Review: American Horror Story: Coven – 3x02 Boy Parts

Culpa por associação. No horror, existe uma linha tênue que o separa do humor negro e eu sempre achei genial produções que conseguem usar este limite como um artifício para criar histórias tão absurdas, que para os mais desavisados, soariam até como piadas de mau gosto. Em sua estreia, Coven havia começado a flertar com a estrutura citada, afinal a promessa de um ano menos opressivo do que Asylum tinha de ser cumprida de alguma forma. Porém, se o sótão de Madame LaLaurie, o estupro de Madison e a vingança de Zoe no primeiro episódio, meio que surgiram para nos relembrar de que a noção do soft em American Horror Story é tão cínica quanto qualquer outro produto de Ryan Murphy, esta semana, Boy Parts foi mais além ao trazer um empolgante clima trash que enriqueceu ainda mais o novo universo proposto. Tendo direito a jacarés assassinos, rituais negros de acasalamento e um Frankenstein próprio.

Se as menções ao poder da jovem Misty Day, já soavam provocativas por si só, imaginem uma abertura com ela no pleno exercício do seu dom. A sequência da ressureição dos jacarés, já nasce clássica pelo tom poético hardcore. Misty é a última representação que faltava para os imagéticos gêneros de bruxas que Coven criou até aqui. Ela é uma wicca, guiada pelos sons da natureza, inocente ao idolatrar Stevie Nicks (genial essa sacada), mas ainda sim consciente de que não é tão inofensiva como se pode julgar a primeira vista.

Na academia, a evolução da trama reservou um espaço para cada uma de suas moradoras. É bem impressionante ver um enredo difícil como este, se firmar em tão pouco tempo, mas isto não é mais surpresa quando se fala de AHS. Outro detalhe essencial para o sucesso de todos os plots vem da escolha de apostar nos pares de bruxas: Zoe e Madison, Queenie e Nan, Fiona e Cordelia, e por aí a permuta continua. Claro que as discussões temáticas também contribuem, afinal a “culpa por associação” deu força as parcerias e criou vários momentos arrebatadores.

Eu já posso falar que os encontros de bom dia organizados por Cordelia só rendem boas sequências? Queenie contando como foi descoberta pela diretora fez jus ao seu emblemático poder e Gabourey Sidibe continua arrasando como sempre. A reunião também gerou o que podemos chamar de exemplo prático para o que Fiona havia dito ao falar sobre a importância das mulheres do clã lutarem juntas. A água batizada com um saboroso (ou seria venenoso?) cuspe para os investigadores e o ultimato dado as jovens sobre o real significado do título de Suprema, é forte, irônico e por isso mesmo divertido.

Não tem como não adorar a forma que Madison acha para retribuir a ajudinha que a amiga deu ao destino nenhum pouco agradável do seu estuprador. Só o “humor doentio” da atriz já valeria a pena, porém Emma Roberts vai fazendo maravilhas com o cinismo de Madison. O feitiço de ressureição é over na execução e casca grossa na montagem. Costurar as melhores partes dos garotos mortos no acidente, à cabeça de Kyle é dessas bizarrices carregadas de referências POP que você ama por ser impressionante. Atentar para os detalhes também faz toda a diferença, ou seja, um ritual de necromancia sem vender a alma ao capiroto seria bem broxante. Aqui, não só a figura de Azazel (o deus bode da abertura?) já começa a ser referenciada, como também Zoe se mostra mais do que uma pussycopata, ou vocês acham que o beijo não teve parte no despertar final de Kyle? Outro ponto curioso, foi o fato da energia de Zoe atrair Misty até o necrotério, tem mais nisso aí do que a gente pensa e o mistério já chega matador.

Já que o teor sexual de AHS vez ou outra toma conta de uma trama grande da temporada, cabe a Cordelia (Sarah Paulson sendo o oposto de sua Lana Banana) cair no dilema da concepção por direito divino, científico ou mágico. Já detestei esse Hank, cara prego e chato, que felizmente deve rodar logo, pois a magia negra para concepção deve ter atraído algo não muito bom até Cordelia. Como se não bastasse todo o apelo visual das sequências já citadas, o feitiço de acasalamento foi hipnótico. Criar momentos assim é arte sendo feita na televisão. O diretor Michael Rymer (Hannibal e Battlestar Galactica) fez toda a diferença desde que entrou para série, já que o roteirista Tim Minear entrega sequências apoteóticas que merecem um apuro técnico estilizado, desde o massacre da escolha no halloween da Murder House. Não tem como a trupe de Ryan Murphy se distanciar dos bebês demônio e dessa vez o negócio já começa muito, mais muito bem.

Madame LaLaurie e Marie Laveau são tipo os must see de Coven. Personagens reais defendidos por grandes atrizes que estão visivelmente se divertindo com os absurdos. Para acrescer o caldeirão, só jogar Fiona entre elas. A conversa no salão de Marie Laveau que trouxe a explicação do por que da fuga de Salem para New Orleans, brilhou por não ter sido expositiva como a cena do jantar de poderes no episódio passado. Trouxeram até a figura da escrava Tituba (uma das três mulheres que receberam a primeira acusação de bruxaria em Salem), para explicar a origem da ordem comandada por Fiona hoje. É notável o desprezo que Laveau tem pela raça que traiu uma de suas iguais e ainda saiu com o mesmo nível de poderes, que lhes foram entregues. Esta rincha vai ditar muito do que veremos no embate das três forças maiores, que tem LaLaurie como terceiro vértice.

Não consigo nem prever quanto o encontro de Zoe e Misty movimentará as regras do coven, mas a pussycopata teve uma química incrível com a wicca country. Da mesma forma, eu não apostaria muito na redenção de LaLaurie, só pelo fato dela ter mostrado uma ponta de humanidade pela morte das filhas. A mulher é egocêntrica ao ponto de se lamentar com a celebração do macabro em sua vida. Fiona tem planos para LaLaurie e mesmo do jeito dela, eu aposto num revés de justiça, no maior estilo “olho por olho”. Resta saber quem será o prego e martelo desta vez.

P.S.: Cultura POP explodindo por aqui. Já tivemos Hogwarts, Sabrina e agora Charmed.

P.S.[2]: Nan ouvindo os apelos de Madame LaLaurie foi muito fofo. Fico impressionado como a Jamie Brewer é expressiva.

P.S.[3]: Trilha sonora incidental inspirada no trabalho da banda Goblin do filme Suspiria (também sobre um internato de bruxas) do Dario Argento, não por acaso um dos ídolos de Ryan Murphy. De encher os ouvidos.

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