American Crime e as faces do ódio

AMERICANCRIMEs01bO último episódio da excelente primeira temporada de American Crime começa indagando "qual a natureza do perdão?". É interessante que o roteiro de John Ridley (também responsável por 12 Anos de Escravidão) exponha todos os tipos de perdão ao longo de 10 episódios, paralelamente à amostra de vários tipos de ódio, para contar uma trama que interliga núcleos que vão da família de classe média branca, ao imigrante ilegal, passando pelo negro, que além de enfrentar preconceito pela cor da pele, também precisa levar em conta a discriminação religiosa. O "crime americano" em questão vai muito além do assassinato que inicia a história e resulta em um estudo complexo e relevante da sociedade atual, seja nos EUA ou abaixo da linha do Equador.

Ridley, além de escrever, também dirige os primeiros episódios e dita o tom do restante da temporada (a série é uma antologia, então cada ano contará uma história diferente com começo e fim), com uma narrativa intimista que chama atenção pelos longos takes e pela constante aproximação da câmera com os rostos dos atores, que exibem o mínimo de maquiagem possível, revelando imperfeições externas ao mesmo tempo que escancaram as internas, aquelas de cunho social e comportamental. A exploração ao máximo das expressões do elenco leva a momentos raros na TV em que apenas um personagem é focado em certas cenas de diálogos, jamais revelando mais do que detalhes das costas e dos ombros dos coadjuvantes. Em determinado episódio, o espectador presencia uma batida policial somente pelas expressões de quem é abordado, o que contribui para mostrar os servidores da lei como uma força autoritária e impessoal, enquanto reforça o trauma de uma abordagem desnecessariamente violenta.

Paralelamente à busca do casal Skokie (Felicity Huffman e Timothy Hutton) por justiça pela morte do filho, a série também aborda as consequências do assassinato do jovem ex-soldado branco na vida de uma família latina (liderada por Benito Martinez), de um jovem negro viciado em drogas (Elvis Nolasco) e sua namorada loira (Caitlin Gerard) e de um criminoso mexicano (Richard Cabral). Todos sendo julgados previamente pela opinião pública, e até pelo sistema judiciário, que deveria seguir a regra de "inocente até que se prove o contrário". Nessa mistura de cores, religiões e classes sociais, surgem comentários e questões incômodas, levando o espectador a questionar as próprias atitudes e crenças quando percebe que nada é preto e branco no mundo real e existem muito mais tons de cinza do que se imagina.

Graças à forma humana como aborda os problemas sociais, Ridley cria personagens incrivelmente complexos, cuja identificação com o público é imediata. Por mais racista que a Barb vivida por Huffman possa soar, é impossível não entender seus dilemas, principalmente quando seu preconceito não é autoconsciente, como o de muitos que dizem "não tenho nada contra (insira aqui uma minoria), tenho até amigos que são...". Por piores que sejam os antecedentes de Carter Nix, o espectador não deve estranhar ao se pegar torcendo pelo rapaz em certo ponto da trama, e o mesmo acontece com todos aqueles que surgem como bandidos imediatamente aos olhos do público.

Com tantos temas sendo discutidos, o programa jamais soa inchado, dando o tempo necessário para cada subtrama mostrar sua função dentro de um universo muito maior. Os diferentes tipos de preconceito, a facilidade de se adquirir uma arma para defesa pessoal, os perigos de esconder discursos de ódio atrás do preceito da liberdade de expressão, a função distorcida das casas de correção para jovens, tudo isso é abordado de modo a questionar a audiência sem oferecer as respostas mais fáceis, deixando, inclusive, questões em aberto para que cada um possa interpretar ou responder de acordo com suas próprias convicções (e aí, quem sabe, perceber a fragilidade das mesmas).

A série ainda traz momentos de beleza distinta ao mostrar Nix e a namorada Aubry criando seu romance de anúncio de revista, na busca por um sentimento só possível em mundos de sonhos, talvez por isso o vício no escape oferecido pelas drogas.

ELVIS NOLASCO, CAITLIN GERARD

Dispondo de um drama envolvente, um texto relevante, que aborda até as recentes insurgências contra o abuso policial nos EUA, e um elenco afiadíssimo (Huffman entrega sua Emmy tape já no piloto, com um plano sequência, e Regina King marca fortemente sua presença, principalmente nos episódios finais), American Crime é a melhor série de canal premium (do nível HBO e AMC) já exibida por uma emissora de rede (ABC, no caso) nos últimos anos e serve para colocar John Ridley como um nome a ser observado futuramente. O autor, parece, ainda tem muito a discutir e questionar, uma vez que uma segunda temporada já está aprovada.

 American Crime estreia no Brasil nesta terça, às 22h no AXN.

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Alexandre Luiz

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