Shining Vale 1ª Temporada: A surpreendente série de mistério da Starz

Shining Vale é um seriado de terror e suspense que acompanha a família Phelps, que se muda para uma casa enorme e antiga a fim de recomeçar, uma vez que o passado assombra esses parentes. Protagonizado por Courteney Cox (a Mônica de Friends), o programa é capitaneado pela dupla Jeff Astrof e Sharon Horgan, e já nos primeiros momentos determina que o casamento da personagem central está em crise.

A viagem para Connecticut não ocorre à toa e a maior das conveniências é o preço baixo da mansão comprada, que além de caber no orçamento, também se tornou a desculpa perfeita para mudança de ares. O roteiro é bem direto e franco, não demora a determinar que o objetivo deles é apagar da memória a traição de Pat (Cox) ao seu marido Terry (Greg Kinnear), enquanto cada um dos membros da família tenta se reinventar.

O cenário da nova/velha casa parece macabro desde o primeiro instante em que aparece em tela, é grande demais enquanto lar de uma família de somente quatro pessoas, tão largo que lembram um hotel. A direção de arte de Elizabeth Cummings - que trabalhou em The Walking Dead - faz questão de referenciar a versão do Overlook presente no O Iluminado de Stanley Kubrick, inclusive reprisando nas cortinas o desenho do piso onde Danny corre com seu velocípede, mas também utiliza essa casa para fazer paralelos visuais com clássicos de assombração, especialmente, Poltergeist , além de Terror em Amityville.

O formato da série facilita a maratona, são apenas oito capítulos - devidamente renovada aliás para uma segunda temporada - com aproximadamente 30 minutos cada, normalmente, com menos até. A edição é rápida e torna a apreciação bastante divertida. A abordagem brinca bem com a possibilidade de sua personagem principal estar ficando insana, lidando também com a possibilidade realista de interferência espiritual.

As visões de Patrícia começam antes dela chegar, na estrada, a caminho de seu novo lar, determinando que era realmente seu destino chegar a essa residência, além de ligar a mesma a entidade que moraria ali.

Courteney Cox já havia feito um papel de escritora, a sua Gale Weather de Pânico era repórter mas também escreveu livros, e tentou até passear pela ficção tal qual Trish. No entanto, as coincidências param aí, já que Patricia não escreve true crime e sim histórias completamente ficcionais.

A personagem é humanizada, mostrada de como alguém que sabe de seus talentos mas que é bastante insegura, tal qual Terry, que mesmo tentando se apresentar como alguém decidido e resoluto, demonstra dúvidas, especialmente se deveria de fato ter se mudado ou se deveria ter dado uma segunda chance ao seu casamento, questões essas que se tornam subalternas quando todos tentam ajudar a mulher a se ocupar e a ter cabeça para voltar a escrever.

Shining Vale: Os fantasmas da série são reais? | Coxinha Nerd

Esse aliás é um dos bons motes da história. Trish recebeu um adiantamento de sua editora, Kam (Merrin Dungey), e já não manda nem sequer um rascunho há anos. O bloqueio criativo dela passa a ser desafiado, uma vez que ela sonha com uma mulher loira, de bela aparência e origem misteriosa, de nome Rosemary, interpretada pela icônica Mira Sorvino.

Rosemary vira a musa, e passa a guiá-la rumo a uma nova história. Suas aparições começam tímidas, em sonhos, e vão gradativamente aumentando e ocorrendo quando ela está acordada também.

Aos poucos, é mostrado que os Phelps têm problemas além da indiscrição matrimonial da mulher. A esposa tem um passado alcoólatra, e ambos pararam de beber para tentar solucionar a questão, e em determinado ponto, as recaídas passam a ser algo importante, como uma possível explicação para as visões da mulher.

Outra questão que ajudaria a esclarecer os devaneios estão relacionados a Joan, mãe de Patricia, feita por Judith Light, que tem um histórico de abusos de substâncias tarja preta, além de uma evidente hipocondria. Fica patente que as duas não se relacionam bem entre outros motivos graças a essa questão.

A mera descrição dos elementos de terror ditas aqui não faz jus ao roteiro. Horgan e Artof escrevem de maneira divertida, com os personagens transbordando carisma e personalidade. É fácil se importar pelos dramas do casal de protagonista e pelas desventuras da filha mais velha Gaynor (Gus Birney), assim como com o caçula Jake (Dylan Gage), que usa os jogos eletrônicos como fuga da sua própria realidade.

A configuração da família foge dos padrões e clichês, eles são pessoas de carne e osso, com defeitos pontuais e fragilidades de fácil associação. As atuações também estão ótimas, sobretudo com Sorvino, que faz um papel que ao mesmo tempo assusta e seduz.

Mira Sorvino had 'so much fun' haunting Courteney Cox on 'Shining Vale' | EW.com

Cox está muito bem também, tem um desempenho bom e que é inflado pelas boas sacadas no texto, que produzem em sua boca ótimas tiradas irônicas. A variação entre a mãe que tenta ser perfeita apesar dos problemas mundanos, quando na função de artista travada, quanto no papel da mulher com severos problemas de aceitação de quem é e do que fez.

Fisicamente a atriz também está melhor, claramente vai se recuperando das muitas cirurgias plásticas que fez, conseguindo expressar mais emoções do que antes fazia. A diferença daqui para os filmes que ela fez nos últimos anos é gritante.

Na parte técnica, o seriado conta somente com diretoras. Alethea Jones faz 3, Liz Friendlander dirige dois, Catriona Mckenzie também faz dois e Dearbhla Walsh conduz um. Mesmo com um quarteto, se percebe uma unidade visual e temática, fato que corrobora com a crença nesses mistérios e com os mini dramas vividos pela família e demais pessoas que orbitam esse mundinho.

O programa também abusa de referências. A casa dos Phelps se localiza em uma Rua Elm, tal qual em A Hora do Pesadelo, e há um sem número de sustos falsos, mas que são tão bem encaixados, que soam irônicos.

O maior drama é o receio da protagonista de enlouquecer.

Trish tem medo de repetir os surtos psicóticos de sua mãe, mas vendo a possibilidade de que sua família sofra problemas financeiros, ela simplesmente mergulha na inspiração malévola que lhe é apresentada, mesmo que isso pareça ser um caminho sem volta.

O capitalismo tem suas formas de impor o terror, mesmo em grupos de pessoas mais "abastadas".

Shining Vale review: Courteney Cox brings her A-game in delicious horror comedy | Web Series - Hindustan Times

No entanto o que mais determina estranheza em Shining Vale são os pequenos e sutis sinais de Jake, Gaynor, Terry e Pat. Mesmo semanas após a mudança, eles não se esforçam para reformar a parte interna da casa, nem mesmo os degraus para o andar de cima que estão tão gastos que parecem que vão cair. Esse simbolismo fala bastante.

Eles odeiam a mansão, odeiam os novos dias nela, também não parecem gostar da companhia mútua, mas cada um deles é incapaz de brigar mesmo em momentos de crise, o que sobra são piadas internas e alfinetadas, que vão ficando mais cruéis com o passar do tempo.

Mesmo que haja tempo de tela para cada um dos Phelps - e espaço para vizinhos e conhecidos deles - o arco mais brilhante e desenvolvido é o da relação de Pat e Rosemary, "amizade" essa que mistura possessão e dependência mútua, que chega ao cúmulo de ter um charme próprio, mesmo se assemelhando a uma escravidão imposta de uma para a outra, variando entre quem causa o mal em quem.

Shining Vale equilibra bem as tiradas cômicas e as cenas com aparições, tem um gore bem feito e embora abuse demais de efeitos em CGI, o que se vê é bem executado, ainda mais considerando o orçamento para a TV. Seu final dá conta de novas camadas de exploração e se esperam novas e boas dinâmicas, desse conto de comédia assustadora e macabra.

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