Review: Mr. Robot S01E02/E03

De todas as séries estreantes que vi esse ano, nenhuma se apresentou tão ambiciosa e instigante desde o seu início como Mr. Robot. A trama criada por Sam Esmail vai se ramificando e crescendo já na sua segunda hora, com desvios impressionantes. Posso afirmar também que, ao despertar a comoção da audiência no que tange a formulação de teorias sobre o que realmente está acontecendo na vida de Elliot, o show já se mostra mais eficiente do que a maior parcela das séries do gênero. Quando nos importamos com o protagonista sem entender o porquê, passamos a fazer parte do seu universo, como um amigo de longa data, e é justamente esta empatia súbita que Elliot desperta.

No jogo que o Mr. Robot estabelece para descobrir se o hacker vigilante é mesmo digno de fazer parte da fsociety, é a paranoia de Elliot que vence. Com o chefe de tecnologia da Evil Corp nas mãos da justiça, o rapaz começa a se perguntar se foi realmente justo acusar uma pessoa que só servia de laranja para os planos da empresa. Continuando o gancho do episódio anterior, a corporação também tem uma proposta para ele: ser um agente duplo e fazer parte do seleto grupo de acionistas que controlam o nosso mundo. Ao tornar-se o centro das atenções pela primeira vez na sua vida, Elliot começa a pirar e, no maior estilo do Narrador em Clube da Luta, tudo ao seu redor parece oscilar entre o real e o ilusório.

O fato do chefe da fsociety só se dirigir ao protagonista vai deixando claro que ele é uma espécie de Tyler Durden para Elliot, cujo passado psiquiátrico – os velhos hábitos que ele costuma mencionar – resultou nas sessões de terapia com a psicóloga Krista. É impossível a partir daí não ficar na dúvida sobre a real existência do time de hackers. Inclusive, o roteiro de Esmail não deixa de continuar as referências à obra de Chuck Palahniuk, ao apresentar a figura de Darlene, uma das integrantes da fsociety que lembra muito o estilo da Marla Singer de Helena Bonham Carter.

Shayla, a fornecedora de drogas de Elliot, é outra personagem que ganha espaço e se fortalece como mais uma figura feminina importante na vida dele. Sua história com o traficante, e o empenho de Elliot em entregá-lo, rende uma sequência de suspense excelente e deveras sombria no apartamento da moça. A trama de Angela é a que parece mais deslocada de início, porém logo descobrimos que nada é por acaso quando a invasão do notebook de Ollie pende para se tornar um dos pontos chave de um ataque maior ao sistema de segurança da AllSafe. O que não fica claro é se o rapper hacker trabalha para Evil Corp ou para o misterioso Tyrell, o verdadeiro nêmesis do nosso herói.

MrRobot-S01E03

Eu sou fascinado pelo conceito dual de um yin e yang numa obra de ficção, e quando Tyrell apareceu no piloto de Mr. Robot a atenção que ele despendeu a Elliot meio que já dava pistas do seu papel na trama. Felizmente, a série não delegou ao integrante da Evil Corp apenas o lugar da escuridão neste já promissorrelacionamento. Na primeira cena do terceiro episódio, por exemplo, temos uma sequência de arrepiar, que coloca o ator Martin Wallström no mesmo patamar de entrega que o Rami Malek vem demonstrando. Tyrell tem mais camadas do que a gente poderia prever, e chego a dizer que, a julgar por suas ações para conseguir ascender e substituir Colby dentro da empresa, aquela última cena da premiere acaba sendo colocada em cheque. Será que Elliot recebeu mesmo a proposta tentadora da Evil Corp? Ou mais uma vez o vigilante alucinou, como na queda do píer?

O bug – ou labirinto emocional – que os dois jogadores montam para existirem na nossa sociedade, sem aparecerem como verdadeiramente são, nos dá outra prova do quão além Mr. Robot pretende ir. Os monólogos de Elliot sempre possuem uma importância pontual e é fantástico como o texto da série se mostra tão rico e atual nas questões que alcança. A prova é o horror contemporâneo vivido por Angela, Ollie e a vulnerabilidade que estar conectado ao mundo virtual passa a representar em suas vidas.

São três horas em curso, subtramas promissoras, personagens bem construídas, apelo estético irretocável e Mr. Robot já deixa uma tarefa difícil para as séries que virão na segunda metade de 2015: segui-la com uma qualidade ficcional tão absurda e antenada. Que surpresa, meus caros, que surpresa!

P.S.1: Como um bom shipper que sou, é Shayla que tem minha torcida, não Angela.

P.S.2: A primeira coisa que veio na minha cabeça, ao descobrirmos mais sobre Tyrell, foi Psicopata Americano. Bem, as cenas S&M com a esposa grávida não me fizeram largar a comparação de mão, hein? Creeeepy!

P.S.3: Gideon é o melhor chefe do mundo sim, ou claro?

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2 comments

  1. Avatar
    Mariana Lima 20 julho, 2015 at 21:40 Responder

    Estou adorando a série!
    Eu também me lembrei de Psicopata Americano quando vemos o Tyrell se arrumando.
    Acho legal a série não ter um protagonista bonitinho e também por ela mostrar um mundo mais real. Quando ela mostra que não dá pra hakear absolutamente tudo de um computador ou um simples celular, como acontece na maioria das séries. acho bem bacana eles mostrarem que é preciso invadir fisicamente também.
    Outro ponto que me agrada é que a série não trata a gente como se fosse idiota e ao mesmo tempo é de fácil compreensão para quem não é da área, leigos como eu.
    Adorei a review, espero que você continue fazendo a dos próximos episódios.

    • Avatar
      Zé Guilherme 2 agosto, 2015 at 22:05 Responder

      Obrigado pelo elogio Mariana!! A série também continua me deixando feliz, por não facilitar as coisas como um thriller cliché!! =)
      A review tá demorando, mas pode aguardar que essa semana estará por aqui. 😉

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