O Último Mundo dos Canibais: o primeiro exemplar da trilogia canibal de Ruggero Deodato

Ruggero Deodato foi um diretor, produtor e profissional do cinema italiano por décadas, sempre se destacando pelo caráter artesanal de suas obras. Quando morreu ano passado foi bastante lembrado pelos fãs do cinema B e pelos amantes da especulação dentro da sétima arte, e muito se falou a respeito de seu filme mais famoso, O Holocausto Canibal, que é parte de um movimento exploitation bastante complicado de consumir atualmente, para dizer o mínimo.

O que quase nunca se fala é que Holocausto não foi o único filme do realizador sobre o assunto, tampouco o primeiro. Em 1977, lançou o curioso O Último Mundo dos Canibais, produção que mostra dois empresários do ramo do petróleo que viajam para a selva e são atacados por uma horda de homens primitivos sem moral ou civilização mínima.

Em algum momento, o longa deveria ter sido a sequência de Mundo Canibal (1972) de Umberto Lenzi, mas não houve acordo e Deodato junto aos roteiristas Tito Carpi, Gianfranco Clerici e Renzo Genta (com argumento de Genta e Giorgio Carlo Rossi) resolveram contar uma outra trama, envolvendo uma suposta história real.

O nome original é Ultimo Mondo Canibale, ou seja, a tradução brasileira é literal e correta, mas é possível achá-lo por diversos nomes, como Jungle Holocaust, Last Cannibal World, Cannibal e The Last Survivor.

O filme foi quase todo gravado na Malásia, aproveitando um cenário arborizado e florestal semelhante ao que normalmente se filmava quando tentavam emular a floresta amazônica.

O Último Mundo dos Canibais: o primeiro exemplar da trilogia canibal de Ruggero Deodato

Esse é parte de uma trilogia, e seria seguido em 1980 pelo já citado Canibal Holocausto, e por Inferno ao Vivo em 1985. Infelizmente não é tão fácil achar o filme em qualidade boa, sobretudo no idioma original. Ao menos ele foi lançado em mídia física junto a outros filmes de Deodato, e é encontrado em pacotes temáticos em mídia física.

A trama por parte dos homens brancos é bem simples, com um grupo sobrevoando um ambiente verde, florestal, até que o avião de porte de leve dá um problema e eles pousam, após uma cena de queda muito bem dirigida, repleta de tensão.

Vale dizer que, tal qual em boa parte da filmografia de zumbis de Lúcio Fulci, esse é um filme cuja história é meio "viajante". O roteiro tem sua lógica própria, que as vezes abraça a falta de sentido, tanto que parte da solução no final, envolve o avião que antes estava ruim e convenientemente, consegue alçar voo.

O que importa são os perigos e a monstruosidade, aqui simbolizada primeiro pelos animais silvestres, e depois pelos homens famintos.

Já no início há uma baita cena real, uma batalha entre répteis, que termina com uma cobra enorme engolindo o que parece ser um lagarto quadrúpede. É selvagem, agressiva a sequência, e claramente inspirou o clássico trash noventista Anaconda.

As atuações não são um primor, ao contrário, o foco quase sempre é no espanto e nas bizarrices que ocorrem com os dois idealizadores da pesquisa, Rolf (Ivan Rassimov), que se perde e só retorna com boa parte do filme já passado, e Robert Harper (Massimo Foschi), sobrevivente que a câmera acompanha e que acaba encontrando um grupo de nativos.

Não há muita cerimônia e assim que eles entram na selva, ocorrem perigos reais, que dividem tela com os maus tratos a animais, que chocam ainda mais que as curvas dramáticas do filme.

Não parecia haver qualquer legislação que poderia proteger os bichos, e se havia, as leis eram simplesmente ignoradas. Aqui há cortes, ferimentos e até mortes com os animais que aparecem.

Ao passo que os personagens nativos são mostrados como estereótipos de pessoas involuídas, quase como pré-homo sapiens, a direção de Deodato faz questão de mostra-los como gente que vivia em paz, e tem seu território invadido por uma mentalidade colonizadora.

O Último Mundo dos Canibais: o primeiro exemplar da trilogia canibal de Ruggero Deodato

Isso faz o filme variar entre o reacionarismo que julga mal o estrangeiro, especialmente o indígena, e o viés de tornar o oprimido nativo como capaz de revidar exploração, o que por si só tem um viés revolucionário.

Como Deodato era bastante próximo de Sergio Corbucci, intui-se que ele não era exatamente conservador, e se buscava um subtexto político, era no sentido de discutir o poder dos poderosos sobre os oprimidos, portanto, não seria reacionário.

Os canibais capturam Rolf, amarram ele e arrancam suas roupas de maneira estranha, como um enxame em cima de uma presa. Tiram por último a cueca e o seu relógio, além de estranharem o tecido e o objeto, ainda brincam com seu pênis, lidando com a nudez do seu corpo como se não fosse nada.

Por perceberem que o branco chegou até ali pelo céu, eles intuem que ele voa, então amarram o sujeito em um mecanismo de guindaste, suspendem ele, acreditando que ele voará sozinho.

O assustador, o grotesco e o cômico se misturam, em sequências que começam com sessões de torturas entre os canibais, que incluem autoflagelo via cortes e uso de formigas para machucar as pessoas, terminando com os mais jovens urinando em Robert, pela fresta da rocha onde ele tenta se esconder.

O Último Mundo dos Canibais: o primeiro exemplar da trilogia canibal de Ruggero Deodato

A agressividade vai escalando chegando ao cúmulo de fatiarem um jacaré, atravessando seu couro, perfurando as entranhas com uma lâmina primitiva. É a natureza em seu estado mais cru e violento.

Deodato não poupa ninguém, especialmente o seu protagonista. Rolf sai transformado e transtornado, não se sabe se sua deturpação ocorreu somente pela experiência traumática de assédio ou se ele já carregava problemas anteriores a essa questão.

Fato é que ele se torna um destruidor, se reduz a instintos primitivos, chega ao cúmulo de violentar a única pessoa que lhe foi minimamente simpática, no caso, Pulan, personagem de Me Me Lai.

Ela aliás tem um papel semelhante ao de Nova em Planeta dos Macacos, sendo apenas o bibelô, um colírio para o público, como uma das dezenas de atrizes que aparecem nuas aqui somente para entreter o público onanista.

O Último Mundo dos Canibais: o primeiro exemplar da trilogia canibal de Ruggero Deodato

O elenco é experiente em produções B. Lai mesmo esteve, antes no Mundo Canibal de 72, assim como Rassimov, que além de ter protagonizado o filme setentista, também esteve em Django não espera, mata (1967) e outros filmes B, como Humanoide (1979), Os Caçadores de Atlântida (1983) e até produções de Emanuelle.

Já Foschi tinha experiência em produções dramáticas, tanto antes desse trabalho, como na minissérie Orlando Furioso (1974), e depois dessa parceria com Deodato fez Vivos Serão Devorados (1980) e o drama Otello (1986).

Os canibais são vingativos, e vão ao encalço de Robert e Pulan, após eles escaparem, e eventualmente, encontram o casal. A preparação do corpo da musa de Robert para o consumo digestivo de sua antiga tribo é agressiva. Certamente o público estranhará, ainda mais se não tiver o costume de ver algo tão explícito quanto essas sequências, e os efeitos práticos são bons, mesmo que deixem claro a artificialidade das partes corporais.

Os canibais se alimentam de pele, entranhas e órgãos, e fazem isso ao som de uma música instrumental inocente, executada por Ubaldo Continiello, e que tenta normalizar o que para o espectador é chocante.

Robert mata e usa um machado para ferir a pele de seu oponente, se alimentando de um órgão dele, cru, se tornando quem mais ele condenava, se igualando ao menos momentaneamente aqueles que ele temia. Para todos os efeitos, os canibais e ele são da mesma raça, da mesma espécie, compartilham de mais semelhanças que diferenças.

Falta uma melhor caracterização aos canibais. Suas perucas são péssimas, assim como os figurinos. Parecem feitos a toque de caixa, e obviamente que Deodato não quer remontar uma história verossímil, e sim produzir da melhor maneira possível um exploitation, uma obra barata e sem vergonha, que pudesse gerar muito dinheiro com investimento mínimo.

Em algum ponto, Robert e Rolf se reencontram, e tentam fugir, e na tentativa de sobreviver eles andam pela floresta reduzidos a nada. Tem cabelos e barbas desarrumados, rostos sujos, se assemelham a Jesus na Via Crucis, sofrendo o diabo por conta dos pecados de terceiros, de seus patrões e dos índios.

As simbologias de O Último Mundo dos Canibais ficam em segundo plano, assim com a vã tentativa de forçar essa como uma biografia, como uma produção que narra uma história real. O que realmente chama a atenção é a violência, a nudez e as muitas mortes gratuitas de animais, e a inventividade de Deodato, em assustar o espectador com cenas que podem ou não ser reais.

É uma banalização da vida, medida milimetricamente para chocar, e ela de fato faz isso, deixando espectador e críticas estupefatos com suas atrocidades.

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