A Hora do Pesadelo 3: Freddy e as Crianças na Sessão da Tarde

"Sonhos, essas pequenas fatias da morte, como eu as odeio" Edgar Allan Poe

A Hora Do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos começa com essa citação a um dos mestres do terror literário, tentando desvencilhar a franquia da recepção (e rejeição) que parte de crítica e público teve com A Hora do Pesadelo 2: A Vingança da Freddy. Esse terceiro filme tem claro um foco no terror, mas apela para elementos de aventura e até comédia.

A New Line, detentora dos direitos da franquia, resolveu procurar o diretor Wes Craven para fazer a parte três da saga de Freddy, e sua ideia resultou nesse longa de 1987 que se inicia com a personagem Kristen Parker, de Patricia Arquette, tendo pesadelos estranhos com o assassino de crianças, conseguindo estranhamente interagir de maneira não passiva com Krueger no campo dos sonhos.

Houve a escolha narrativa de tratar os assuntos de maneira mais leve, propondo vários momentos mais engraçados que aterradores, embora ainda fosse uma obra de terror propriamente dita.

Apesar do nome original ainda referenciar a rua Elm, o filme é o primeiro a não se passar na localidade, ainda que a razão de ser dele tenha a ver com o local.

A ideia de Krueger é revidar com os filhos dos seus assassinos, o horror que ele mesmo viveu quando foi queimado vivo, e para cada um desses meninos e meninas ele tinha uma forma de aterrorizar e, por consequência, matar.

Nesse interim, e tomando um hospital psiquiátrico como base, logo chega Nancy Thomspon, personagem de Heather Langenkamp que foi protagonista no primeiro A Hora do Pesadelo, já mais velha e com especialização em psicologia do sonho.

A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors (1987) - IMDb

Por mais que Craven não tivesse como dirigir o longa, uma vez que estava produzindo A Maldição de Samantha, sua influência se deu em vários aspectos, entre eles, o retorno de Langenkamp e de John Saxon, que mais uma vez faz o policial Thompson, dessa vez rebaixado para o posto tenente e viciado em álcool, reprisando o problema que sua ex-esposa morta tinha no primeiro filme.

O texto original era uma ideia que Craven e Bruce Wagner desenvolveram, mas que não foi bem aceita pelo estúdio, uma vez que parecia sombrio demais. Os produtores chamaram Chuck Russell (futuro diretor de O Máskara) e Frank Darabont para mexer no roteiro, e coube ao primeiro a condução do longa-metragem.

O elenco era composto por jovens promessas, e algumas se tornaram estrelas, como Laurence Fishburne (ainda assinando como Larry Fishburne) que já tinha feito Apocalipse Now e anos mais tarde estaria em Matrix, e a estreante no cinema Patricia Arquette, que seria conhecida em filmes como Stigmata e Boyhood.

Em comum com o primeiro capítulo da saga, há o fato de que os Parker são uma família disfuncional, como eram os Thompson. Aparentemente, famílias destroçadas eram uma brecha para o assassino dos sonhos.

Freddy está especialmente canalha aqui, e isso se nota principalmente pelo orquestramento dos homicídios, já que ele o faz de modo que pareçam práticas suicidas, em torturas que fazem sofrer não só as vítimas, mas também os pais e pessoas próximas, piorado o quadro obviamente por serem crianças diante da tela.

As boas ideias param na questão de revanche do psicopata sobrenatural. Colocar adolescentes com poderes no mundo dos pesadelos faz com que o filme se assemelhe a um pastiche dos X-Men, ou talvez Power Rangers.

Tirando uma cena ou outra de gore, esse Nightmare on Elm Street 3 se encaixaria facilmente na faixa antiga do SBT, o Cinema em Casa, e com cortes, encaixa ainda melhor na Sessão da Tarde da emissora Globo. O tom de aventura juvenil supera demais o aspecto de horror e susto.

A apresentação dos poderes de cada um dos participantes do grupo de apoio mira a imponência e onipotência, mas é caricato e patético, além que fora as protagonistas (Nancy e Kristen), nenhum personagem tem personalidade além de características básicas.

Mesmo os sonhos são visualmente fracos, pouco criativos, excetuando talvez a cena com cordas de títeres, além é claro das sequências com Kristen. Toda a inspiração e criatividade parecem ter mirado apenas esses sonhos, que contam aliás com o ótimo trabalho de efeitos de Kevin Yagher.

Até ideias que poderiam ser boas, como o passado cruel e de abandono de Freddy, tem um desenvolvimento aquém. O contraponto positivo certamente é o retorno de Nancy já adulta como doutora, mas ainda crédula e traumatizada.

Ela segue com uma fobia do sono, e demonstra uma rivalidade com o terror da Rua Elm que faz todo sentido de existir, já que Freddy tirou sua mãe, seus amigos e inocência oriunda de sua juventude.

Esse foi o primeiro filme da franquia com uma participação do especialista em efeitos práticos Screaming Mad George, e dá para notar a sua mão em figuras como o verme que Krueger se transforma, e em outros tantos efeitos bizarros, como o braço cheio de bocas da menina que tem problema com vícios em drogas.

A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors. | Dinosaur Dracula!

Chuck Russell anos mais tarde faria outras obras mais conhecidas, mas nessa época ficou marcado por problemas com os atores, tendo dificuldade com um elenco tão vasto. Relatos dos bastidores dão conta de que ele rodou a mesma cena mais de cinquenta vezes, e convenhamos que o resultado não é exatamente um clássico kubrickiano, longe disso aliás.

Das continuações da saga de Krueger, A Hora do Pesadelo 3 é a mais curiosa, foi um sucesso comercial e ajudou a determinar o tom das outras sequências, com um assassino cada vez mais tagarela, e que rivalizaria em humor com os personagens de comédias. Ainda assim, a proposta de continuar o pós-morte de Krueger se perde em meio as gracinhas que Robert Englund propõe, e sem um trabalho que podasse esses excessos.

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