Operação Invasão: O clássico de ação da Indonésia

Operação Invasão: O clássico de ação da IndonésiaOperação Invasão é um filme ação resultante de um esforço coletivo curioso. Concebido pelo cineasta irlandês Gareth Evans, é uma produção da Indonésia que conta uma história de violência urbana que inclui críticas as autoridades asiáticas no sentido de permitir que a criminalidade domine as comunidades do país, além de ser um dos maiores expoentes entre os filmes de porrada de sua época.

Lançado em 2010, o longa é mais conhecido por seu nome em inglês The Raid. Pode ser encontrado também como The Raid: Redemption, pela alcunha original Serbuan maut, La Redada, Le Commando, The Deadly Raid, etc.

O longa é Produzido por Ario Sagantoro, conhecido por trabalhos locais como Merantau e Heaven and Hell. Os estúdios que propiciaram o financiamento dele foram Sony Classics, XYZ Films, Celluloid Nightmares, Stage 6 Films e PT Merantau Films, que também é a distribuidora.

Evans estava planejando fazer um documentário sobre lutas na Indonésia. Sua esposa era do país e ele acabou se interessando pela cultura local. Com o tempo, passou a dirigir obras de ficção lá, mas seu estilo segue com semelhanças ao registro documental.

O cineasta tem a preferência por filmar as cenas de maneira mais realística possível, mesmo que os eventos que apareçam aqui sejam fantásticos. A plasticidade das lutas e golpes acabam sendo valorizadas graças a esse caráter mais cru e realista na medida do possível.

Essa condição também faz com que a obra seja comparada aos filmes brasileiros vulgarmente chamados de favela movies. Esse movimento tem em comum com The Raid a condição de registrar a pobreza das favelas, aqui representadas por um prédio enquanto nos filmes nacionais se registram os morros cariocas, especialmente Cidade de Deus e claro, Tropa de Elite.

Além da condição financeira, há em comum entre a obra de Evans e de José Padilha o pontapé de mostrar os protagonistas como membros de um esquadrão especial da polícia.

Na época o diretor assinava de maneira diferente, como Gareth Huw Evans. e havia feito até então Footsteps na Inglaterra em 2006, e o indonês Merantau em 2009. Nesse último, ele já contava com Iko Uwais como seu herói de ação. Ao longo dos anos ele se especializou no gênero, fez a sequência Operação Invasão 2, o filme da Netflix O Apóstolo e concebeu a série Gangs of London.

A trama aqui é bem simples, focando no cotidiano familiar de Rama (Uwai), que em seus dias comuns medita, faz exercícios e gasta seu tempo se preparando para a ação.

Operação Invasão: O clássico de ação da Indonésia

Pouco antes de sair ele beija sua esposa grávida e conversa com um senhor de idade, promete que vai trazer alguém de volta. Esse seria um segredo só revelado ao longo da trama.

Mesmo que se dê importância a essa questão de resgate, a realidade é que o roteiro escrito por Evans não é muito rocambolesco. As relações e diálogos são somente um preenchimento entre lutas e momentos de ação. O foco dramático realmente se dá entre os golpes, tiros e explosões.

O nome do protagonista faz referência a um personagem do folclore da Sumatra, Rama Sukana, que, segundo a lenda, é uma mulher considerada a primeira pessoa a ensinar a arte marcial Pencak Silat de forma estruturada.

O Pencak Silat é o grande chamariz do filme, o diferencial em matéria de arte marcial. Se Ong Bak: O Guerreiro Sagrado serviu para popularizar no ocidente a arte do Muay Thai, para Operação Invasão a função é mostrar ao mundo o Silat.

Rama é um soldado de um esquadrão de infiltração. Ele está no bolo de recrutas que é designado para ir até um prédio dominado por um gangster poderoso. É dado que Tama, personagem de Ray Sahetapy, é um sujeito cruel, que trabalha com tráfico de drogas e diversas outras contravenções.

O vilão tem a sua disposição um exército de carniceiros, além de poder e influência nos arredores de sua base. Ele fica no topo do prédio, no lugar de mais difícil acesso no edifício. Na prática Tama comanda o lugar tal qual um dono de morro faz nos complexos ou comunidades do Rio de Janeiro que são tomadas pelas facções criminosas.

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Ao longo dos andares há gente civil habitando os apartamentos, além de muitos bandidos. Os cidadãos comuns devem uma obediência a Tama, que faz dessas pessoas reféns, pautando toda a relação no receio de ter a segurança dos seus lares violados e famílias atacadas.

O grupo de invasão usa capacetes e coletes, que lembram os esquadrões antibomba da SWAT estadunidense. São comandados pelo sargento Jaka (do veterano Joe Taslim), que é responsável justamente pelo programa de treinamento das forças especiais do país.

Rama pergunta qual o motivo da ação daquele momento. Colocar cadetes para desbaratar o nó bizarro que é a inserção nesse prédio tomado por bandidos não parecia boa ideia. A indagação fica sem respostas retas no início.

Os alistados que deveriam estar em treinamento foram enviados para um ataque ao prédio, teoricamente para servir de apoio a um grupo mais experiente que já estava lá mas isso é rapidamente desmentido.

O superior de Jaka, o Tenente Wahyu (Pierre Gruno) dá a informação de que o grupo de aspirantes estava sozinho, sem reforços, fazendo esse cerco. A percepção geral é que aquilo foi uma armação, com o sargento e os seus homens sendo feitos de iscas, fato que inclui o protagonista e todos os seus colegas de farda. No entanto, dada a tensão e o desencadeamento dos eventos, não havia muito tempo para que os personagens refletirem. A urgência fazia com que eles precisassem ir para frente. Não havia opção, era matar ou morrer.

Rapidamente os bandidos se remontam e avisam que estão com os policiais na mira de suas metralhadoras e pistolas. O conflito que os soldados tentavam evitar ocorre a revelia deles, se tornando algo trágico muito rapidamente. É feito um verdadeiro massacre, que abrevia a vida da maioria dos pretensos heróis.

A tática de guerra é bem mostrada em alguns pontos, de uma forma que lembra brevemente alguns filmes de guerra, em especial Falcão Negro em Perigo. A ideia original de Evans seria que a ação fosse ambientada em uma prisão, mas o orçamento era muito pequeno, então foi reduzido a um filme de ação de um prédio, inspirado principalmente por Duro de Matar e Assalto ao 13 DP.

A opção escolhida então foi a de mostrar momentos de tensão com objetos do cotidiano de qualquer pessoa mundana. Um bom exemplo disso é a bomba que Rama usa, se valendo de um cilindro de gás dentro de uma geladeira, que ao ser confrontado com uma granada, acaba por abrir espaço no andar onde estavam os personagens.

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A produção foi feita com tão baixo orçamento que as armas utilizadas eram de airsoft. Os tiros e explosões foram colocados apenas na pós-produção, em inserções digitais.

A produção optou por utilizar alguns filtros azulados, a fim de disfarçar a precariedade do visual. Isso deixa a obra datada, mas dadas as condições estabelecidas, foi uma boa saída, já que mascarou boa parte dos problemas aqui.

Os atores que fizeram a equipe de incursão passaram por um programa de treinamento com KOPASKA (Operações Especiais da Marinha da Indonésia) para estudar as técnicas usadas por eles, incluindo o uso de armas e sinais manuais. Isso colaborou para que toda a tática demonstrada em tela parecesse crível.

Evans não poupa o espectador, é violento e sanguinário na maior parte das cenas. Ele convida o espectador a entrar dentro da tela, com filmagens que lembram um aspecto de steadicam, mas que são filmadas com outro tipo de manobra.

Foi construída uma plataforma que tinha um volante e um maquinário semelhante a uma caixa de pinball. A iluminação foi difícil de manejar, uma vez que em várias sequências a câmera gira 180 graus e se movimenta pelas salas. A equipe então utilizou luzes de postes longos, que tinham rodas, que se moviam constantemente com as câmeras.

Evans ainda varia bastante os estilos entre tomadas, colocando os atores em primeiro plano, fazendo closes muito próximos, variando entre ângulos que valorizavam os efeitos de luta. Não há nenhum golpe que pareça visualmente incompreensível. Esse foi um esforço hercúleo e muito bem empregado.

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O prédio onde se passa o filme é grande, mas há claramente um exagero no material de divulgação, tanto que dá para ser encarado como uma propaganda enganosa. O slogan do filme menciona “30 andares de caos”, mas há no conjunto de apartamentos 14 andares, 15 se contar o térreo.

As partes realmente interessantes são as de luta, especialmente quando os golpes se mesclam ao uso de armas brancas. A maioria dos personagens lançam mão de combinações de Judô, Tae Kwon Do, Karatê, enquanto os heróis usam a luta local como base de seus golpes. A ideia é mostrar a Pencak Silat como a forma suprema de autodefesa.

Pencak Silat ou Pentjak silat é um termo genérico para designar as formas de artes marciais da Indonésia. O estilo utilizado aqui teria origem indígena, sendo uma luta característica, de golpes curtes e secos, que envolvem cotoveladas e muitas joelhadas, além de socos, chutes e pontapés.

Pode se ver a arte também em Merantau, em A Noite nos Persegue, Headshot, filmes esses fáceis de achar nos streamings mais famosos do Brasil. A luta também está em Tiger from Tjampa, clássico de 1953 que retratava boa parte das tradições da Indonésia.

Evans usa sua câmera de maneira nervosa, emula a rapidez dos movimentos e golpes passeando com ela pelos cenários. Tanto o registro dos espancamentos quanto o cambalear do seu herói são bem demonstrados pelo andar trôpego do diretor de fotografia Matt Flanery, e Dimas Iman Subhono, dois cinematógrafos que são parceiros contumazes do realizador.

Jaka fica desaparecido uma boa parte do filme, mas quando reaparece, trava uma grande luta contra Mad Dog, que vem a ser o principal capanga de Tama.

Operação Invasão: O clássico de ação da Indonésia

É sabido que o interprete do vilão, Yayan Ruhian já havia treinado Pencak Silat para Pasukan Pengamanan Presiden (as Forças de Segurança Presidenciais da Indonésia) em 1989 e para o Corpo de Polícia Militar da Indonésia no início dos anos 1990.

Não à toa ele é um dos melhores lutadores aqui, certamente o mais brilhante entre os artistas marciais. Ele é uma máquina de bater, moe seus adversários com grande facilidade, mesmo quando luta contra Taslim, que é um bom combatente.

Os dois atores ganhariam destaque no cinemão hollywoodiano, mesmo sem ser grandes estrelas. Taslim faria Bi-Han/Sub-Zero em Mortal Kombat de 2021 enquanto Ruhian fez Star Wars: O Despertar da Força e John Wick 3: Parabellum.

Perto do final ainda ocorre uma grande luta, entre três elementos, que envolve Mad Dog, Rama e Andi, personagem de Donny Alamsyah que é irmão do herói e consigliere de Tama.

O que se vê em tela é algo difícil de descrever em palavras. É uma luta brutal, longa e muito bem registrada, que termina de maneira trágica, com boa parte dos personagens ou mortos - de maneira cruel e nojenta, diga-se - ou lesionados de uma forma que seria difícil de se recuperar.

Aqui também é percebida uma marca do cinema de Evans, que são os assassinatos com gente cortando a garganta do inimigo. Se antes os bandidos e policiais se valiam de facas, machetes e armas brancas, aqui até mesmo as lâmpadas servem de armas.

É como se nesse universo as pessoas fossem tão hostis que até elementos de um cenário comum ganham potencial homicida. É claramente uma perversão do filmes de ação e comédia que Jackie Chan fazia. Se o herói chinês usava tamancos para bater na cabeça das pessoas a fim de deixa-las tontas, Rama usa cacos de vidro e pedaços de lâmpada para ceifar a vida dos seus opositores, afinal, esse é um jogo de vida ou morte.

O filme ainda se dedica a mostrar que a criminalidade consegue se infiltrar em absolutamente todos os meios, inclusive, sobre a polícia local. Toda a movimentação da patrulha de invasão seria um plano de um personagem que buscava promoção dentro da hierarquia policial.

No entanto o ardil deu errado, já que os criminosos que dominavam o prédio tinham os seus meios de contra-atacar e de demonstrar poder. Curiosamente o destino tanto de Tama quanto do tenente Wahyu não recai sobre o clichê do bandido que obriga o tira corrupto a fazer o que ele quer. A atitude do policial é de simples raiva, ao perceber que seus planos dariam errado. Ele não tenta se salvar simplesmente, age por impulso, abreviando assim a sua chance de sobreviver.

Uma mensagem que fica é que mesmo diante da incursão ali feita, mesmo que hajam sobreviventes entre os protagonistas e mesmo com a queda do líder dos criminosos, a percepção é que nada mudaria. A lei não seria respeitada só por conta da ação do grupo policial. Com a queda de um bandido, outro assumiria e o ciclo de violência seguiria o mesmo, inexoravelmente ligado aquela localidade.

Operação Invasão é insano, conte uma história simples, com abordagem frenética e muito violenta. Para muitos é a principal influência dentro do trabalho que Chad Stahelski e David Leitch fizeram em De Volta ao Jogo e em toda a saga de John Wick. Fato é que depois que o filme estreou, todo o cenário de filmes de ação mudou, na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos. Esse é um legado inegável, e mesmo sem ele, o que resta é um filme sóbrio, violento e muito divertido.

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