Review: Waco (Minissérie)

Filmes baseados em fatos, mesmo quando são escudados pelo famoso "baseado em uma história real", tendem a tomar liberdades criativas que, ora, são também importantes para efeitos de dramatização. É claro que certas dramatizações soam piegas o suficiente para estragarem qualquer intenção mais nobre que possua um roteiro. Um exemplo a ser destacado é a cena do trem no filme Destino de Uma Nação, a cinebiografia do inglês Winston Churchill, laureada com dois Oscar: Melhor Maquiagem e Ator. A cena do trem não consegue, por mais que tente, aproximar o espectador do personagem, já que, por si só, torna-se uma celebração demasiadamente evocativa de um líder que à época ainda não era a famosa figura histórica que se tornou.

No entanto, há filmes, ou, no caso, séries e minisséries, que entendem e melhor trabalham com o conceito da historia real e seus fatos e dinâmicas. Waco, minissérie da Paramount produzida pelos irmãos John Erick Dowdle (diretor de filmes como Quarentena e Horas de Desespero) e Drew Dowdle (roteirista e produtor dos mesmos filmes) e pelos atores Michael Shannon e Taylor Kitsch, é um exemplo disso. Há possibilidades de se realizar desvios narrativos dramáticos sem tornar sua obra em um amontoado de clichês, seus personagens em arquétipos unidimensionais de vilões ou heróis ou mesmo abusar de situações que não aconteceram para engrandecer ou diminuir personagens. Enfim, Waco não passa por esse problema.

Situada em 1993, um tempo pré-redes sociais, smartphones e mesmo celulares ainda não sendo um bem possuído por todo mundo, a série consegue muito bem usar essas "faltas" para incrementar tudo que for tecnologia analógica a seu favor. No sexto e último episódio, a cena do uso da antena no telhado como forma de estabelecer uma rede de respostas positivas e negativas ilustra bem isso, já que qualquer smartphone quebraria o encanto da conquista realizada através do manuseio da antena.

Dessa forma, e por se passar cerca de 90% do tempo em ambientes fechados, é natural que as escolhas de POVs (points of view = pontos de vista) sejam distribuídas por várias frentes, alternando-se sempre que possível para dinamizar entre as plots e não cansar o espectador que já estará vendo a imensa maioria da narrativa acontecer entre quatro paredes. Inicialmente, a série parte de ambientes mais globais até isolar-se em praticamente dois únicos ambientes (mais sobre eles à frente).

Vernon Wayne Howell, em algum momento de sua vida, decidiu mudar de nome. Escolheu legalmente ser David Koresh. De origem conturbada, Koresh jamais conheceu seu pai, que nunca se casou com sua mãe, que o teve aos catorze anos, e o abandonou quando ele tinha apenas quatro. Por essa rápida contextualização, é de se imaginar que teremos uma figura complexa. Para interpretar David Koresh, temos o canadense Taylor Kitsch, que esteve em grandes produções, mas nunca conseguiu brilhar como poderia. Viu a maioria de seus filmes se tornarem fracassos de crítica ou público, como em Battleship ou X-Men Origens: Wolverine. Tendo estreado no audiovisual apenas em 2006, foi na televisão que Kitsch conseguiu seus maiores feitos. Primeiro com Friday Night Lights (2006-2011), depois na segunda temporada de True Detective (2015). Tendo mais sorte em séries, Waco é o turning point da carreira de Taylor Kitsch. David Koresh é certamente o grande papel da sua carreira.

Do outro lado, temos um ator marcado por seus papéis de vilões no cinema: Michael Shannon. Ou até mesmo também nas séries, como em Boardwalk Empire. Ao olhar o rosto cheio de linhas de expressão de Shannon, além de sua aparência emocional-facial quase sempre imutável, não é de se admirar que ele tenha sido por tantas vezes escolhido para representar vilões em sua carreira. A saber, apenas alguns: Beatty, na vindoura série Fahrenheit 451; Richard Strickland, em A Forma da Água; e Zod, em Homem de Aço. Todavia, em Waco, o ator vive alguém distintamente oposto dos três personagens citados: Gary Noesner é o negociador-chefe do FBI para situações que envolvam reféns. A minissérie toma o cuidado de dar um background para Noesner e o apresenta inicialmente em 1992, sendo chamado para resolver um caso que nada tem a ver com Waco, mas que reverberará na situração mesmo assim. O caso, que deixou algumas fatalidades, deixou para Noesner também uma inimizade que ele "levará" para o cerco à comunidade de David Koresh: Mitch Decker (o ótimo Shea Whigham, de obras como Death Note e as séries Fargo, Agent Carter e também Boardwalk Empire).

Gary Noesner e Mitch Decker agem como as duas pontas do FBI que irão colidir e influenciar as decisões que acontecem de fora para dentro do cerco. Enquanto Gary é mais calmo e ponderado, Mitch é retratado como alguém disposto a agir mais física e instintivamente para por fim a situação. Embora Mitch possa ser considerado um vilão, a interpretação de Shea Whigham deixa claro que ele é alguém que busca os resultados mais positivos possíveis, ainda que possa agir de forma inconsequente e apressada para isso.

Já dentro do Ramo Davidiano, como ficou conhecida a comunidade liderada por David Koresh, além do próprio, temos Steve Schneider (Paul Sparks, de Rei do Show e House of Cards). Steve, além de ser o braço direito da comunidade de Koresh, funciona como uma espécie de bússola moral desse entorno. Agindo como um homem ressentido com David por um certo fato familiar, Steve consegue ser, ao mesmo tempo, um forte aliado e alguém que, mesmo tendo uma formação em teologia que Koresh não possui, ser alguém que o venera, o segue, escuta e não mostra-se disposto a trair seu líder.

Há uma série de mulheres fortes na série, os destaques vão para Judy Schneider (Andrea Riseborough, de Oblivion) e Rachel Koresh (Melissa Benoist, a Supergirl). Fiéis aos seus maridos, Steve e David, ambas também são mães que irão defender não apenas os ideais do Ramo Davidiano, mas principalmente seus filhos. Se os homens vão ficando com as cenas mais físicas, elas protagonizam as cenas mais duras da minissérie, cenas com pesada carga emocional. Além disso, é a partir delas que começamos a desconfiar que há algo de errado no Ramo Davidiano, algo além da justificativa usada pelo FBI para tentar invadir o cerco.

Rory Culkin (de Sinais), irmão mais novo de Macaulay Culkin, interpreta David Thibodeau, um jovem que "cai de paraquedas" em meio ao Ramo Davidiano. Convencido pelo próprio Koresh a visitar e morar em sua comunidade, Thibodeau atuará como a/o espectador(a) do show. É através dele que o roteiro vai introduzindo quem assiste ao Ramo Davidiano e seus personagens. Alheio ao que acontece lá dentro, assim como nós, todas as suas indagações vão sendo respondidas para ele e para nós. Vamos ficando, ao longo dos seis episódios, assim como Thibodeau, imersos naquele espaço.

Cabe aqui um breve destaque. O verdadeiro Thibodeau é o responsável pelo livro Waco: A Survivor's Story, que, junto com com Stalling For Time: My Life As An FBI Hostage Negotiator, do próprio Gary Noesner, inspiraram o roteiro da série.

Voltando aos espaços nos quais a minissérie acontece, é interessante observar algo na instalação (uma espécie de barraca mais equipada) do FBI. Sendo limitada e reduzida, essa barraca high-tech é quase um terceiro personagem atuando entre os conflitantes Noesner e Decker. Por ser um espaço reduzido, constantemente os dois estão entrando em embates morais e éticos. É normal ver o personagem de Shannon, mais alto, curvado ao tentar atravessar de um vão à outro da barraca. Dessa forma, o local sempre provoca os encontros entre eles, que tentam desesperadamente fazer com que o chefe de ambos tome uma posição sobre a comunidade de Koresh: ou esperar e tentar negociar através de telefonemas e recados, ou invadir e tentar neutralizar os integrantes do Ramo Davidiano.

Essa tensão entre os personagens é uma constante e faz com que tenhamos dúvidas sobre as defesas das posições de ambos os agentes, o negociador-chefe e o líder-tático de assalto.

Como destaque negativo, há uma participação especial na minissérie que poderia ter sido melhor explorada: John Leguizamo (de Moulin Rouge, Bloodline). Ele interpreta Jacob Vazquez, um agente que consegue se infiltrar no Ramo Davidiano e que, assim como o Steve de Paul Sparks é a bússola moral da comunidade de Koresh, o Jacob de Leguizamo é o mesmo para a equipe do FBI. Faltou um fechamento mais contundente para o seu personagem, que apenas some pelo meio da temporada.

Em uma minissérie de difícil retratação dos fatos (mais até do que a realização de sua produção), Waco se sobressai à maioria das séries da atualidade por conseguir alternar seus POVs entre todos os personagens centrais da trama, delegando tempos de tela o suficiente para que nenhuma verdade seja subtraída, alterada ou aumentada. Os letreiros finais do derradeiro episódio deixam isso bem claro, ao avançarem quase dez anos para trazer novas informações sobre o andamento do caso.

 

Jônatas Andrade

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