O Padrasto e A Volta do Padrasto: A ilusão do doce lar americano

Dia dos Pais | O Padrasto e a ilusão do doce lar americanoNesse domingo de dia dos pais, trazemos a análise de O Padrasto, filme de suspense e horror bem peculiar, dirigido por Joseph Ruben e protagonizado pelo icônico Terry O'Quinn. A trama gira em torno de um homem aparentemente respeitável, que entra em uma família, dizima seus membros e depois pula para outra, a fim de fazer o mesmo.

O início da história é bem curioso, pois passeia por um cenário suburbano super comum, e logo depois enquadra o futuro John Locke de Lost se limpando e barbeando, jogando ralo a baixo uma boa quantidade de sangue, cabelo e barba.

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A câmera não demora a ir para o andar de baixo, onde uma verdadeira chacina ocorreu. Os membros de sua última família estão estendidos, dilacerados não só por golpes de armas brancas, mas também pelo desprezo e frieza do serial killer que um dia assumiu aquela família como sua.

A história tem argumento de Carolyn Lefcourt, Brian Garfield e Donald E. Westlake, com roteiro deste último. É vagamente baseada na vida de John List, um sujeito pacato que entrou em desespero após se ver sem condições financeiras de bancar a mansão recém comprada, já que havia sido demitido. Ele então decidiu matar toda a sua família, sua mãe de mais de oitenta anos, mulher e filhos.

O sujeito foi encontrado dezoito anos depois, através do programa America's Most Wanted, fez uma matéria relembrando o caso e mostrou um busto de como John estaria após todo aquele tempo.

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Outra referência clara é a obra que Alfred Hitchcock lançou em 1943, o pequeno e subestimado A Sombra de Uma Dúvida, onde um tio da protagonista é um assassino malvado e age como se matar pessoas não fosse algo aterrador e anormal. Também se percebem referências a outras obras do mestre do suspense, como Pássaros, Psicose e até Topázio.

Uma passagem de tempo ocorre, agora O'Quin atende pelo nome Jerry Blake, e sofre para agradar sua enteada, a jovem Stephanie Maine, interpretada por Jill Schoellen, que havia feito participações na série Carro Comando, também participou do telefilme Frio Corpo sem Alma de Wes Craven e anos mais tarde faria filmes B de horror como Assassinatos no Colégio, Curse II: The Bite, O Fantasma da Opera com Robert Englund e Popcorn: O Pesadelo está de volta, tudo isso num espaço entre 1989 e 91.

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Stephanie teve questões no passado, a morte de seu pai foi para ela um baque, e se percebe fotos dele por todos os cômodos comuns a menina. Ela faz terapia e não esconde o descontentamento de ver sua mãe, Susan (Shelley Hack) dando abertura a um desconhecido como Jerry, mesmo que o sujeito se dedique a criar um laço sentimental com filha.

O sujeito se esforça para ser o ideal da figura paterna postiça até dá um cachorrinho para ela, mas basta qualquer palavra dele para desestabilizar a moça completamente.

Ela chega ao cúmulo de agir como uma bully briguenta exclusivamente por conta de um pedido dele para que ela se comportasse na escola.

Jerry é enquadrado sempre próximo de pássaros, especialmente de águias, que são signos de predação, tal qual ocorria com Norman Bates em Psicose. Seu espaço particular aliás é repleto de simbologias bem pensadas, ele mantém uma foto da família Maine perto da caixa de ferramentas, ao lado de vários objetos pontiagudos e possivelmente letais.

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Na sua mesa dentro da corretora de imóveis onde trabalha há estátuas de águias e miniaturas de casas, o tempo todo símbolos de caça e de cuidado se misturam.

Além disso, ele usa os jornais que noticiam seus crimes como base para dobraduras e origamis, trazendo novos significados ao anúncio dos seus pecados, trazendo enfim objetos novos que resultam em algo lúdico, semelhante demais ao comportamento do tio Charlie Oakley de A Sombra de uma Dúvida.

Um bom aspecto do longa metragem é o uso da música. Composta por Patrick Moraz, tecladista do Yes. Sua composição ajuda a pontuar tanto a tragédia sangrenta do passado de Blake como a confusão mental de Steph, e apesar de parecer meio genérica e cheia de sintetizadores, fomenta positivamente as expectativas de uma história sangrenta.

Não demora a aparecer Jim Ogilvie (Stephen Shellen), o irmão de uma das vítimas anteriores do vilão, que faz uma investigação por conta própria sobre o paradeiro do sujeito, até tenta a ajuda de um repórter que esteve na casa de sua irmã, Oli. Dia dos Pais | O Padrasto e a ilusão do doce lar americano

A identidade usada pelo Padrasto na época era Vick Morrison, e a partir daqui fica claro que ele se prepara bastante, modificando não sua aparência, mas também nome e até profissão, embora seu raio de ação seja curto o suficiente para ser procurado facilmente como é. Resta a dúvida se parte de sua tara é o risco de ser pego.

Na parte central da trama, Jerry tem surtos, age de maneira agressiva no porão. Enquanto ninguém o observa ele se permite falhar, dando vazão as suas fragilidades e as dúvidas que permeiam sua tentativa de disfarce. Ele acaba mostrando sua face raivosa, distante da hipocrisia típica de comercial de família feliz que ele interpreta na maior parte do tempo.

Sem as amarras sociais ele quase é pego por Steph, que convenientemente vai até o porão pegar sorvete no exato momento de descontrole do homem, passando então a suspeitar ainda mais do personagem, quase chegando ao âmago desse fingimento.

Ruben tem uma carreira curiosa, fez a comédia As Garotas de Pom-Pom, depois migrou para o terror com Morte nos Sonhos, O Padrasto e nos anos noventa se focou em thrillers, como Dormindo com o Inimigo e O Anjo Malvado, além do drama sci fi Os Esquecidos.

Nessas obras se percebe que o foco da desconstrução da magia e construção do medo é o núcleo duro familiar, pais e mães preocupados com seus filhos, com a integridade de seus parentes mais próximos.

Mas é nesta obra que Ruben destila sua criatividade e boa construção de atmosfera. Momentos simples, como a investigação paralela da polícia, que deveria ser apenas um adendo ao filme, ganha vulto e muita importância, protagonizada pela única figura masculina respeitada por Stephanie, o doutor Bondurant.

O psicólogo interpretado por Charles Lanyer tenta se aproximar de Jerry, mas percebendo o quanto ele fugia de uma conversa e o quanto era escorregadio, decide fingir que vai comprar uma casa, usando um nome falso. No encontro há dois sujeitos que fingem ser o que não são, com o mais experiente conseguindo êxito, obviamente, já que é um predador mais preparado para esse tipo de embate.

A briga que ocorre é bastante agressiva, com pauladas consecutivas que levam o vitimado ao desespero ao perceber que mesmo com um espaço demorado entre os golpes, a morte seria inevitável.

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Com o decorrer da trama, Jerry se descontrola, chega ao cúmulo de acusar um namoradinho de Steph de estupra-la, fato que não ocorreu. Confrontado, ele lembra que ela tem apenas 16 anos, mas não percebe que o rapaz tem a mesma idade, no meio do torpor desesperado, ele só quer parecer um pai zeloso, quando não é, obviamente.

O filme se aproveita de calvície crescente de O'Quinn para montar seus disfarces. Em alguns pontos fica difícil levar a sério as tentativas dele de se diferenciar, mas em boa parte dos disfarces ele de fato parece outra pessoa, o que pesa contra ele é seu raio de ação curto, como ele não viaja muito entre o emprego de uma nova identidade, não seria difícil rastreá-lo.

Ele se prepara para assumir uma terceira versão, agora como Bill Hodgkings, mas cai sobre atos falhos, acaba tropeçando na própria arrogância e se demite antes de mudar de vida, troca o próprio sobrenome, se traindo antes de conseguir seu intento de matar a família Maine.

Não fica exatamente claro se essa questão é fruto de engano ou se parte do ritual de matança do sujeito passa por ser pego na contradição e na mentira, talvez ele sinta prazer em ser desmascarado antes de cometer seus crimes, o que fica claro é que ele é um sujeito doentio, com um instinto psicopata e predileção pela violência, e ao menos até encontrar Stephanie, que sempre o viu com maus olhos, vinha tendo êxito.

Dia dos Pais | O Padrasto e a ilusão do doce lar americanoHá uma continuação, feita em 1989, chamada A Volta do Padastro. O histórico é quase o mesmo do primeiro, com o agravante da perda do efeito surpresa, além de uma história burra, que trata uma da identidade de "Jerry" do vilão como o real nome do padastro.

No início até parece que o longa dirigido por Jeff Burr (Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3) acrescentaria a mitologia, com uma boa sequência dele em um sanatório, lidando com uma crise existencial, fingindo que está se reabilitando, trabalhando com marcenaria e fazendo as mesmas miniaturas de casas presentes no longa de 1987.

A sequência estrela Meg Foster, Caroline Williams (a musa Stretch de O Massacre da Serra Elétrica 2), Henry Brown como o terapeuta que acredita na reabilitação de Jerry, e Jonathan Brandis, o astro mirim de It: uma Obra Prima do Medo.

Essa parte dois tem roteiro de John Auerbach e conclusão para além dessa tola continuação (ainda haveria um telefilme em 1992 e um remake de 2009) é que a chave para vencer o assassino é a eterna vigilância.

Steph sobrepõe o predador ao não se permitir ceder aos apelos e a sedução do homem pretensamente bom, contando com a ajuda de fragilidades que o chefe da casa não consertou, como um piso solto no sótão.

Jerry segue firme em sua caçada, mesmo levando tiros, claramente ele tem mais desejo em seguir matando, em sujar a imagem da família perfeita de sangue do que preocupação com a autopreservação.

Para ele é importante manter as aparências e cuidar dos seus para depois cometer seus pecados, a lembrar da cena de introdução, onde ele vagarosamente guarda brinquedos das mesmas crianças que ele matou, e se incomoda com uma cadeira fora do lugar, mas não hesita em momento nenhum na presença dos cadáveres que produziu.

O acerto também está em Stephanie, que está longe de ser uma menina perfeita e correta, ela é uma adolescente comum, capaz de se meter em confusões, com desejos sexuais latentes, distante da final girl virginal. è ela que provoca as fragilidades do vilão, e quando ela cede aos encantos dele, a sanha assassina enfim se liberta.

O Padrasto ainda termina com uma forte simbologia, com a filha serrando a base da casinha de passarinhos que Jerry construiu, demolindo a ideia da família sem defeitos, encerrando o lar das aves, dos animais que simbolizam a trajetória desse pretenso predador e pai de família para enfim viver em paz com a sua mãe, distante do malfeitor desonesto e manipulador.

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