ser mais... punks!

Jônatas Andrade

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