Review: American Horror Story: Coven – 3x05 Burn, Witch. Burn!

A mãe de todas as lágrimas. É meus caros, chegamos ao fim do primeiro arco de Coven, que desde a semana passada, vem conseguindo aparar as arestas e os equívocos mais evidentes deste terceiro ano. O maior erro de American Horror Story nos primeiros episódios da saga mágica foi o de abandonar o construtivismo das temporadas anteriores, em prol de uma trama mais acessível e por isto mesmo expositiva demais. Nossa sorte, é que com a mitologia a todo vapor, não precisamos mais dos diálogos mal posicionados, que chegavam a incomodar por conta do seu teor quase que infantil, para explicar os poderes, limitações e anseios das descendentes de Salem. Como era de se esperar, o episódio de halloween foi o responsável pelo abandono das amarras que ainda limitavam demais a trama, portanto, a continuação do mesmo, guardou as melhores sequências, as primeiras atuações memoráveis e claro o começo do segundo round na busca pela nova Suprema (ou na luta da antiga para manter sua posição).

Em minha opinião, Delphine LaLaurie é o personagem mais complexo de Coven e todo este escopo se dá unicamente pela entrega de Kathy Bates ao papel da outrora madame sádica. A cold open em 1833, no baile de Hallow's Eve lançou mais dúvidas ao misto de sentimentos que LaLaurie nos consegue fazer sentir. Num dado momento a gente vê uma impiedosa senhora de época que usa os órgãos dos escravos como parte de uma macabra diversão nas suas festas, para logo depois ficar penalizado de verdade com a dor no olhar dela ao reencontrar as filhas que torturava com os mesmos requintes de crueldade reservados aos seus escravos. O melhor de tudo isto, é que em nenhum momento o roteiro procura forçar uma falsa redenção para LaLaurie, pois as nuances do olhar cabisbaixo de Kathy Bates ou mesmo do compassado sotaque francês ao dizer “come back to me child”, fazem isto por si só. O que também choca pelo tom orgânico com o qual foi montado, é a relação direta e inversa que a personagem tem com as mesmas tragédias pessoais de Fiona. Inversas, por que se LaLaurie começa o episódio assombrando, para depois nos destruir com uma tocante cena de arrependimentos, Fiona emociona, ao se mostrar impotente diante do estado da filha, porém logo assume um austero e assustador tom de escárnio que se mostra implacável com aqueles que ela julga como seus inimigos.

O desesperador atentado contra Cordelia mudou Fiona para pior. Não que ela já não fosse inconsequente, mas a Suprema enxergou da forma mais escura possível, as possibilidades que o horror a que a filha foi submetida poderiam trazer. Eu não sei quanto da caminhada dela pelos corredores do hospital foi real, pois tudo ali teve um tom alucinatório bem incômodo, mas a ressurreição do recém-nascido pelas mãos de Fiona (numa das cenas mais fortes de Jessica Lange) foi para mim, um reforço à interessante teoria – que falarei mais a frente – sobre o dom do ressurgimento que também é compartilhado pela jovem Misty Day. A cegueira de Cordelia foi um belo adendo para a nova habilidade da diretora. Delia ganha uma espécie de acuidade tátil, capaz de captar todos os segredos que os olhos não podem ver, e é Hank o primeiro a sentir tal força. As possibilidades que isto traz para o crescimento da personagem na trama são inúmeras, afinal, já tá mais do que na hora de Sarah Paulson dar o seu show particular.

Na academia, o exército de Marie Laveau, continuou recebendo um tratamento todo especial para justificar a alcunha do termo horror no título da série. Sendo assim, vocês não tem noção da minha cara ao ouvir Queenie referenciar Army of Darkness, para logo depois ganharmos uma cena digna da trilogia Evil Dead, com direito a serra-elétrica e tudo. Claro que para muita gente o conceito do zumbi voodoo ainda é estranho, mas Borquita não atacar LaLaurie de cara era parte da tortura psicológica orquestrada por Laveau, que segundo a mitologia africana, pode controlar separadamente cada um dos desmortos a partir do feitiço que vimos. Zoe destruindo os zumbis com a serra-elétrica já é um dos momentos mais icônicos de toda a American Horror Story, a bruxinha pussycopata ainda descobre um misterioso poder quando se vê encurralada, colocando-a assim, no TOP três das candidatas a nova Suprema, que tem Nan (fofíssima no resgate de Luke) no primeiro lugar sempre.

Movimento demais atrai atenção, atenção esta que chega com uma nova e trágica visita do Conselho de Bruxaria. A rixa entre Myrtle e Fiona, coroou o episódio mais redondinho da temporada com uma das sequências mais bem dirigidas da série. Fiona foi cruel e calculista em todos os movimentos para evitar o seu impeachment como Suprema e para isto, matou outra de suas irmãs. Eu até suspeitei que Myrtle fosse a responsável pelo ataque contra Delia, pelos mesmos motivos que Fiona orquestrou o plano para julgá-la culpada, porém a forma como Myrtle acata de forma solicita, ainda que triste a decisão final do Conselho, foi capaz de deixar o coração de qualquer um bem pequeno. O terror na cara das bruxas mais jovens ao verem o belíssimo descampado onde a fogueira foi erguida, só aumentou a beleza da cena em que o diretor Jeremy Podeswa demonstra todo o seu tato que já o estabeleceu como um dos maiores artistas conceituais da TV americana.

Quando Queenie vem pedir ajuda a Fiona para lidar com seu último feito, é que descobrimos mais uma vez, que a Suprema não tem limites contra quem tenta impô-los a ela. Myrtle foi queimada injustamente e este senso atrai Misty até seu corpo, fechando assim, uma possível explicação sobre como funciona o dom da bruxinha natureba. Misty é atraída para salvar da morte as almas inocentes (com os jacarés, com Kyle e agora com Myrtle foi assim), da mesma forma que Fiona seguiu ao quarto da jovem mãe com o filho morto. Num episódio feito de lágrimas de desespero e arrependimento, Coven encontra metáforas para vida e morte, arreigadas num conto de horror que se bem conduzido, deve redefinir mitos. E é isto que American Horror Story sempre foi. Mítica.

P.S.: Como não adorar Fiona colocando Hank no canto que ele merece?

P.S.2: Spalding e Madison, numa saga macabra a lá A Noiva Cadáver. Isto ainda vai ser muito bom.

P.S.3: “You don't mess with the Supreme”.

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