Aniversário Macabro : A Desolação de um Mundo Adulto, Agressivo e Cruel segundo Craven

ATENÇÃO: O texto a seguir abordará temas sensíveis, com descrições de violência e abuso de vulneráveis.

Poucos cineastas de terror tem o domínio da linguagem cinematográfica que tem Wes Craven, e sua estreia na direção de longas já dava mostras dessa característica. Aniversário Macabro foi lançado em 1972 e seria o precursor do estilo famosamente conhecido como Rape and Revenge, mostra a história trágica de uma menina que foi abusada por bandidos, com seus pais tratando de vingar a sua memória.

Por mais que o longa seja marcante e uma bela estreia, é fato que o procedimento do cineasta não estava ainda tão lapidado como seria décadas depois. O filme tem produção assinada por Sean S. Cunningham, o mesmo que anos depois ajudaria a fundar o gênero de filmes de matança e Slasher com Sexta-Feira 13, e é baseado no clássico sueco A Fonte da Donzela de Ingmar Bergman,

Nesta versão o drama é trocado pelo terror, mas seu início se dá de modo lúdico, com os preparativos para a festa de aniversário da jovem Mari Collingwood (Sandra Peabody), que por sua vez, quer sair para festejar com uma amiga, pois já se enxerga como uma moça adulta.

Nesse ínterim, ela e Phyllis (Lucy Grantham) vão até a cidade na intenção de comprar drogas e se deparam com um bando criminoso, liderado por Krug (David Hess), um sujeito que acabou de sair da cadeia, mas que faz questão de não negar sua natureza maléfica.

A estética que Craven traz faz a obra se assemelhar ao minimalismo e cinismo típico do movimento da Nova Hollywood. Seu início não demora a mostrar a tolice das garotas buscando diversão efêmera, deslumbradas com o próprio crescimento e com a aproximação da vida adulta. Sem grandes subtextos nesse início, se percebe também uma aura de normalidade até quando se mostram as pessoas malignas da trama.

O Krug Stillo de Hess é provavelmente o personagem mais marcante da trama. Carregando a abreviação do nome do sujeito que praticava Bullying com Craven na infância - Freddy Krueger, cujo nome seria reutilizado anos depois em A Hora do Pesadelo - o sujeito é vil, escroto, baixo e capaz das maiores atrocidades. Ele faz tudo com frieza, é até um Bully com os seus capangas, mas parece de fato ser o macho alfa daquela alcateia bizarra, o líder malvado de um culto ao sadismo e a crueldade humana, mas ainda assim, é só isso mesmo, um homem.

Esse é um mundo de humanos, e não de monstros, e todos têm desejos e imperfeições típicas de gente normal.

A trilha sonora chega a ser engraçada, entre outras coisas por ser bem nula e às vezes, mal encaixada. Os momentos que deveriam ser assustadores não têm uma atmosfera tão aterradora, claramente por inexperiência de seu autor, que estava em estágio embrionário.

Nem Cunningham, mais experiente que o amigo (sobretudo em obras de propaganda e até dentro do mercado pornográfico softcore, nicho da onde Craven também veio) ajudou a lapidar a sensação de que o medo e o mal se aproximam. Ao menos se guarda surpresa, e a expectativa que pode parecer positiva até certa parte da trama, surpreendentemente abraça o espectador assim que a violência se torna algo escatológico.

Há um problema, sobretudo para quem é mais sensível, na edição assinada por Craven. Cenas dos preparativos de um bolo de aniversário são intercaladas com outras, onde o perigo é iminente. Essa questão evolui até para os trechos mais fortes, de violência e abuso.

Vale lembrar que Steve Miner auxiliou Craven na edição, o mesmo que futuramente dirigiria Sexta-Feira 13 - Parte 2, Sexta-Feira 13 - Parte 3 e Warlock: O Demônio, e sua contribuição é vista até em momentos pitorescos, onde uma dupla de policiais agem como palhaços atrapalhados, dignos de comédia pastelão, inclusive pegando carona em um caminhão cheio de  galinhas.

Os alívios cômicos não combinam em nada com o resto da violência super dramática dos abusos, tampouco suavizam essas sequências.

O momento mais sádico reside na associação do romantismo do casal de pais, que se permitem brincar de seduzir um ao outro, com a tragédia da filha, que está a beira de morrer. Craven registra os eventos de forma quase documental e crua, fato que reforça a sensação de incômodo, ainda mais por parte do espectador mais sensível.

A união das duas relações sexuais completamente diferentes no mesmo ponto da história, mostra um pessimismo trágico, e faz o filme conversar com outras obras depressivas da época, como Amargo Pesadelo e Taxidriver, e serve para demonstrar a ideia do autor a respeito do momento político e histórico do país, pós-Guerra do Vietnã.

Ao longo da exibição as cenas de violência aumentam de grau, se afastando enfim da ternura e sedução do casal mais velho, para resultar enfim na maldade dos cruéis abusadores.

O final do filme é chocante, e até antes disso começa um crescente - ocorrida aproximadamente após o minuto 40 - da violência explícita. O gore deixa de ser tabu e a crueldade é liberada, como uma torrente de água que parecia retesada de algum modo.

Momentos de tortura ganham a tela e até alguns dos "malfeitores" parecem enojados com o que acontece ante os registros da câmera e aos olhos do espectador.

Não há como não sentir asco ou nojo e o ritmo lento desses atos torna a apreciação em um evento que desperta apreensão e ansiedade, já que o terror maior não é a violência mostrada, mas a expectativa do que virá.

Mesmo com todo esse cenário quase infernal, onde pecados dos jovens bandidos finalmente teriam sua retribuição, o quarteto liderado por Krug segue achando que se dará bem. Todos são arrogantes, presunçosos, acham que podem ludibriar a tudo e todos, são tão confiantes em si e tão debochados que revelam indícios de suas reais identidades, e obviamente, isso cobra seu preço.

O momento de encontro entre os bandidos e os pais se desenrola quase como um presente, desembrulhando uma justiça poética mirando a memória da pobre Mari e de sua amiga. A aniversariante pode enfim ser vingadas por aqueles que juraram amá-la do seu primeiro ao último respiro.

É um desfecho sujo, com uma vingança que não é redentora e que resulta em um  alívio momentâneo, embora o corte final não permita provocar muitas reflexões. Craven estreia bem, em uma obra que deve ser revista e discutida, atentando claro ao tema forte que aborda.

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