Review: Mr. Robot S01E01

mrrobot-key-artEstabelecer contato ou manter uma relação minimamente real com as pessoas a sua volta é algo cada vez mais difícil na realidade em que vivemos. O relacionar-se via números e algoritmos parece ser mais saudável e menos dispendioso do que responder um ‘oi’ com um simples aceno de cabeça. Um ‘oi’ que pode levar a um aperto de mão, a um abraço, ou até mesmo a uma conversa de dois minutos e, claro, ninguém está disposto a perder dois preciosos minutos do seu tempo particular. Tempo é dinheiro e o lucro, acima de tudo, é o combustível que move o nosso mundo. Elliot, o protagonista de Mr Robot, enxerga tudo isto. A diferença entre ele e os humanos comuns é que a sua armadura pessoal é composta justo dessa capacidade de se desprender conscientemente das amarras sociais.

Trabalhando como engenheiro de segurança cibernética durante o dia e atuando como um hacker vigilante à noite, Elliot caça criminosos que, de uma forma ou de outra, têm suas vidas escusas registradas em algum lugar da internet. Falando assim, Mr Robot soa como mais um exemplar de série onde um protagonista sociopata funciona como o herói perfeito para caçar monstros reais. No futuro, ela pode até cair neste lugar comum - mas de antemão, já reforço a torcida para que não -, só que, à primeira vista, isso parece bem distante de acontecer. O texto do showrunner Sam Esmail (produtor de True Detective), gasta ágeis 65 minutos para apresentar Elliot com todas as suas qualidades, falhas e inseguranças, sem temer o julgamento do espectador.

Assim, nós enxergamos o protagonista como ele realmente é desde os primeiros minutos do piloto. Esmail inclusive toma a acertada decisão de colocar Elliot falando conosco, o “amigo invisível”, segundo ele. Desta forma, fica fácil passear pela trama de Mr Robot como se fossemos o sidekick do rapaz. Afinal, ele nos conta sobre o seu vício em morfina, nos apresenta a amiga de infância e colega de trabalho, Angela, não se envergonha em falar das consultas com a terapeuta Krista, e ainda abre os nossos olhos para uma intrincada conspiração patrocinada por um misterioso grupo de homens, que tem como laranja a poderosa E(vil) Corp.

O ponto de virada desse primeiro episódio acontece quando Elliot conhece um anárquico hacker que atende pelo nome de Mr Robot. O que me empolgou mais nesse primeiro twist é que subitamente me veio à cabeça uma produção britânica pouco conhecida, mas igualmente curiosa: a fantástica Utopia. Não vou estragar as surpresas por detrás da proposta feita pelo chefe do grupo fsociety, mas posso adiantar que a trama faz referência à história de Robin Hood, tendo uma das maiores questões da economia mundial como carro chefe do negócio.

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Se valendo do comando estilístico do diretor Niels Arden Oplev (a mente por detrás da adaptação original de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres), Mr Robot ganha, nesta primeira hora, todo um viés cinematográfico que cada vez mais se mostra indispensável na condução das melhores séries no ar. A câmera de Oplev acompanha os avanços, análises e sensações de Elliot, tornando o protagonista ainda mais humano, mesmo diante dos seus problemas psicossociais.

Não menos importante que todos os aspectos técnicos citados está o impressionante elenco da série. Rami Malek - o carismático Snafu de The Pacific - dá vida a Elliot com uma força contagiante, mesmo que, em suma, o personagem se mostre desconectado de tudo o que normalmente aproxima um protagonista do público. O olhar vidrado, a forma desajeitada de falar com quem ele se importa ou mesmo a empolgação quando vê o seu trabalho reconhecido, nos põe na torcida por Elliot, antes que possamos tentar ir contra. Na mesma linha, está o misterioso Mr Robot de Christian Slater, um papel que faz a canastrice costumeira do ator soar bem menos insuportável. O apoio ao redor dos dois, mesmo com um tempo menor de tela, já mostra possibilidades de boas cenas no futuro. Como, por exemplo, a conversa sincera entre Elliot e o seu chefe no avião, e o pedido de desculpas a Angela no fim do episódio.

Com estreia marcada para 24 de junho, Mr Robot é aquela série que surge de surpresa na summer season e nos faz feliz, pelo cuidado e possibilidades promissoras. O novo show indispensável a todo fã da boa TV.

P.S.1: Qwerty! Mais inspirado impossível, o nome do peixinho do Elliot.

P.S.2: A versão de Ne me quitte pas já mostrando que o Sam Esmai, deveria ter parte no bom gosto das escolhas musicais de True Detective. Confesso que fiquei arrepiado.

P.S.3: Vamos acompanhar Elliot durante toda a summer season aqui no Cine Alerta. Espero que vocês estejam com a gente.

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