Shocker: A Pérola Trash Assumida de Wes Craven

Shocker: 1000 Volts de Terror é um filme de serial killer típico com uma história banal e clichê, mas com uma abordagem um inesperada. A obra mostra a história de um assassino implacável que ganha poderes espirituais no pós morte, sendo um belíssimo pretexto para explorar cenas de violência explicita escritas e dirigidas por Wes Craven.

A trama se inicia embalada por uma música original, executada pela banda The Dudes of Wrath, que narra as aventuras bizarras do matador Horace Pinker, personagem do icônico Mitch Pileggi, enquanto em tela são mostradas suas mãos sujas de graxa, uma vez que está mexendo com os instrumentos mortais que serviriam ao seu propósito sanguinolento.

A história aqui é bem confusa no estabelecimento da mitologia, Pinker é mostrado cometendo seus crimes de maneira frenética, matando pessoas de maneira tão rápida que faz perguntar se naquele momento ele já tem poderes sobre humanos antes de perecer, mas, não há qualquer indício de que ele tem interesse por magia ou contato com nada fora do normal.

Script to Pieces: Wes Craven's Shocker Remake - Wicked Horror

O roteiro segue mostrando as atitudes estranhas dele, em um show de horrores completo, e só freia nesse intento para introduzir Jonathan Parker, interpretado pelo futuro diretor de filmes de ação Peter Berg que dirigiu Battleship: A Batalha  dos Mares, O Grande Herói e Horizonte Profunda: Desastre no Golfo.

O herói da jornada é um rapaz comum, atleta, que sofre um acidente em um treino escolar batendo sua cabeça. O choque oriundo da pancada foi forte, tão grande que desenvolveu nele poderes e dons premonitórios.

Shocker (1989) | "This Film Should Be Played Loud"

A verdade é que mesmo ganhando essas novas habilidades (e acertando tudo que fala) ele segue desacreditado por todos, exceção do seu pai, o policial Don Parker (Michael Murphy), que convenientemente passa a crer que as previsões tem algum sentido quando cai sobre si a função de investigar os crimes de Horace.

A realidade é que o roteiro não tem qualquer preocupação em dar sentido a essas questões, e dada essa característica, é natural encarar a obra como uma grande piada em formato longa-metragem.

Shocker (Film, 1989) - MovieMeter.nl

Só nessa descrição já dá para perceber a semelhança cabal na relação de protagonista e parentes com outros produtos de Wes Craven. Tal qual ocorreu em A Hora do Pesadelo onde também não existe a confiança por parte do pai no testemunho emocionado da filha. Jon ainda tem mais sorte que Nancy Thompson, já que seu pai passa a concordar com as visões de seu filho em determinado ponto.

Há algumas semelhanças visuais desse com A Maldição de Samantha, filme de Craven lançado três anos antes. A aura mambembe e o apelo a efeitos especiais baratos e práticos é a mesma, embora nessa obra de 1989 haja um maior uso de efeitos de computador, que são assumidamente pobres.

A fotografia assinada por Jacques Haitkin de A Hora do Pesadelo, A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy e Cherry 2000 ajuda a fazer a atmosfera orbitar entre uma comédia errática e um filme violento e de assombração, com enfoque um pouco no gore, mas também nas trapalhadas engraçadas de Pinker, que sempre que vai assassinar alguém, consegue fazer alguma piada.

Como Shocker é mais grotescamente exagerado, a abordagem soa charmosa. O assassino parece estar acima dos outros personagens, jogando como adulto em um tabuleiro onde só há crianças, ele mata pessoas de maneira muito fácil, incluindo policiais armados.

Além disso não há qualquer complexidade emocional no filme, mesmo a morte do restante da família Parker tem zero impacto emocional. Ninguém chora, não há reações sentimentais, e possivelmente Craven notou a incapacidade de Berg em tons de dramaticidade e deixou por isso mesmo.

Shocker” Proves that Even Wes Craven's Lesser... - Musings - Oscilloscope Labs

A obra passa por vários dos clichês do cinema de Craven: mocinho infantil, armadilhas caseiras montadas de maneira instantânea e quase mágica, polícia tola, coincidências infinitas e convenientes, famílias disfuncionais, pesadelos cheios de gore, situações absurdas acontecendo seguidas de momentos em que personagens usam frases de efeito para deter o mal, e claro, manifestações sobrenaturais tiradas do acaso e encaixadas na trama sem qualquer lógica.

Ainda assim não há como não se afeiçoar pela completa falta de noção que a produção tem, uma vez que Craven apresenta todos esses absurdos, mas sem ter presunção, tampouco trata o espectador como tolo.

Ele vende escapismo bobo, até na rivalidade de Jonathan e Horace, que surge do nada, e trata a transformação do antagonista em um vilão de quadrinhos formado por energia viva de forma gaiata, referenciando um artifício pseudo-espiritual, enquanto a tv da cela está ligada segundo antes do sujeito ir para a cadeira elétrica morrer.

A chance do plano dar errado era enorme, mas em filmes assim, o acaso é regra. Até essas conveniências soam divertidas, e isso é obviamente culpa de Pileggi, que é de um carisma tão grande, que quase faz justificar todos seus atos violentos.

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Para o fã de horror, não é incomum torcer por ele, mesmo após ele arrancar o lábio inferior de um guardinha inocente, ou quando solta suas frases feitas antes de ser fritado.

Shocker:1000 Volts de Terror é um besteirol assumido, surreal em seu humor involuntário e surpreendente no caráter nonsense. Dificilmente se verá um filme onde ocorre a possessão de uma poltrona como é aqui e sua trilha repleta de músicas hard rock farofa se encaixa perfeitamente, de modo que faz lembrar as Operas Rock podreira dos anos 60 e 70, e mesmo que seu final seja adocicado, não há como negar seu caráter de pérola do cinema propositalmente trash.

 

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