O Retorno dos Malditos : A sequência pouco lembrada de Viagem Maldita

O Retorno dos Malditos : A sequência pouco lembrada de Viagem MalditaO Retorno dos Malditos é um filme de terror, que se baseia no clichê do horror atômico e do tropo de canibais atacando pessoas "comuns" em lugares isolados. O longa-metragem dirigido por Martin Weisz é uma sequência do "novo clássico" Viagem Maldita de Alexandre Aja, embora seja bem menos popular do que o primeiro, não é uma produção que merecia ser tão esquecida quanto é.

Lançado um ano depois do anterior, em 2007 a trama foca dessa vez em um grupo armado, da Guarda Nacional, que atendem a um chamado de socorro nas montanhas, caindo em uma armadilha de uma tribo canibal.

Originário dos estúdios Fox Atomic, Craven/Maddalena Films e Peter Locke Production, conta com produção de Wes Craven, Marianne Maddalena e Peter Locke, ou seja, foi financiado pela mesmo equipe do primeiro.

Como é sabido, Viagem Maldita é refilmagem de Quadrilha dos Sádicos, no entanto, essa produção analisada não é uma refilmagem de Quadrilha dos Sádicos 2, embora tenha algumas semelhanças curiosas entre os longas homônimos para além de ambos chamarem The Hills Have Eyes 2 no original.

A ideia surgiu durante uma conversa casual de Wes Craven com o produtor Peter Locke, onde se imaginou que a personagem Brenda (Emilie de Ravin), traumatizada pelos acontecimentos, se alistaria junto à Guarda Nacional. Na fase de treinamento ela receberia uma missão de incursão ao Novo México para erradicar os mutantes restantes.

Isso conversa diretamente com a parte do plot de Quadrilha dos Sádicos 2, onde Ruby acaba retornando as montanhas, com um grupo de motoqueiros, embora as intenções em ambos os filmes são bem diferentes. De qualquer forma, fica bem claro - em ambas as tramas fica claro que não é um segredo muito bem guardado o fato das colinas serem habitadas por canibais.

O plano ruiu quando Ravin recusou o papel, uma vez que estava ocupada gravando o seriado Lost, não tendo agenda para esse trabalho. Wes Craven substituiu sua personagem, reescreveu o texto com seu filho, Jonathan Craven e manteve o máximo possível da ideia original.

Entre as semelhanças desse com o primeiro está a locação desértica. O longa foi rodado no deserto de Ouarzazate no Marrocos como foi no primeiro. Houve um upgrade na construção das cavernas das colinas, feitos pela mesma equipe que trabalhou no horror britânico Abismo do Medo de 2005.

Outra semelhança reside na exploração de figuras monstruosas alteradas graças a testes e intervenções nucleares no território americano, mas nem mesmo esse núcleo conta com algum retorno de personagens, embora tenha gente do elenco, como Michael Bailey Smith, que interpretou Pluto em Viagem Maldita e Papa Hades nesse, reprisando referências a deus romanos em seu nome.

Como o filme não é muito conhecido, achamos por bem avisar que a partir daqui falaremos com spoilers. O aviso está dado.

O Retorno dos Malditos : A sequência pouco lembrada de Viagem Maldita

A trama já começa apelativa, mostrando uma mulher amarrada, suja e ferida. A personagem interpretada por Cécile Breccia aparenta estar sofrendo bastante, de primeira parece que está sendo agredida, quando na verdade está em um trabalho de parto, correndo risco obviamente, já que está em lugar sujo, insalubre e impróprio para uma intervenção cirúrgica.

É dado que se passaram dois anos após os eventos de Viagem Maldita. o exército vasculhou toda área e ocupou o local onde a família Carter foi destruída, mas não se aprofundou muito para dentro das colinas, afinal, a família havia sido atacada nos arredores das montanhas, quando muito, na área onde haviam casas para testes com bombas, em lugares não contemplados pelas colinas.

Aparentemente os ataques dos canibais monstruosos só ocorre quando os estúdios decidem rodar sequências para os cinemas. Até então, não havia acontecido nenhum ataque, ao menos ninguém soube ou reportou nenhum abuso, mas nesse exato ponto, matam um funcionário japonês que trabalhava nas antigas instalações de testes nucleares.

Os Craven escreveram esse roteiro em um curto espaço de tempo. Demoraram um mês para conceber e amadurecer o script, fato que ajuda a explicar o montante de clichês e lugares comuns dele. Wes Craven quis que Michael J. Bassett, o diretor de Guerreiros do Inferno fosse o condutor desse, mas graças a conflitos de agenda, optou por Martin Weisz.

Se falta um maior trabalho dramático do roteiro, ao menos o gore é bem explorado, afinal, esse é um splatter exploitation com classificação indicativa alta, portanto a exibição de vísceras, fraturas expostas e fragmentos de corpos seria algo natural.

Também há uma colaboração positiva de alguns aspectos técnicos, como o trabalho de design de produção de Keith Wilson (Stalin, A Velha Loja de Curiosidades) e a direção de arte de Alistair Kay (Convite Maldito e o live action de Cowboy Bebop), fora o retorno de Howard Berger e Greg Nicotero nos efeitos práticos e no design dos canibais.

Não demora até que o filme mude de cenário, entrando em um circuito de treinamento de um grupo antiterrorismo. Apesar de estabelecer como um diferencial, não há muita caracterização para além do fato deles serem militares mega capacitados.

Ninguém se destaca, são todos personagens iguais, diferenciados unicamente por gênero, patente e nome de guerra.

Weisz tinha uma carreira ligada ao cenário musical, fazia videoclipes para bandas como Nickelback, não tinha tanto experiência com cinema. Trabalhou basicamente nesse e em Rohtenburg, de 2006. Sua condução é desorganizada, não chega a ser ruim, mas carece de uma identidade mais distinta, ainda mais se comparar com o trabalho de Aja, que era um diretor mais autoral.

As atuações acabam fora do tom e o diretor não trabalha muito para corrigir ou amenizá-las. Como o roteiro também é fraco, fica difícil levar a sério. Não foi à toa que ele deixou de receber convites para conduzir produções para o cinema.

Há quem defenda que sua intenção era fazer uma comédia slasher ou um terrir, se foi o caso, há sim acertos, até momentos de brilho, como quando uma mão sai de dentro do vaso de um banheiro químico, com um sujeito saindo de lá todo enlameado e sujo por fezes, resultantes de um trabalho de efeito prático bastante curioso, onde foram usadas ameixas cozidas para dar um aspecto mais natural.

A sequência é constrangedora, de uma comicidade involuntária impossível de ignorar, mas aparentemente, o trecho era sério, embora não haja grandes consequências para o sujeito, já que ele não demora a morrer. Fosse ele do grupo de protagonistas, dificilmente não sofreria com uma infecção terrível.

De positivo, há a utilização dos buracos e imperfeições das montanhas. Esse foi um aspecto mal explorado no outro, se os assassinos canibais habitam esse lugar há tempos, natural conhecerem melhor o terreno do que os ditos mocinhos. O deserto de Ouarzazate colabora bastante, pois parece de fato com a parte arenosa na fronteira entre México e Estados Unidos.

Os humanos modificados além de serem como monstros, andam e rastejam de maneira bestial, se enfiam em falhas nas rochas tal qual bichos em fugas, agem como minhocas e serpentes, buscando abrigo.

São assumidamente seres involuídos, que se aproveitam das fragilidades e do apego a comodidade dos humanos urbanos, surgindo nos espaços normalmente ignorados pelos homens "civilizados".

Eles estão onde nenhuma pessoa quer estar, se aproveitam de lixo, de sobras e de um cenário onde a vida urbana não chegou, vivem em um lugar abandonado pelas autoridades e por conta disso, acham que podem se vingar das pessoas que estão abaixo dos poderosos na cadeia alimentar de poder da América.

O Retorno dos Malditos : A sequência pouco lembrada de Viagem Maldita

O filme acerta especialmente nas sequências de ação. Em algumas delas ocorrem momentos bastante tensos e nervosos. O maior exemplo disso é o trecho onde ocorre a captura do personagem de Rashad Strik, mas até essa é sabotada pela inexperiência do condutor.

É assustador o modo como ele é dragado pelos canibais, a grande questão é que a sequência depende dos dotes dramáticos do interprete, que não são muitos. Fosse uma direção mais acostumada com filmes B e com obras violentas todo esse momento poderia ser melhor aproveitado, valorizando os aspectos visuais e não a dificuldade do elenco em expressar reações extremas.

O grupo de militares parece não ter peso, ninguém foge muito do estereótipo de ser um alistado que segue ordens. Eles até conseguem vencer alguns obstáculos, como no resgate ao coronel Redding (Jeff Kober), mas não parece que eles conseguirão vencer os canibais, não há nenhum tipo de valorização deles ao ponto de o público comprar que eles têm chances contra os alterados. Até os Carter pareciam ter mais chances diante dos vilões.

O que também depõe contra o filme é que os personagens que tem voz e tempo de tela são crédulos em teorias absurdas. Reeding por exemplo é um sujeito que vocifera conspirações quando fala, quase todas as suas linhas de diálogo miram sandices e mentiras, não há da parte dele qualquer base no real, ele só especula com teorias extremistas.

Como os soldados estão sendo atacados por figuras que deveriam não ser nada além de lendas pós ataques a Hiroshima e Nagasaki, o espectador médio pode encarar que as conversas do coronel fazem sentido, ainda na carona da suspensão de descrença proposta aqui. Curioso é que Wes Craven normalmente fazia filmes que discutiam o status quo, mas nunca para um viés reacionário.

Fica a dúvida se essas linhas defendidas eram suas, do seu filho ou era uma crítica aos militares, muito mal pensada dado que ficou dúbia a intenção de seu texto. Considerando que Reeding é o responsável por essa operação, a opção mais clara é que o texto condena esse tipo de postura.

Ele queria provar que as vítimas dos testes nucleares estavam vivas, para isso agiu de maneira irresponsável e tola, montando uma força-tarefa que foi até as colinas, mas os planos foram mal construídos, por isso resultaram em fracasso. Mesmo sendo errático, ele chega a boas conclusões. Suas observações dão conta que os alterados matam os homens e poupam as mulheres para engravida-las a fim de manter a linhagem deles viva. Isso explica a cena inicial, com a sobrevivente da tortura.

O público é levado a crer que ele está falando a verdade, mas a realidade é que a maior base para acreditar nisso é a ação caricaturalmente malvada dos personagens de aparência grotesca. Em alguns pontos, parece que eles são pessoas de índole má graças as suas deformações, como se ser feio fosse suficientemente traumático para deixar as pessoas insanas.

Ao contrário do que Alexandre Aja fez no filme anterior, aqui não há qualquer reflexão a respeito dos testes nucleares dentro do cenário norte-americano. Essa questão aliás mal é lembrada, não há menção mais direta ao fato de que o governo dos Estados Unidos fez o que fez naquelas terras montanhosas, não há sequer uma reflexão de que são as mesmas autoridades que mandam naquele grupo de militares, que agora, são vítimas das experiências fracassadas do governo.

Há também a questão pontual de que as mortes mais visualmente chocantes acabam parecendo irônicas, com um teor quase escatológico. Em alguns pontos, Weisz pesa a mão. Fica até a dúvida se os "malditos" tem uma espécie de super poder ligado ao humor, dado que eles fazem muitas piadas visuais com suas vítimas.

Se o roteiro assumisse essa condição de superhumor como um efeito colateral dos testes nucleares, a história certamente seria mais palatável e engraçada.

Em comum com o The Hills Have Eyes 2 de 1984 há o fato dessa produção ser isenta de mensagem. Tanto Quadrilha dos Sádicos quanto Viagem Maldita discutiam uma América feita para poucos, e aqui não, é pura exploração de deficiências adquiridas, que só não é mais tosca por conta da configuração visual ímpar dos canibais.

O diretor de fotografia Sam McCurdy filma a maioria das sequências em cavernas e grutas. Essa seria uma saída sábia caso o filme não se garantisse na qualidade visual dos monstros. Até há de entender a simbologia, de tornar escuros os cenários onde o mal ocorre. Nesse universo a luz não tem vez e a escuridão combina com o caráter dos malditos, mas não ânsia de esconder possíveis fragilidades da caracterização, também deixa irrelevante a construção dos efeitos práticos.

O Retorno dos Malditos : A sequência pouco lembrada de Viagem Maldita

Se Weisz fosse mais ousado, certamente o trecho final seria feito em um ambiente mais iluminado. A maquiagem arquitetada por Nicotero e Berger é o ponto alto do filme, a qualidade desse trabalho é inegável, todas as fichas do filme deveriam ser colocadas nela, e não nas curvas dramáticas do roteiro.

As mortes são gráficas, a violência subiu bastante em comparação com o primeiro filme, há um esforço em deixar claro que os vilões se alimentam de suas vítimas, com cenas que deixa ainda mais explícitas as práticas canibais.

Caso não tenha fica claro nas conversas entre personagens, ainda são mostrados pedaços de corpos, cabeças e membros decepados pelos cenários. São boas próteses, algumas bastante grandes. A forma como aparecem também ajuda a deixar a situação mais nojenta, já que são guardadas de maneira insalubre, afinal os recursos são escassos ali. Esse aspecto ainda acrescenta em horror por conta de boa parte dos túneis terem um aspecto semelhante aos de salas de tortura.

Mas o texto vai piorando próximo do final, quando utiliza o estupro de uma das personagens como um evento engrandecedor, de lição de moral. Tudo bem que a obra é de 2007, eram tempos diferentes dos atuais, mas é vergonhoso que o longa seja tão refém desse tipo de clichê. Entre tantos problemas de concepção, esse é apenas mais um.

O texto finaliza afirmando que o desaparecimento dos soldados não foi investigado, e a existência do Setor 16 - a tal área dos mutantes - jamais foi assumida pelo governo, reforçando a ideia porca de valorizar teorias da conspiração.

O Retorno dos Malditos tem bons momentos especialmente na concepção visual. Resulta em um show off de efeitos de maquiagem, que agrada aos fãs do primeiro ao menos nesse quesito. Sua abordagem infelizmente não acompanha a qualidade da estética, seus subtextos são mal encaixados e atrapalham a apreciação final. Poderiam ter tomado mais tempo, para amadurecer ideias e essa pressa serviu para mais uma vez sepultar a franquia.

1 comment

  1. Mandy Hudmon 2 maio, 2025 at 20:05 Responder

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