Review: Mr. Robot S01E04/E05

Deliberar sobre Mr. Robot vem sendo uma das experiências mais desafiadoras da temporada 2015. Com o volume de séries que saem todo ano – em canais fechados e na TV aberta –, vai ficando cada vez mais difícil encontrar um produto que esteja mais interessado em transcender discussões e estereótipos, do que apostar no insosso arroz com feijão de sempre. Até o momento, Mr. Robot não requentou plots, ou ficou na margem das homenagens – e olha que tem muita produção cultuada se segurando nessa máxima. Na verdade, ela já conseguiu estabelecer um universo próprio com mitologia, tom e características tão bem definidas quanto às de um show de dez temporadas.

A fantástica condução de da3m0ns, por exemplo, é a maior prova disto. O quarto episódio desse primeiro ano, traz o nosso protagonista em seu estado mais vulnerável, pela primeira vez desde a estreia. Num empurrão nem um pouco comedido, somos jogados no meio de uma crise de abstinência de Elliot que já figura como a minha sequência-delírio favorita do ano. Misturando planos sequências, com um toque Lynchiano, os mistérios por detrás do real objetivo da fsociety, são pincelados com incômodas metáforas sobre a vida do rapaz. Acredito que até a season finale, voltaremos ao loteamento onde Elliot e Angela passaram a infância, afinal a forma como o roteiro vem desenhando a trama dela, já anuncia uma colisão que desenterrará os demônios pessoais e comuns aos dois amigos.

Outro ponto alto foi o desenvolvimento de Darlene e a curiosa relação que ela tem com os hackers da Dark Army. É impossível não aplaudir a escolha dos nomes que representam os principais grupos do mundo de Elliot. O “exército sombrio” que toma parte na arriscada decisão de derrubar a Steel Mountain (mais uma sacada excelente) junto da fsociety, também está envolvido na incursão que pretende derrubar a AllSafe. São diversos lados num intricado jogo de interesses, que até agora possui apenas uma incógnita: Tyrell Wellick.

Se eu disser aqui que já entendi as pretensões de Tyrell, estarei mentindo. Porém minha maior surpresa é notar que os seus objetivos vão além das ideias que a Evil Corp vende. Rami Malek pode até roubar a cena quanto está em tela, mas é Martin Wallström que ofusca o parceiro quando divide um momento com ele. Dá para elencar inúmeras contrapartes e antagonismos existentes na ficção, para exemplificar a relação dos dois, no entanto, eu só consigo pensar em Sherlock e Moriarty. Sim, Elliot é bem mais vulnerável que o detetive, só que existe algo nos diálogos dos dois, que remete diretamente aos mind games travados pelos personagens de Arthur Conan Doyle.

MrRobot-S01E05

A cena do almoço em 3xpl0its, seguida da do jantar, vai falando sobre Tyrell sem precisar simplificar com diálogos expositivos a psicopatia yuppie do executivo, que poderia muito bem ser aplicada a Moriarty. Vale falar também, que a sua esposa só aumenta o mistério ao redor do personagem e vamos ficando mais e mais curiosos pelas novas “empreitadas sociais” do casal. Sendo assim, creio que não demoraremos a conhecer Tyrell como ele realmente é, pois a chegada do bebê deve sim arrancar fora, um pouco da sua frieza. É outra aposta cega, eu sei, mas ele já deu indícios de que o filho representa uma das “boas conquistas” pretendidas em seus planos.

No fim, por subestimar os criminosos que caça no tempo livre, Elliot põe a vida de Shayla em risco e deve pagar um preço mais alto do que aquele que virá com a desistência da Dark Army na missão de hackear a Steel Mountain. Tendo a certeza cada vez mais concreta de que a mente do hacker vigilante, anda pregando certas peças na gente, Mr. Robot vai construindo uma das narrativas mais sólidas e instigantes do ano. É torcer para não bugarmos até o desfecho, pois a parada continua agressiva e surpreendente.

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