Nosferatu de F.W. Murnau: o Drácula Histórico e Pirata do Cinema Mudo

Nosferatu é uma das obras mais celebradas dentro do movimento conhecido como Expressionismo Alemão. O filme de F.W. Murnau adapta a história do vampiro Drácula, mesmo sem ter os direitos do livro homônimo de Bram Stoker.

Com tempo, a obra que traz Max Schrek no papel do conde Graf Orlock foi redescoberta e louvada tal qual merece, restaurada através de cópias lançadas no exterior da Alemanha, uma vez que os rolos de filme alemães foram queimados em sua maioria, graças ao processo movido pela viúva de Stoker.

A versão que hoje circula por streamings e em mídia física manteve a estrutura clássica (ou ao menos tentou isso) exibida em 1922, com uma longa abertura incluindo os créditos iniciais, acompanhada da sinfonia de Otto Kermbach, com um letreiro alemão que imita o sistema de diários de Jonathan Harker, no livro do vampiro.

Na trama, Thomas Hutter, personagem de Gustav von Wangenheim, é encarregado de viajar até o castelo de um nobre, e lá, ele tem um encontro com algo profundamente estranho. Hutter é obviamente o análogo a Jonathan Harker, o primeiro narrador do livro, e isso já determina que a obra germânica seria mais fiel em muitos aspectos que Drácula de Todd Browning lançado em 1931 com Béla Lugosi como o vampiro. Na versão dos anos  trinta, o primeiro personagem a interagir com o vampiro é Renfeld que primeiro, e no livro, esse personagem já está internado, após um encontro que é só citado, e não narrado pelo romancista.

Os cenários impressionam. Mesmo sendo uma produção do início do século XX, há uma grande variação em matéria de locação. Outro fator que chama a atenção é o quão forte é a maquiagem das personagens femininas, que miravam parecer mais condizentes com o padrão de beleza da época, evocando maturidade e não jovialidade.

Curiosamente, a personagem de Orlock tinha uma aparência cuja tonalidade tinha semelhanças com o feminino, com diferenças fundamentais claro, já que suas feições eram mais fortes, com um nariz protuberante e sobrancelhas grossas. Mas sua maquiagem era forte, suas unhas tão afiadas que lembravam as garras de um animal selvagem, além é claro dos dentes alongados - os dois da frente, ao invés dos caninos, como seria comum pós Drácula de 1931.

Max Schreck, born on this day in 1879 | BFI

As expressões de Schreck não combinavam com as de um homem comum, Murnau queria que seu personagem fosse assustador logo de cara, além de ambíguo fisica e moralmente. Por isso a figura é andrógena e assustadora, estava no limbo entre os sexos, um ser que se aproximava do humano mas que era pertencente ao desconhecido.

Nosferatu também traz contribuições significativas para a mitologia dos vampiros: a fraqueza a luz solar foi primeiro estabelecida aqui. Mas também há diferenças notáveis ao mito dos sugadores de sangue, já que Orlock matava as vitimas ao invés de transforma-las em seres mortos vivos como ele.

O ideal do vampiro como avatar de uma doença que se alastra não era tão presente, mas ainda assim havia uma ideia de Orlock como um transmissor de doenças, um ser pandêmico.

Sua chegada ao destino final, via marítima, faz libertar dezenas, talvez centenas de ratos, os mamíferos transmissores da Peste Bubônica, que assolou o mundo durante os anos 1346 a 1952. A criatura além de sede por vida, teria também poder e controle sobre transmissores de outros males humanos.

Essa caracterização é alvo de estudos e discussões até hoje, inclusive associando o caráter grotesco do personagem ao antissemitismo que tomaria a Alemanha no governo de Adolf  Hitler.

O Expressionismo Alemão nasceu como movimento da melancolia do pós Primeira Guerra Mundial, e segundo Eric Rentschler, em seu livro Ministry of Illusion: Nazi Cinema and Its Afterlife, Nosferatu teria muitas semelhanças com Uma Sinfonia do Horror e A Luz Azul, filme de 1932 dirigido e estrelado por Leni Riefenstahl, uma cineasta e propagandista do regime do III Reich autora de filmes como Olympia e Triunfo  da Vontade. Essa semelhança se dá especialmente pela questão de que tanto Nosferatu quanto o filme de  Rifenstahl terem uma "atmosfera frígida" e ligada ao Dia do Juízo Final. Tais semelhanças e repercussões são mais detalhadamente discutidas neste texto acessório.

Outra questão de subtexto envolveria o fato de materiais de propaganda nazista associarem judeus a figuras semelhantes a Orlock, carecas, feios, quando não associados a caricaturas que misturavam homens calvos e ratos, os mesmos animais que foram colegas de tripulação do Conde no início da trama.

Evidentemente que essas questões não são de responsabilidade do seu realizador, afinal toda essa apropriação partiu dos homens fortes do governo de Hitler, e não de cineastas como Murnau, Fritz Lang e tantos outros.

Dito isto, o cineasta conduziu uma obra seminal, visualmente agressiva, e que é tão acertada graças a entrega que Schreck exerce. Sua movimentação é muito diferente, particularmente assustadora, seus movimentos básicos evocam os de um animal sorrateiro e venenoso. Até quando não é cercado por ninguém, quando não é observado, ele age de maneira estranha e desconfiada, visto que não consegue ver os homens como pessoas que merecem sua estima, e por isso, ele faz tudo sozinho.

Apesar de fazer parte do movimento, quase não há elementos do Expressionismo Alemão aqui, exceto é claro a figura do monstro. A estética que Murnau escolhe bebe do naturalismo. Os navios vistos no filme não eram efeitos, ou miniaturas filmadas sob perspectiva forçada, eram de verdade. Os cenários no geral repetem o que era a vida alemã da época, e neles se percebe toda a melancolia posterior a derrota na primeira grande guerra.

Essa desolação ajuda a explicar como o povo ficou vulnerável, e como foi subjugado facilmente por Orlock, e dada a historia, ele se tornou profético, pois os alemães reais abraçariam o pensamento fascista e com um figura monstruosa e torta, grotesca em essência como liderança, mas não visualmente estranha como esta monstruosidade que dá nome ao filme.

Nosferatu marcou época, e mesmo que tenha na base uma obra que ganhou notoriedade algum tempo depois, se tornou um clássico independente do livro Drácula, além disso, ajudou a construir visualmente o que seria o vampiro cinematográficos e fortaleceu a estética de susto nos filmes de horror, especialmente no uso da música para trazer terror ao público, até mais que os clássicos de monstro da Universal.

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