Perigo Próximo é um filme de temática natalina que mistura elementos de suspense, invasão domiciliar e um pouco de horror, sendo esse um tempero que é impostor tardiamente em sua duração.
De premissa simples, a história versa sobre a noite em que uma babá cuida de um menino e vê a casa sofrendo toda sorte de infortúnios, incluindo aí clichês do subgênero conhecido como Home Invasion.
Conhecido por um dos seus nomes em inglês, Better Watch Out (trecho de uma famosa canção natalina) é um longa-metragem de Chris Peckover cujo elenco é capitaneado por Olivia DeJonge, Levi Miller e Ed Oxenbould, além de conta com participações de Virginia Madsen e Patrick Warburton.
Há quem compare ele com Esqueceram de Mim, especialmente por ter como centro das atenções um personagem infantil, que vê sua casa sendo adentrada.
A história se passa na época do feriado de 25 de dezembro. O casal Deandra e Robert Lerner decide sair e chamam sua babá de confiança, Ashley, para cuidar do filho deles de 12 anos. A noite que deveria ser tranquila acaba sendo muito conturbada e um bocado macabra, já que inclui vários momentos violentos e inesperados.
Dirigido por Chris Peckover, o filme tem argumento de Zack Kahn, com roteiro de Kahn e Peckover. Foram produtores Sidonie Abbene, Brett Thornquest, Brion Hambel, Paul Jensen, enquanto Shane Abbess, Lorenzo De Maio e Steven Matusko foram produtores executivos.
Estreia em festivais
Esse foi uma produção entre Austrália e Estados Unidos e teve um lançamento curioso, já que primeiramente chegou ao circuito de mostras e festivais nichados dos Estados Unidos.
Passou em 22 de setembro de 2016 em uma premiere na Fantastic Fest. Em outubro de 2016 passou no Sitges International Fantasy and Horror Film Festival, na Itália passou em Torino Film Festival em 20 de novembro de 2016. Na Austrália passou no Monster Fest em 27 de novembro, na Áustria chegou ao Slash Filmfestival.
Em junho de 2017 passou no Seattle International Film Festival, em setembro passou no português MOTELX - Lisbon International Horror Film Festival, no Brasil no dia 1º de janeiro de 2018.
A confusão dos nomes
A obra foi era para se chamar Safe Neighborhood (traduzido seria algo como Bairro Seguro) e passou assim em boa parte dos festivais citados.
O título original para o cinema foi Better Watch Out, na Bulgária é По-добре внимавай, na República Tcheca é Dej si pozor!, na França é apenas Watch Out, na era chamado de Better Watch Out e Scary Christmas como título alternativo.
Na Eslováquia era Pasca na zlodeja, na Sérvia era Bolje pazi e em Portugal era Perigo Próximo.

A pré-produção ocorreu entre 2015 e 2016, enquanto as filmagens foram entre janeiro de 2016 e fevereiro do mesmo ano, com gravações na Austrália nos Disney Studios, em Moore Park, Sydney na Nova Gales do Sul.
Trabalho para parecer legítimo
Apesar do cenário ser todo feito para parecer uma típica casa americana, os cenários foram construídos com maçanetas de 1,44 m (4'9") baseado em uma casa australiana antiga, que o diretor Peckover brincava que essa não foi uma fonte de inspiração e sim uma "fonte" de distração e frustração.
É dado entre fãs do filme que a localização da história não é grande, mas certamente não é Pittsburgh, PA, pois a babá/personagem principal diz que está se mudando para lá.
O cenário do filme era em Sydney e como ele foi rodado em janeiro, no auge do verão do hemisfério sul, a equipe de produção teve que criar neve falsa o suficiente para que a casa parecesse estar no meio de um inverno do norte dos EUA.

Estúdios por trás foram Storm Vision Entertainment, Best Medicine Productions e Eclectik Vision, distribuído pela Rialto Distribution na Austrália, na Well Go USA Entertainment, no Reino Unido foi lançado pela Universal Pictures Content Group. Em 2022 foi lançado na tv australiano pela 7flix.
Quem fez:
Chris Peckover dirigiu o curta Alive and Well e o longa Não Documentado. Trabalhou no roteiro do curta The Racewalker e foi consultor de roteiro no seriado Um Lobo Como Eu.

O diretor Christ Peckover e sua estrela, Olivia DeJonge, em cena de bastidor.
Zack Kahn escreveu episódios nas séries Sketchy, Mad e no seriado Suburban Screams que teve apresentação de John Carpenter. Atuou em Coisas do Amor, Shades e Joe Sujo 2. Foi produtor no curta Mouse in My House e produtor associado em Doin'My Drugs.
Thornquest produziu The Jungle, Infini, Terminus, Navio de Sangue e Inferno Sangrento. Hambel produziu Natural Selection, A Rota de Colisão, Afraid (2018) e Insanidade.
Abbene produziu Infini, Ficção Científica Volume Um: O Legado de Osíris, também foi produtor executivo em Terminus. Jensen produziu Natural Selection, A Rota de Colisão, Insanidade e Iké Boys. Foi consultor de produção (o termo original é consulting producer) em Bull.
Narrativa:
A câmera viaja pela vizinhança onde a história se passa. Mostra crianças montando um boneco Jack Frost, brincando com bolas e flocos de neve, antes da câmera chegar até a casa dos Lerner.
Antes de mostrar esse que seria praticamente o único cenário do filme é mostrada a menina que é a protagonista, a garota final, Ashley, interpretada pela já citada Olivia DeJonge, que vinha de obras como A Irmandade da Noite, o surpreendente A Visita de M. Night Shyamalan (onde contracenou com Ed Oxenbould). Recentemente ela interpretou Priscila Presley em Elvis.
A garota dirige apressada, também atende a uma ligação segundo o volante, em seus diálogos revela que está saindo da cidade, esse é um dos seus últimos dias, já que vai para Pittsburgh.
Essa situação causa no menino que será cuidado um senso de urgência, já que essa é uma das últimas oportunidades para que Luke encontre com ela. Dessa forma, ele resolve pôr em prática um plano que faz pouco sentido, mas que para ele, dará certo.

Na casa da família Lerner também são apresentados os pais do menino, no caso, que são os únicos dois únicos atores norte-americanos, Virginia Madsen e Patrick Warburon. O resto do elenco, incluindo os adolescentes, são todos locais, ou seja, são australianos.
O grupo familiar
A caracterização da família é curiosa, breve, mas repleta de características únicas. O pai dele, Robert, é mostrado como um homem bonachão, feliz em ser obediente a esposa, mas sempre pronto a fazer alguma piada. Warburton, que tem experiência com cinema de gênero em Pânico 3 e MIB: Homens de Preto II.
Ele organizou uma noite fora com a mulher, possivelmente para conseguir estar em lugar menos controlado por ela.
Já Deandra é interpretada pela icônica Virginia Madsen (O Mistério de Candyman, Anjos Rebeldes e Evocando Espíritos) e está quase irreconhecível - ainda mais se comparar com os papéis citados acima - mas segue bela.
Ela faz uma mãe de comportamento passivo agressivo, que gosta de mandar, que reclama de andar sobre o carpete, sendo absolutamente rígida não só com o filho mas também com o marido.
Já Luke é feito por Levi Miller, o menino australiano que interpretou o personagem-título no filme Peter Pan de 2015, também esteve nas série Terra Nova e Supergirl. Nos anos posteriores, esteve em Uma Dobra no Tempo, Linhas Opostas e Heróis do Amanhecer.
Características singulares à parte, a verdade é que os pais são bem caracterizados como pessoas que estão cansadas, após todo um ano passado, mas mesmo em meio a pressa, demonstram que amam bastante o menino, especialmente a mãe dele, que mesmo sendo rígida, faz questão de abraçar e de mostrar que o seu instinto de super correção.
Sua necessidade de controle faz ela parecer uma mulher protetora ao extremo, mas é também uma manifestação de amor e carinho, indiscutivelmente.

A quase escolha de "Selena"
Vale dizer que o papel de Ashley quase coube cantora pop Selena Gomez. A cantora já queria embarcar na função de atriz, anos depois faria a série de sucesso Only Murders in the Building.
Ela teve acesso a detalhes da trama e estava interessada em interpretar o papel de Ashley, mas em cima da hora ela optou por se concentrar na sua "Revival Tour" e não pôde participar.
O "grupo" reunido
Além dos personagens citados, se destaca também o simpático, divertido (e covarde) vizinho Garrett, de Ed Oxenbould, que tenta demover Luke da péssima ideia de tentar flertar com a babá naquela noite, já que o menino deseja ficar com ela, alegando que eles têm apenas cinco anos de diferença, a mesma diferença de idade dos seus pais.

Curiosamente Luke tem certa razão, ao menos no que tange a idade dos interpretes. Olivia DeJonge tem apenas quatro anos a mais que Levi Miller e a essa altura, em 2024, a diferença entre ambos é mínima.
Para uma criança, dois anos já é uma diferença física absurda, que dirá quatro ou cinco.
O plano do menino é bem básico, ao menos no nível superficial.
Ele pretende deixar a babysitter tensa, vendo com ela um filme de terror. Na TV é o curta-metragem de 2011 The Bind de Michael Chrisoulakis. Enquanto estão juntos, Luke tenta forçar um beijo nela, enquanto ela ouve alguns barulhos estranhos, que não ficam claros se acontecem dentro ou fora da casa.
A coragem do jovem
Além de ter que lidar com um garoto querendo beber, Ashley ainda testemunha a bravura de Luke, que tenta se provar para ela como uma espécie de macho alfa.
A todo momento ele tenta se mostrar como um ser corajoso, mas acaba parecendo tolo em boa parte do tempo.
Para piorar a ansiedade da jovem, ela ainda recebe ligações de alguém ofegante, em trotes que lembram os que eram feitos pelo serial killer Billy, do filme de terror canadense Black Christmas: Noite do Terror.
O susto falso
Quem fazia os barulhos era Garrett, o vizinho que retorna a casa do amigo no meio da noite.
Depois de perceber que não havia nada demais acontecendo, Ashley se junta aos dois meninos e os três vão para o andar de cima verificar o que há, já que se ouve outro barulho, dessa vez sem Garrett.
Eles vão juntos, porque sendo um trio é mais difícil um possível assassino atacar, já que essa é uma regra básica dos Filmes de Matança ou Slasher Movies.
Sinais sinistros:
Quando chegam ao patamar mais alto da casa, eles encontram um tijolo, que foi jogado do lado de fora para quebrar a janela. Haviam palavras nele, onde se lia que seria impossível fugir.
Sabendo disso, o menino Garrett tenta sair pela parte da frente da casa e é alvejado, leva um tiro que pelo barulho, parece ser de tranquilizantes.
Desesperada com isso, a babá corre para dentro, esbarra em Luke e o derruba, ficando em cima dele, de uma maneira quase maliciosa, ao menos de acordo com a vontade do menininho.
A impressão que fica é que talvez haja algo armado ali, provavelmente pelo jovem Lerner e a história se descortina a partir daí.
Não demora até que esse se torne um filme de Home Invasion, os famosos filmes de invasão domiciliar, que normalmente se dão em cenários suburbanos, como esse. Fica ao lado portanto do clássico Quando Um Estranho Chama de 1979, Hush: A Morte Ouve, Eles, Temos Vagas, Os Estranhos, Dominados Pelo Ódio etc.
Sessão com spoilers:
Falaremos agora sobre algumas das viradas do roteiro. Para isso, avisamos que haverá spoilers.

Após terminar a primeira meia hora, Ashley descobre o ardil, percebe que foi Luke quem idealizou todo aquele ataque.
A partir daí a coisa escala velozmente. O filme deixa seu lado de suspense de lado e se assume como uma fita de horror, incluindo momentos bizarros e assustadores, como cenas de uma criança apontando uma arma para uma adolescente.
Sobre a construção visual, é legal que os dois atores parecem ter idade juvenil. Miller tinha em torno de 16 anos e DeJonge tem 20 anos. Isso dá credibilidade ao drama, que melhor evidentemente graças a entrega da dupla,
Além disso, o ambiente da casa é bem encaixado, toda a construção do cenário é bastante verossímil.
Uma vez que os segredos são revelados, fica ainda mais evidente que esse momento poderia se passar em qualquer outra data, festiva ou não, poderia ser em um da comum, onde os pais da família saíram para ir ao teatro ou a outro evento social.
Tirando uma ou outra luz de natal que enfeita a casa ou serve de corda para prender Ashley, seria possível que esse se passasse na Páscoa, dia de Ação de Graças, Corpus Christi etc.
Durante o "rapto" o menino faz chantagens, é inteligente e astuto, mas Ashley é esperta também, conhece ele e entende a cabeça de meninos de sua idade, afinal, é babá há muito tempo.
Ela tenta dividir o grupo, entregando segredos de Luke, como quando ele matou o hamster do amigo Garrett, inclusive deixa claro que o personagem de Miller sentiu prazer em matar o animal. Sensibilizando o amigo do rapaz, ela planta dúvidas na amizade dos dois.
Não fica claro se ela blefou ou se disse a verdade, mas se falou, esse é certamente um bom sinal de possível psicopatia do rapaz.
Logo aparece um dos ex-namorados de Ashley, no caso, Ricky (Aleks Mikic). Depois de vasculhar a casa, ele cai na emboscada do menino.

Com o casal amarrado em cadeiras, os jovens discutem sobre fuga, assim que estão sozinhos. Ricky se urina, não fica claro se foi proposital, para tirar Luke do ambiente ou se foi por estar apavorado, já que está sob a mira de uma arma, mas isso funciona, já que o menino realmente sai, demonstrando também que é obcecado por limpeza.
De qualquer forma, quando ele se suja faz Luke se distrair, saindo do lugar para arrumar luvas e panos para limpar a sujeira. Isso ajuda a compor o personagem do menino, que tem manias e é metódico.
Essas caracterização seriam importante depois.
A virada no estilo Anjo Malvado:
Com uma hora passada, o garoto resolve aprontar uma pegadinha com uma lata de tinta amarela, que está em cima do corrimão, perto das escadas internas da casa.
Luke brinca que quer jogar ele sobre Ricky, imitando uma das formas que Kevin McAllister de Macauly Culkin em Esqueceram de Mim. No meio dessa celeuma, Ash consegue enfim se soltar, pega para si a pistola dos Lerner e aponta para o menino, para que ele não solte o balde de tinta.
Quando se vê na mira da arma, o rapaz entra em desespero - ao menos é o que ele quer fazer para si - solta o objeto que, diferente do filme noventista, tem consequências fatais.
Não é mostrado nada, só se percebe o impacto quebrador pelo barulho e pela mistura de tinta amarela em cor viva se misturando ao sangue. Como não se mostra o evento real, a reação dos personagens ao ver aquilo é brutal.
É muito sinistro, especialmente pelo fato de que Luke mal reage, parece ter tudo controlado e calculado, ele pensou naquilo, tanto que a arma estava sem munições. Ele sabia disso, age como outro personagem de Culkin, no caso, Henry Evans de Anjo Malvado, obra de 1993, mais voltada para o terror, suspense e drama, mas igualmente assustadora, tanto quanto essa, já que ambas pervertem o conceito de ingenuidade infantil para mostrar a infância como a habitação da maldade e malícia também.
Alternativas para escapatória
Outras alternativas de salvação para Ashley quase ocorrem, mas não se tornam reais, como a chegada de Jeremy (Dacre Montgomery) outro ex-namorado da menina
Luke chamou ele por telefone, ou seja, esse foi um alvo premeditado. Seu fim é pesado também, ele acaba enforcado, sob o olhar de um dos gatos pretos do vizinho.
O rapaz é adjetivado como canalha (scumbag) no original, mas parece estar de fato apaixonado de Ashley. Ele perece segurando uma carta de amor para ela.
Montgomery ficaria famoso por Stranger Things anos depois e sua forma de vestir parece a do meme do Scumbag Steve.
Um momento inesperado
Mesmo falando com spoilers, há alguns trechos que esse crítico acha melhor não citar. Dito isso, há um momento no final, uma reação de Luke, que demonstra o quanto que Miller é bom ator mesmo sendo tão moço.
O garoto é antipático, é chato, calculista e esperto demais para a sua idade. Gosta de cultura pop, até imita o personagem Alex de Laranja Mecânica, fazendo a mesma dança que o adolescente criminoso do filme de Stanley Kubrick fez.
Também aparece desesperado, com a alma em frangalhos, depois de reagir de maneira nervosa a algo que para ele altera o sagrado e o idealizado. Se é difícil de simpatizar com o personagem, é impossível não se impressionar com o talento do interprete.
Os últimos momentos contêm violência, mais viradas e a demonstração cabal de que o filme trata de um rapaz frio, possivelmente sociopata ou psicopata.
Mostra também que apesar da arrogância e tentativa de cobrir todos os rastros, ele é um menino, ainda se trata de uma criança tentando parecer madura, tentando agir como um homem e por isso, há fragilidades nos planos que concebe.
Sobre o garoto, é dado a sua motivação é fraca e fútil, como aliás é comum com crianças. O filme vale muito por seu final e pelas viradas, que compensam o início pouco movimentado.
É uma obra surpreendente no quesito violência gore e surpresas. Tem o componente da dissolução da inocência infantil como fonte primária do horror, mas perde força diante das fragilidades do roteiro.
Perigo Próximo é surpreendente, curiosamente consegue ser contido ao mesmo tempo que é audacioso, justamente por tentar se mostrar como algo restrito a um cenário tão curto e a ações dentro de uma pequena esfera de pessoas.










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