Cinerama: Hector Babenco – Parte 02

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Coração Iluminado (1)

Com indicações de Melhor Diretor e Filme nas costas, o Argentino Brasileiro estava em busca de novos projetos e o primeiro livro que leu em inglês o encantou: Ironweed de William Kennedy, ganhador do prêmio Pulitzer de literatura, e mostra a fria cidade de Albany, na Grande Depressão e suas pequenas criaturas, que ficaram à margem do sonho americano.

Ao tentar saber se mais alguém havia tido a genial ideia de adaptar o livro para a grande tela, se deparou com a figura de Joseph H. Kanter, um pequeno produtor que havia comprado os direitos há algum tempo, mas sem dinheiro para levar o projeto para frente só renovava a compra ano a ano, sem nem ao menos ter um roteiro em mãos. Quando Babenco o procurou, foi recusado: “Kanter disse que eu não tinha o calibre necessário para o projeto dele, então procurei o William Kennedy e falei que queria produzir o filme, que havia procurado o cara que havia comprado os direitos, mas sabia que ele não tinha a menor chance de produzir o material e então eu lhe disse: ‘Olha, o que vou te propor é quase indecente, mas vou propor: O cara que comprou os direitos não tem como te vigiar, como saber se está escrevendo uma versão do seu próprio livro ou não, certo? O que lhe proponho é: Já que você é roteirista, e eu quero fazer o filme, você pode escrever o roteiro, trabalhamos em cima do material e buscamos o dinheiro para fazê-lo. Se conseguirmos o dinheiro, já temos um roteiro e nos associamos ao Kanter, se não, ao menos se ele conseguir algo você já tem o roteiro’”. Babenco convence William a escrever um roteiro de forma ilegal e se põe a procurar dinheiro para o projeto. Nessa época, ainda tramitava o lançamento de algumas cópias de “O Beijo da Mulher Aranha” nos EUA, então, em uma dessas reuniões, onde se projeta o filme para alguns investidores colocarem “Uma graninha pras cópias”, Hector vai ao banheiro e encontra Jack Nicholson no mictório ao lado: “Foi assim que conheci o Jack Nicholson, ele perguntou quem eu era, eu disse que era um diretor da América Latina que estava lançando no mercado um filme chamado “O Beijo da Mulher Aranha”, ele disse quem era e que queria muito ver o filme. Me deu seu cartão e me disse para ligar para ele. Pensei que aquilo era como no Brasil, onde “me liga” serve para sair de uma situação sem parecer um mal sujeito, e ai eu nem dei bola, então uns amigos meus me disseram que quando um americano diz “call me”, e você não “call him”, isso é um problema seu, pois a secretária dele sabe que você vai ligar, provavelmente está com uma sala de exibição pronta pra você com um jantar logo depois, o que de fato estava, então eu liguei, assistimos ao filme, ele gostou muito, conversamoss por muito tempo e ele me perguntou o que eu estava fazendo, disse que estava trabalhando em “Ironweed” e ele pediu para ler o roteiro, já que adorava o livro”.

Não muito depois, o roteiro chegaria para Jack Nicholson, que amou a ideia e gostaria de interpretar Francis. O pacote parecia melhor, o projeto tinha Jack, o roteiro escrito pelo autor do livro que era vencedor do prêmio Pulitzer e com um diretor indicado a Melhor Diretor e que acabara de dar um Oscar para William Hurt. Nicholson se empenhou junto a Babenco e logo colocou uma produtora no projeto, ligou para um ou dois grandes magnatas que adoravam colocar dinheiro em filmes que iam para o Oscar e bum, o projeto estava armado com um grande elenco e um gordo orçamento: 27 milhões: “Fui contratado como diretor pela primeira vez, e teria um ótimo salário independente do filme ser um sucesso ou não. O cara que tinha os direitos ganhou uma grana e foi colocado como coprodutor do projeto, mas vivia enchendo, então comprei uma caixa de giz e em todas as locações eu fazia um risco onde começava e onde terminava o set, risco esse que eu chamei de “Kanter’s line”, pois se ele passasse a linha...”. Por sorte, Kanter nunca atravessou a linha, em contrapartida, Babenco ganhou ainda mais a admiração de Nicholson que adorou a postura do diretor que não só tinha um controle absurdo em todas as fases de produção do longa, como entendia cada uma das funções de set, extraindo o melhor de cada um: “Fazer filme nos Estados Unidos não é nem pior nem melhor, é diferente. Lá se tem um respeito muito maior com a figura do diretor e um grande zelo para com a sua função, mas no Brasil, embora não exista esse respeito, se pode imprimir o que se quer com muito mais solidez, assim como lá, as funções e seus departamentos tem bastante autonomia e muito cuidado com os detalhes, já aqui o diretor de arte é ótimo, mas seus assistentes não são tão bons, seu assistente de direção é bom, mas seus assistentes não e não dá pra fazer um filme com 6 pessoas, tende ser com 26”. Independente do processo diferente ou não, em sua primeira grande experiência com uma equipe totalmente americana – salvo seu diretor de fotografia, o parceiro de longa data Lauro Escorel – Babenco mostra, mais uma vez, predileção por tipos marginalizados, colocados de lado por uma sociedade que vive de aparências e aplaude apenas os bem-sucedidos. Vemos pessoas batalhando para ter o que comer, penhorando seus princípios para ter onde dormir, enfrentando fantasmas do passado e doenças que surgem em decorrência da precariedade, sem qualquer espaço para mensagens edificantes ou curvas dramáticas que nos aliviem um pouco a sensação de acompanhar uma tragédia social de duros efeitos pessoais. Hector nos mostra um cinema sem concessões para privilegiar o conforto do espectador, uma constância em sua obra até aqui.

Ironweed (1)

Estamos num entorno degradado pela grande depressão, pela falta de emprego, pela proliferação de moradores de ruas que lutam para sobreviver. Logo no começo do filme, Rudy, personagem de Tom Waits, miseravelmente comemora o diagnóstico de câncer, pois, segundo ele, é a primeira vez na vida em que de fato tem alguma coisa. Quem escuta a sentença é Francis (Jack Nicholson), homem assombrado por um evento trágico do passado, distante da própria família há mais de vinte anos, e que igualmente passa os dias bebendo e perambulando sem eira nem beira. Francis gasta qualquer centavo que consegue em doses de esquecimento momentâneo e reza somente para garantir um prato de sopa quente, nesta terra em que Deus parece distante, ou, ao menos, negligente. A desesperança rege Ironweed e o esmero da direção de arte garante a excelência da reconstrução de época e a verossimilhança da extrema pobreza dando uma fantástica credibilidade ao que se conta, ao drama das figuras que andam sem qualquer perspectiva de uma vida mais digna, torcendo para que a noite seja curta e o frio não castigue tanto.

Vida difícil para os personagens, vida difícil para o realizador: “Eu descobri que estava com câncer no sistema linfático e não contei a ninguém que estava doente, e continuei a filmagem. Me encontrava sempre com Meryl Streep para leitura do texto pela manhã, em um dia em particular, fui ao hospital tirar o líquido da medula óssea, um procedimento terrível, super doloroso, saí de lá cheio de esparadrapos e fui ler o texto com Meryl e cuidar dos assuntos do filme. Jack não sabia do meu câncer, Lauro não sabia, Meryl não sabia, ninguém sabia. Às vezes sentia-me tão mal no set que dizia que precisava de um longo final de semana no Brasil, então eu ia e me internava em um hospital para tentar me sentir melhor”. Diversos procedimentos se seguiram para cuidar da doença que foi diagnosticada ainda no começo dos anos 80 e se agravando gradualmente ao longo dos anos, mas a força característica de Babenco não deixou que ele se abatesse, e embora “Ironweed” tenha ido muito mal de bilheteria – por ter sido lançado em um momento delicado nos Estados Unidos, a quebra da bolsa novamente em 1987– o longa ganhou duas indicações no Oscar de 1988 - Melhor Ator para Nicholson e Melhor Atriz para Streep.

“Costumo brincar que ‘Ironweed’ me deu a chance de não trabalhar e cuidar da minha saúde na época e que ‘Brincando nos Campos do Senhor’– de 1991 – me deu uma casa”.

Projeto que desde 1965 fervilhava na cabeça de Saul Zaentz, os direitos do livro “Brincando nos Campos do Senhor” haviam sido comprados pela MGM, que nunca cedia às pressões do produtor de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”, até que no final dos anos 80 a produtora, passando por diversos problemas financeiros e sem condições de produzir o filme, vendeu os direitos para Saul por 1,4 milhão. Feliz e com um roteirista trabalhando no projeto, Zaentz começou a procurar locações, atores e é claro um diretor. Tendo entregado três obras primas uma seguida da outra, Hector chamou muito a atenção do produtor que logo fechou negócio: “Ele queria fazer o filme em outro lugar e etc., mas o Hector acabou fechando negócio com ele e o convencendo a rodar aqui no Brasil mesmo” lembra o, na época, assistente de produção Marçal de Souza.

Com um elenco de grandes estrelas e um orçamento de 36 milhões, um roteiro escrito por Babenco e Jean-Claude Carrière, começou a odisseia para encontrar as locações para o filme. Totalmente gravado no meio da Amazônia, o filme demandava uma logística gigantesca com transporte, alimentação, cenário, locação, deslocamento, escalação de elenco, fotografia etc., um desafio mais louco do que a história do próprio filme: “Voei mais do que muito piloto de avião. As locações eram muito específicas e tínhamos de desmatar algumas áreas, construir muitas do zero, e fazer um cenário desolado no meio da floresta – a cidade fictícia Mãe de Deus – é muito mais difícil do que se imagina” conta Marçal.

Brincando nos campos do Senhor (3)

O foco do filme é o índio de nossa Amazônia. Ainda que, de algum modo, se pense este personagem, nos dias de hoje, sob os moldes românticos, inseridos em um indianismo ideal, Babenco nos dá exatamente o contrário e nos mostra o índio cru, em sua essência, em sua inocência, em sua aspereza, em seu universo, que entende a maldade do “civilizado” e reage da única forma que pode, com violência, protegendo aquilo que lhe é de direito e que agora parece ameaçado e cada vez mais distante.

Deixando claro o abismo que existe entre a cultura do “homem branco” e do índio, o filme foca no choque político, religioso e cultural que se dá quando esses três fios desencapados, cada um com sua característica, se chocam. Cada um com seu Deus, os transes espirituais aparecem, no filme, como canais de interpretação da realidade, como outra forma de se chegar à verdade. O “inimigo” se revela a partir de um ritual. E todo esse rito – estranho e barrento – revela o abismo que há entre nós e o mundo indígena: “O cara chega na aldeia e quer obrigar o índio a tocar violino, porque é culto, porque é lindo, mas ele nunca ouviu o índio cantar, nem se interessa pelo que ele tem a dizer, um total desrespeito. O cara que quer ir pegar a terra do índio então, ele não quer nem saber que o índio existe, quer mesmo é a droga do ouro que o índio tá pisando em cima, ai o índio que está lá, cultuando suas coisas, vivendo sua vida, é atacado pelo que quer que ele vista sua roupa, pelo que quer que ele toque seu violino, pelo que quer que ele cultue seu Deus e se salve da perdição e pelo que quer mesmo é matar ele e pronto, tudo isso financiado por quem?”

Quando no filme uma criança branca morre de malária, os índios cantam e fazem seu rito e dizem: “Seu filho só vai descansar quando o inimigo dele morrer”, seu pai desconsolado diz: “O Que tem o pobre mosquito haver com isso?”. Será o mosquito o causador de sua morte? Será o mosquito o causador da morte de milhares de índios todos os dias? Será que nem o garoto branco e nem as milhões de almas índias nunca descansarão? O filme infelizmente é extremamente claro quanto a isso, afinal de contas, mesmo quem tenta ajudar, acaba sendo golpeado e até mesmo golpeando, uma série de ações e reações que leva para o mesmo final pessimista e infeliz, onde um lugar que leva o nome“Mãe de Deus”parece ser a total ausência de sua “glória” e sua “misericórdia”, fazendo dos Campos do Senhor um lugar de sofrimento e dor. Sobre a definição dos “culpados”, Babenco declarou: “Politizar ou declarar culpados é um caminho fácil e babaca.O melhor é jogar a batata na mão do espectador e de deixar ele entender as dores daquele povo e conhecer o problema e ele mesmo percorrer o caminho e descobrir o culpado, pois o filme, a edição das imagens já é clara o bastante, sabendo quem faz o que, contra quem e como”, e já na primeira imagem do longa, que se forma da escuridão, conseguimos detectar um dos culpados por tal destruição e sofrimento.

Apesar do conteúdo incrível e das belas imagens conseguidas por Babenco e Lauro Escorel, a longa duração e o tema difícil para os americanos, além da má distribuição fizeram do filme um fracasso retumbante, de eco assombroso recuperando menos de 2 milhões do dinheiro investido, ou seja, nem o valor de produção, nem o valor de pós produção e nem ao menos o valor investido em cópias e propaganda.

De saúde ainda frágil, Babenco passou dias difíceis durante a longa gravação em situações pouco confortáveis, mas seu mal se manifestaria de forma mais agressiva no meio dos anos 90, quando o câncer atingiu o líquido de sua medula óssea, o fazendo passar por um procedimento ainda mais doloroso e devastador do que as retiradas de medula anuais para o checkup: um transplante de medula óssea, que ocorreu em 1995. “Foi algo devastador, que me tirou toda a minha energia, minha vitalidade, estava morrendo e tive a consciência de que quando se está doente a morte não é algo que chega como o café das 9 da manhã. É um processo de desintegração, de desagregação do seu corpo. São doenças sucessivas que vão te deteriorando. E os remédios para combater essas doenças são os que vão te matando. É curioso entender que você morre do remédio, e não só da doença. O tratamento agride tão violentamente o teu organismo que chega um momento em que a ação do remédio é tão mais poderosa do que a ação da doença, e o remédio vai desacelerando o processo da doença, mas a doença não para, quando ela é de fato tão agressiva como é a minha. Naquele momento que eu estava quase morrendo em um quarto em Seattle, o que eu sonhava de fato era revisitar minha juventude, revisitar o homem que existia antes de eu chegar ao Brasil”.

Sendo quase um “milímetro de consciência”, Babenco visitava o inferno. Alimentado por mais de 40 dias por tubos e mais tubos, sem nem ao menos saber mais como era a textura de um alimento, tendo crises de temperatura que às vezes exigiam colocá-lo em uma banheira com gelo, Hector não era mais do que um corpo e uma mente debilitada, quando, em um dia em que parecia melhor, seu médico entrou em seu quarto e lhe disse: “Sr. Babenco, eu estou aposentado dessa instituição agora, mas quero te dizer duas coisas: nós aqui só acreditamos em ciência, só acreditamos em pesquisa. Eu tenho 82 anos, sobrevivi ao gueto de Varsóvia, sou órfão de pai e de mãe, fundei essa instituição – o Fred Hutchinson Cancer Research Center – e ganhamos o Nobel em 1985, mas sei pela minha experiência médica, que há duas coisas que podem ajudar as pessoas a sobreviver e para as quais eu não tenho nenhuma explicação: primeiro é o desejo de ainda querer fazer alguma coisa, a segunda, é que aqui não se luta contra a morte; a morte nós não conhecemos, o organismo luta pra ficar vivo. Porque todas as referências que o organismo tem são de vida, seja de dor ou de prazer. A memória de todo seu sistema celular é de vida, não é de necrosamento. Aqui se luta pra ficar vivo”.  A fala do médico fazia todo o sentido, mas além da força de seu organismo, a violência da doença mostrava a Hector seu desejo interno de reviver seu passado, mas como já diz um de seus personagens: “O Passado é como um bloco, não se pode quebrá-lo, dividi-lo” e para lembrar é necessário reviver, e para esquecê-lo, é necessário enterrá-lo e é sobre isso que fala “Coração Iluminado” de 1998, o filme que tirou Babenco da cama e o fez fazer o filme mais pessoal, impenetrável e humanamente louvável, falando sobre as entranhas de um relacionamento, sobre as entranhas de uma vida, sobre luz, trevas, escolhas, caminhos.

Em Coração Iluminado, Babenco direciona as câmeras para dentro de si e revela muito da alma e sensibilidade que permeia sua obra e a paixão pela arte que lhe é indissociável. Assim, Hector transfere lembranças ao seu espectador, num delicado e emocional pacto que só poderia ser criado no cinema.

Coração Iluminado (2)

Indicado à Palma de Ouro em Cannes, Coração Iluminado foi vaiado por seu público, que parecia mais comovido com a proximidade da sessão de estreia de Godzilla de 1998, exibido no encerramento do festival. Poucos concederam tempo e atenção necessários para acompanhar a dramática jornada de Juan Ludz, jovem que vive um romance com a bela Ana enquanto procura por seu lugar no mundo. 20 anos mais tarde, de volta a Mar del Plata, o então cineasta Juan confronta seu passado em busca de uma solução para seus medos e constantes lembranças de uma juventude turbulenta.

O relacionamento com a personagem louca em sua juventude e seu pacto de morte com ela aqui ganha sua homenagem, e o retorno do cineasta, que só tem filhas que falam outra língua e que vê seu pai morrer, mas não consegue ficar para seu enterro é o peso que Hector viveu: “Meu pai morreu, no pé da cama estava seus sapatos novos, mal eu soube da notícia e me despedi de minha mãe, pois no outro dia começavam os ensaios com Raul Julia e William Hurt. Meu coração pesou um pouco depois disso”.

Durante a rodagem do filme, Hector pode novamente visitar espaços que lhe eram comuns na juventude: “Como o restaurante “Ambos os Mundos”, onde eu costumava ir. Rodamos nele e quase todas as noites jantávamos nele. A comida continuava ótima e tudo me foi um processo muito doloroso e muito bom também.” Sem forças para nem abrir uma garrafa de água mineral, Hector passava muito tempo dentro de um furgão acompanhando as imagens pelo monitor. Diversas foram as vezes em que a produção parou por conta de sua saúde frágil, mas “Consegui imprimir tudo que queria no filme mesmo com minha condição reduzida e acabei o filme muito bem, chorando na areia da praia, pois pensava sinceramente que ia morrer ou durante a produção ou ao fim dela, tinha absoluta certeza disso, mas eu sobrevivi”.

Coração Iluminado carrega as reminiscências de um homem em busca de redenção por fantasmas de seu passado na Argentina, onírica e visceralmente. No primeiro ato melancólico e nostálgico, Juan enfrenta a chegada de sua vida adulta e a necessidade de fazer escolhas que definirão seu futuro. Na segunda metade do filme, ele olha em retrocesso para avaliar todas as suas decisões imutáveis, que se refletem essencialmente em seu primeiro e aparentemente único amor.

A partir das lentes irretocáveis de Lauro Escorel, a fotografia de Coração Iluminado é um dos principais atrativos do filme, que ainda guarda na direção de arte de Carlos Conti a bonita e afetiva reconstrução de uma Argentina que hoje vive apenas no passado.

Onde cada plano carrega muito de Babenco, é um filme que pode ser difícil para alguns, incompreensível para outros, mas certamente um filme extremamente verdadeiro, sincero e que brota de tão fundo de um realizador, que se torna uma obra única na filmografia do diretor, onde cada atuação, cada nuance convence, pois vem do fundo de um coração que é, em resumo, iluminado.

Ainda antes do processo da gravação de “Coração Iluminado”, Babenco passou a receber os cuidados do ainda jovem e não tão reconhecido Dráuzio Varella, que no final do anos 80 passou a fazer trabalhos como voluntário em uma das maiores bombas relógio que São Paulo e suas desigualdades sociais pôde criar: o Carandiru, presídio estadual superlotado, um dos maiores da América Latina, cercado por grades e casas e mais casas.

Nos anos 80 a AIDS devastava e ceifava milhões, mas o grande foco da doença em São Paulo era o Carandiru, lugar com altíssimos índices da doença e onde se pegava e transmitia sem se saber. Mortes aos montes eram normais pelo vírus. Economia pro Estado? Dráuzio em seu trabalho realizava exames de sangue, instruía de forma a difundir a doença e seus meios de transmissão para os detentos e é claro, servia de ouvidos para aqueles que há muito não eram ouvidos e, ao invés de reunir histórias tristes, sofridas, ouvia coisas do tipo: “Um cara chega pra você e pergunta: ‘Doutor, e não consigo matar. Só sei fazer isso desde pequeno e agora não consigo mais’. Eu digo que talvez aquilo seja culpa e ele me responde: ‘E tem remédio pra culpa, doutor?’ e eu digo a ele: ‘Se tivesse, todo mundo ia querer’. Me diz como esse dialogo ocorre num mundo real? O cara mata desde moleque, condenado a mais de 600 anos e me vem com uma dessa? São personagens incríveis, quase irreais!” conta Dráuzio, que ouvia centenas dessas histórias em suas segundas feiras de voluntário e as recontava para um moribundo Babenco, ávido por essas histórias, que se alimenta da força delas e incentivou Dráuzio a escrever um livro.“É claro que eu dizia isso, pois era o que eu realmente achava que ele deveria fazer, pois eram histórias incríveis, quase impossíveis de serem criadas por um escritor em situações normais, por mais criativo que ele possa ser”. Quando Babenco ansioso reproduzia as histórias que ouvia de Varella aos amigos, todos perguntavam: “Esse é seu próximo filme então?” e ele sempre respondia: “Não, já fiz esse filme” e realmente já havia feito, se chamava “Pixote”. Mas se levarmos em consideração uma brincadeira de Millôr Fernandes na época do lançamento do filme– “O que fazemos com o menor abandonado? Deixamos ele crescer, ora!” – somos levados a ver que “Carandiru” de 2003 fala sobre os garotos de “Pixote”, que não morreram e continuaram naquele único caminho previsível, esperado e sem glamour algum.

Carandiru

Quando perguntado sobre o porquê do livro, que finalmente foi publicado ao final dos anos 90 e vendera mais de 400 mil cópias, o próprio Babenco teve prazer em responder: “Porque há miséria humana e quando ela nos é mostrada como o Dráuzio nos mostra é algo libertador, pois podemos libertar dentro de nós aquela vontade de conhecer, de viver um pouco esse universo interessantíssimo da criminalidade, mas sem precisar pegar em uma arma, sem precisar estar preso, só sendo espectador mesmo". A frieza com que Varella nos conduz - algo que somente um médico poderia nos dar na literatura - nos intimida, mas também nos apresenta os detalhes que nos permitem debruçar e entender essas histórias de sofrimento, de aventura, de superação e de reorganização: coisa que também é um assunto forte no filme: Como é possível em um espaço para 10 pessoas, viverem 30, 40 e todos viverem harmoniosamente? Seria esse o Carandiru? “Digo com conhecimento de causa: No Carandiru existe muita violência na fala, na autoridade, na força, mas só quando alguém pisa na bola. Derramar sangue sem necessidade não é algo quisto por eles, por isso sempre digo: nenhum bairro de São Paulo é tão tranquilo quando aquele presídio. Quantos bairros de São Paulo podem dizer que passaram um final de semana sem uma morte, sem um assalto? O Carandiru pode”.

Através de pesquisas, Dráuzio conseguiu provar, junto a outros cientistas,a partir de pesquisas com macacos, que a necessidade e a falta de espaço físico não só fazem com que os homens naquela situação tenham de se organizar, mas tenham de se acostumar com a ideia de uma vida coletiva: “Onde você só pode evacuar uma vez a cada dois dias, na hora do banho de sol, pois se você evacuar no banheiro enquanto alguém estiver dormindo, o cheiro vai ser horrível e você vai levar uma surra filha da puta, e ai você condiciona uma necessidade biológica tua, em prol dos outros que estão naquele ambiente. É algo surreal, quase lírico, poético”. Com essas e outras certezas em sua cabeça, Babenco embarca em seu filme com maior número de personagens, de núcleos, de situações, de histórias, de vidas e de micro filmes, nos imergindo completamente na vida de cada um daqueles que estão ali. Eles fizeram coisas erradas, têm seus defeitos, estão supostamente pagando por seus “pecados”, mas que são tão humanos quando qualquer um de nós e estão ali, se sujeitando, se esquivando, se adaptando e tentando dar o melhor de si, encarando seus fantasmas, criando novos e se tornando outros.

Mais um filme que toca na ferida e mostra que nossa sociedade cria seus cancros, que precisa extirpa-los, mas não pode ter vergonha de mostrar, pois fazem parte de uma história de esquecimento, de problemas mal resolvidos e que acabam por gerar mais problemas. Qual o saldo que temos dos bem mais de 111 mortos na chacina de 1992? Muitos outros “Pixotes” que superlotarão outra grande cadeia de São Paulo? Será que uma chuva de balas e derramamento de sangue infectado resolve a questão e faz jus à fala de um personagem de “Lucio Flávio” que diz que “Bandido morto é segurança pra população e economia pro Estado?”, mais uma vez o filme é editado sem apontar o dedo, mas de modo que cada um pode montar suas próprias peças e encontrar os culpados por tanto sangue que encharca a sala de projeção de cinema. A câmera esperta de Babenco que aponta para o desfavorecido e acerta a audiência, um filme forte aos olhos sensíveis e que pode deixar sem dormir aqueles que entendem o simbolismo das imagens ali mostradas.

Sucesso de bilheteria, o filme virou até série na TV Globo, batendo recorde no horário nobre, fazendo de Babenco, depois de sua própria viagem ao seu inferno interior, voltar para o seu nicho, mostrando que apesar da idade, seu talento para apontar a lente certa para o lugar certo nunca esteve tão afiado.

Novamente em busca de mais um projeto, seu lado Argentino lhe puxa novamente ao ler o livro do ‘jovem velho’ Alan Pauls, que com seu “O Passado”, mostra para Babenco justamente aquilo que o livro tenta nos mostrar: que o passado pode perseguir as pessoas, fazendo Babenco novamente assumir sua capa Argentina, nos mostrando um belíssimo conto que funciona lindamente para mostrar aquilo que todos nós sabemos bem, mas relutamos a aceitar: O passado é algo grande demais para maquiar, grande demais para enterrar e forte demais para que simplesmente venhamos a dar as costas para ele, e existe forma melhor de mostrar isso se não através de uma história de amor/separação? Será a separação também uma história de amor?

O Passado (1)

O Passado é, talvez, o filme mais “religioso” de Hector Babenco. Por um lado porque apresenta a principal personagem feminina, Sofia como um Deus feminino: onipotente, cultuada por vários e censora das andanças do protagonista Rímini (Gael García Bernal)pelo mundo. Sofia usa como dogma o passado dela como ex-mulher de Rimini: “Uma série de experiências vividas por 12 anos que não pode ser jogada fora”, segundo ela. E a “bíblia” na qual estão escritos os mandamentos é uma caixa com fotografias. Rímini, a pedido de Sofia, teria de fazer a partilha dessas memórias, mas é contra, pois acha que não se pode dividi-las; ou seja, mesmo dando as costas à sua história passada, ainda assim ela se faz fisicamente presente, seja em um porta-retratos no qual ele estica a carreira de cocaína, seja na lembrança que os familiares têm dela ou mesmo na memória e na ausência que ele resiste em projetar em si mesmo. “O Passado”, esse dado onipresente, determina, portanto, a trajetória dos seres neste filme de 2007.

Cheio de ecos do passado, neste caso a própria filmografia de Babenco, “O Passado” cola as peças soltas da obra do diretor nos mostrando como o assombro de Sofia, a meio caminho entre o charme e a sina doentia ao longo do filme, não está distante do assombro do mendigo Francis (Jack Nicholson) em Ironweed, que, bêbado, deixa seu bebê cair do colo e mata acidentalmente um grevista, dois eventos que tanto o roubaram da família, como o lançaram na mendicância. No filme de 1987, Babenco fazia questão de nos mostrar literalmente os fantasmas que tumultuavam a paz daquele homem triste, e agora os fantasmas estão por dentro do corpo de Sofia: ela remete à fantasmagoria mais por sua onipresença e ruído nas relações de Rímini, que acaba tendo seu casamento e paternidade desmoronados graças à ação desta mulher do passado que desconstrói seu futuro.

Desde 2007, o argentino repousou seu modo “cineasta”, não nos entregando nenhuma obra. Tanto por problemas criativos: “Não consigo encontrar uma história que consiga contar com a certeza que contei as outras”, quanto por problemas financeiros e de viabilização da produção com os moldes vigentes: “O Estado é o pior parceiro em um filme que se pode querer”.

Se aventurando no campo do teatro, dirigiu duas peças de grande público com sua então companheira Bárbara Paz: “Hell” em 2010 e“Vênus em Visom” em 2014, que serviram “Pra tirar a poeira dos ossos. Se não dá pra fazer cinema, fazemos teatro então, ora. Tende botar o pão na mesa” brinca Babenco que já havia se aventurado no caminho teatral em 1988 com “Louco de Amor”, ao lado da também companheira na época, Xuxa Lopes e em 2000 com “Mais Perto”.

Projetos cinematográficos se amontoam: Um chamado “A Cidade Maravilhosa”, que ao estilo Babenco é uma espécie de paródia sobre o cinema Brasileiro, onde “Um grupo de personagens reinventam uma realidade miserável, onde o favelado é pago pra ser favelado, a menor prostituta é paga pra ser menor prostituta e tudo pra que uma turista americana enamorada por um rapaz compre uma casa para uma família imaginária. Um ‘filme dentro de um filme quase’”.  “Tiger, Tiger” história de uma moça que namora com um homem muito velho dos 9 anos aos 22 em que “é contada do ponto de vista da mulher que não é vítima. Nem da mulher que está ressentida. Nem da mulher que justifica algo que aconteceu. É um momento de vida. Foi assim. Sem culpa, sem certo, sem errado. É um horror? É. Mas aconteceu. Estou aqui viva, continuo minha vida”.

“Meu Amigo Hindu”, um dos projetos que tramita há mais de cinco anos e que vingou atualmente está em fase de pós-produção e é mais um filme falado em inglês e gravado em terras brasileiras, com Willem Dafoe e Bárbara Paz e que volta novamente para o campo interior do diretor, narrando uma história sua: “É um filme que nasceu de me perguntar onde estará aquele menino que foi meu colega de quimioterapia durante quatro meses quando ele e eu fizemos transplante de medula óssea. E ficamos os dois numa sala. Nós não falávamos a mesma língua e tudo era gestual, e ai um dia eu volto pro quarto e ele não está mais lá, pergunto dele e ninguém pode me dizer, aí eu nunca soube se ele morreu, se ele foi pra casa, se curou, eu simplesmente utilizo a ideia da procura dele para contar uma história, não estou preocupado em saber… Não é ‘searching for…’, não é ‘indo a Mumbai’, é outra viagem. É uma oportunidade pra contar outra história”.

Ainda sofrendo da doença que não o larga, mas que amansa, seu checkup sempre o tira do sério, mas na essência é o mesmo Hector forte e de uma sinceridade tão grande com as coisas que no fim sempre age da mesma forma com o que lhe acontece na vida. “Certa vez durante uma pesquisa de campo no Carandiru, vestido de jaleco branco e se fingindo de assistente do Dráuzio, ele se perdeu entre os corredores quando um forte apito se ouviu e sem mais nem menos se fui jogado e preso dentro de uma minúscula sala com mais oito ou nove homens, um deles negro, extremamente forte e sem camisa. A cela estava um ‘brinco’, mais limpa do que qualquer sala em muitos lugares respeitáveis. Colchões escorados e alinhados junto à parede, redes recolhidas e todos parados em um silêncio sepulcral: “Eu tava num puta cagaço e esse negão me olhando profundamente nos olhos, e aí eu me lembrei da única recomendação que o Dráuzio me deu, ‘Se te olharem nos olhos, não abaixe os olhos, nunca!’ e lá estava eu encarando o cara. Alguém me ofereceu uma limonada em um copo que era a coisa mais limpa e brilhante que eu já havia visto na vida. Tomei a limonada, agradeci, me armei de coragem e perguntei pro negão ‘Qual é?’”. Todos se observam e então o cara gigante e sem camisa abre a boca: “O senhor se incomoda de eu estar sem camisa?”. “Eu desmanchei. Desmanchei, não sabia o que fazer com as minhas pernas, pensei que aquele cara ia me comer, que ia me currar, mas não, ele preocupado com a camiseta, ai eu perdi a máscara. Quase chorei”.

Com essa aspereza, alma doce e coração gigante, que acolhe todos os seus colaboradores como se fossem parte de si, com abraços e o clássico: “Como que você tá, querido?” sabemos que Babenco vai continuar nos agraciando com obras que transcendem o cinema e suas limitações narrativas, afinal o que se faz com a alma, os olhos não veem, mas os poros sentem.

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