Quatro Moscas no Veludo Cinza : O mais onírico filme da trilogia dos animais

Quatro Moscas no Veludo Cinza : O mais onírico filme da trilogia dos animaisQuatro Moscas no Veludo Cinza é um filme de horror italiano, lança em 1971 e é considerado um dos clássicos do cinema giallo. Conduzido por Dario Argento, é lembrado por sua trilha sonora voltada para o rock, composta por Ennio Morricone, além de ser o último episódio da Trilogia dos Animais.

A sinopse é simples e reúne várias das marcas do cinema de Argento, como um protagonista artista. A trama gira em torno do baterista Roberto Tobias que é seguido por um homem que ele não conhece. Ao ter um confronto com esse sujeito, ocorre um acidente aparentemente fatal e nesse mesmo momento, alguém o fotografa.

O musicista passa a ser atormentado por um chantagista mascarado, caindo assim em sentimentos paranoicos e em devaneios que beiram o absurdo.

A princípio, esse foi planejado para ser o último giallo do diretor, o seu "canto do cisne" dentro do gênero, mas os planos mudaram após o insucesso do drama histórico Cinco Dias em Milão, lançado em 1973. Esse é um dos poucos filmes do realizador que não estavam dentro do gênero horror, terror ou suspense, seu desempenho foi bem ruim em matéria de bilheteria e o diretor retornaria então para o que comumente se chama de o giallo definitivo, que é Prelúdio Para Matar em 1975, depois fez um giallo sobrenatural, com Suspíria em 77 e depois dezenas de outros, sempre no gênero de valorização do medo.

O título original do longa-metragem é 4 mosche di velluto grigio, pode ser encontrado no Brasil como Quatro Moscas no Veludo Cinza ou Quatro Moscas Sobre o Veludo Cinza.

Na Argentina e Venezuela é Cuatro moscas de terciopelo gris, no México 4 moscas de terciopelo gris, em países de língua inglesa é Four Flies on Grey Velvet, já na Dinamarca é Fire fluer, na França 4 Mouches de velours gris e em Portugal se chama Quatro Moscas de Veludo.

Quatro Moscas no Veludo Cinza : O mais onírico filme da trilogia dos animais

O filme é uma coprodução entre Itália e França, foi rodado em 1971, entre julho e setembro, com locações na Lombardia, em Turim, e em Roma. Houveram cenas no metrô de Milão, em Piemonte, filmaram na Galleria Umberto I, Giardino Lamarmora - Via Cernaia, Galleria Subalpina, no Conservatorio G. Verdi - Piazza Giambattista Bodoni, Auditorium RAI - Piazza Rossaro, 45 Via Collegno.

Já em Lazio-Roma Argento filmou em 23 Vialle dell'Esperanto, E.U.R., Villa Crespi - 17 Via Giuseppe Antonio Guattani, Ponte Guglielmo Marconi, La Villa d'Este - Tivoli, além de cenas internas no Incir De Paolis Studios. Também houveram gravações em Spoleto em Perugia-Umbria e em Kairouan, na Tunísia.

Os estúdios por trás do longa foram o Seda Spettacoli e Universal Productions France, foi distribuído pela Cinema International Corporation.

O roteiro foi escrito por Argento, ao menos oficialmente, com argumento do seu parceiro contumaz Luigi Cozzi, de O Gato de Nove Caudas, Mario Foglietti, da série La porta sul buio.

Foi produzido por Salvatore Argento, pai do realizador, que também participou de funções semelhantes em O Pássaro das Plumas de Cristal e em outros filmes que seu filho realizou, fazendo essa função até 1982, em Tenebre.

Este é o único filme entre os clássicos gialli de Dario Argento em que ele não mostra o assassino na primeira sequência.

Como essa é uma obra que depende do mistério para funcionar, deixamos um aviso de spoilers. Siga lendo sabendo que falaremos do desenrolar da história.

Quatro Moscas no Veludo Cinza : O mais onírico filme da trilogia dos animais

Os créditos iniciais destacam o nome do ator que interpreta o protagonista, no caso, o novato ator nova-iorquino Michael Brandon, ainda em início de carreira. Foi escalado após Argento tê-lo visto recentemente em As Mil Faces do Amor de 1970.

O interprete ganharia alguma fama depois desse longa, estaria em centenas de produções, inclusive em sucessos recentes, como as séries Galavant e Episodes, além de fazer um papel pequeno, em Capitão América: O Primeiro Vingador.

A trama começa com uma música alta, em uma cena "conceitual", mostrando baquetas batendo nos tambores da bateria, tocada pelo Roberto Tobias que protagoniza a fita.

Esse papel quase coube a Michael York, que foi sondado para o papel de Roberto e seria a escolha número um de Dario. No entanto, ele teve atrasos nas filmagens de Zeppelin, também lançado em 1971 e não pôde estar nesse giallo. Foram cogitados também os atores Terence Stamp e Tom Courtenay, além dos bateristas James Taylor e o ex-Beatles Ringo Starr.

A trilha instrumental demonstra uma certa predileção pelo rock progressivo. O tema de Ennio Morricone parando eventualmente para mostrar um silêncio, só rasgado pelo som de batidas cardíacas, fato esse que reforça a ideia de fazer desse filme uma obra idílica.

Argento não teria gostado de algumas músicas da trilha original e sua reclamação foi tão constante que teria gerado até uma briga com o compositor. Eles ficaram sem trabalhar juntos, até 1996, em Síndrome Mortal.

Também é conhecido que Argento quis que a trilha fosse da banda Deep Purple, mas os produtores não conseguiram chegar a um acordo para essa colaboração. O argumentista Luigi Cozzi em uma edição da Fantaspoa confidenciou essa tentativa e aparentemente a vontade do diretor persistiu, tanto que nos filmes posteriores da filmografia de Dario seria junto a banda de rock progressivo Goblin.

Durante os ensaios, moscas incomodam Roberto. Ele se irrita com os insetos que cercam seus pratos e seus tambores, tenta espantar elas, para que não pousem sem si.

Em alguns pontos, o cinematógrafo Franco Di Giacomo - que foi operador de câmera em Três Homens em Conflito e A China Está Próxima, além de diretor de fotografia o policial Por Amor ou Por Vingança de Damiano Damiani - faz belas cenas aqui, enquadrando o protagonista e os animais na mesma tela, mostrando esses animais no mesmo enquadramento do personagem central. Em algum ponto, elas seriam importantes também simbolicamente na trama.

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Roberto é um rapaz jovem e genioso, que demonstra alguns incômodos, como quando é colocado em foco. Não fica claro se ele já era uma pessoa irascível ou se passou a ser quando percebe que está sendo perseguido, fato é que ele se mostra irritado por ser observado por um homem de meia idade, no caso, Carlo Marosi (Calisto Calisti), um sujeito que veste sobretudo, chapéu, gravata que anda atrás dele.

Ao perceber que está sendo perseguido, Tobias acidentalmente esfaqueia o homem, no teatro e é fotografado por uma pessoa, com uma máscara sorridente, que está em um ponto distante do cenário, em um pavilhão com janelas quebradas.

O super close flagra bem a figura estranha, uma pessoa disfarçada, com uma máscara sorridente.

Das trilhas morriconianas essa é uma das mais diferentes, repleta de maneirismos doidos, como quando Tobias chama Dio (Deus em italiano) e toca uma canção que grita Aleluia. Esse personagem é na verdade Diomedes, que em inglês chama Godffrey, Dio é uma abreviação de seu nome, como é God para o caso de Godffrey. O personagem é interpretado pelo herói dos faroestes Bud Spencer.

Curiosamente, esse personagem recusa qualquer proximidade do Divino, do espiritual e de Deus, de tão materialista que é. Não fica claro se ele é ateu ou se é apenas uma pessoa que não gosta de associar sua fala ao espiritual.

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Spencer assumiu o papel como um favor a Dario Argento, de quem se tornou amigo de longa data durante as filmagens de dois faroestes que este último escreveu, Hoje Eu... Amanhã Você, de 1968 e Exército de 5 Homens de 1969.

Aparentemente o ator não cobrou honorários por seus serviços, mas pediu para que sua imagem não fosse usada para promover o filme, tanto é que boa parte dos fãs de cinema B não associam a obra a figura do cowboy parceiro de Terence Hill.

Roberto aplica a si um autoexílio, se isola com alguns poucos amigos, que vem e vão. As presenças constantes ali são de duas mulheres, de Dalia, personagem de Francine Racette, além de sua esposa, Nina, personagem feita por Mimsy Farmer, atriz de desempenho forte, que acabou se tornando uma espécie de musa dos giallis. Ela faria O Perfume da Senhora de Negro de Francesco Barilli e Manchas Solares de Armando Crispino.

Nos últimos anos, ela ficou conhecida por seu trabalho como artística plástica, fazendo esculturas até em obras do cinemão americano, como Maria Antonieta, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Piratas do Caribe Navegando em Águas Misteriosas, Bússola de Ouro, Guardiões das Galáxias e o live action de A Bela e a Fera.

Quando estão isolados, Roberto recebe visita de um carteiro. Preocupado em ser ele um emissor do "fotógrafo" - ou o próprio - acaba estrangulando ele, em uma agressão, quase matando ele, beirando a repetição de seu drama existencial, de matar acidentalmente um homem que supostamente o persegue.

A ideia do horror que Argento propõe tem pouco a ver com assassinatos, mesmo sendo um giallo e sim com tortura psicológica. A parte que compreende os clichês de Filmes de Matança tem a ver com um vilão de identificação escondida, a aura de mistério e valorização da paranoia, mas o foco emocional é mais dedicado a estranheza sentimental e o declínio humano, que coloca seu protagonista como um sujeito tresloucado.

O filme possui um ritmo próprio, bem diferente do restante da filmografia de Argento. Há quem goste, achando a obra inovadora e desbravadora e há quem ache o ritmo carente de dinâmica, caso desse analista.

As cenas de cortes secos e rápidos variam de qualidade. As mortes não são tão gráficas e se foca bastante em momentos oníricos, baseados no sonho do personagem central, que sempre enxerga uma pessoa, um jovem menino prestes a sofrer um ataque de uma cimitarra, cuja lâmina está bastante afiada.

Entre os conhecidos do protagonista há quem defenda que há uma onda de assassinatos, impetradas por um homossexual misógino. O palpite é errado, mas guarda semelhanças com a realidade, que só é revelado ao final.

Entre os filmes de Argento, esse é o mais fulciano, mais onírico, tendo foco demais nas repetições de cena de sonho. Esse tipo de abordagem, de uma lembrança, fantasia ou devaneio, convenientemente lembrado ao longo do filme se tornaria uma marca no gênero, sobretudo nos filmes de Argento.

O enredo se desenrola mostrando salas brancas, acolchoadas, como quartos de um manicômio antigo. Ao fundo, vozes falam palavras de reprovação, de um pai desapontado, que só seria mostrada como algo com sentido, no final.

É dado que Tobias parece ter capacidades paranormais. A câmera de Franco Di Giacomo gira, para simbolizar o torpor de típico da experimentação de entorpecentes, que comumente são utilizados por musicistas como Roberto.

Perto da meia-hora final, Carlo retorna a ação, basicamente para morrer, caindo assim no clichê bizarro, que se tornaria famoso nos Estados Unidos. Ele é acertado por um objeto, sob a perspectiva do assassino, que o ataca, em primeira pessoa, como boa parte dos filmes de horror faria, como em Tubarão e Halloween: A Noite do Terror.

Há também uma morte bastante estilosa, de Dalia, que serve basicamente para apelar ao argumento pseudo realista, de que a última imagem que a pessoa viu fica gravada no globo ocular do morto.

A tal identidade do assassino poderia ser revelada, no entanto, aparecem apenas 4 moscas, as mesmas que estão no título e que estariam em um adorno de um personagem.

Argento não queria utilizar essa questão de imagem capturada a partir da retina. Ele achava que era fantasioso demais para o gênero giallo, mas quando o especialista em efeitos (não creditado) Carlo Rambaldi mostrou a ele como seria o efeito do olho protético, ele mudou de ideia.

O personagem de Spencer é subaproveitado, possivelmente graças aos poucos dias em que esteve à disposição. Ele promete que entrará em ação, mas isso jamais ocorre. Ele funciona mais como um conselheiro e menos como um brutamontes ou como a mão armada do baterista.

Os momentos finais mostram brigas físicas entre Roberto e Nina. Ela se mostra uma mulher traumatizada, que era tratada mal por seu pai e apanhava, já que ele sonhava em ter um filho homem, sempre tratando ela como se fosse um garoto.

Quatro Moscas no Veludo Cinza : O mais onírico filme da trilogia dos animais

Ela se revela como o assassino mascarado e é uma exímia atiradora, acerta o par no braço, através de uma almofada. Ela acerta a perna sem olhar. Seu diagnóstico é vago, é dada como maníaca, mas sem um quadro mais específico.

Na versão exibida nos Estados Unidos, o filme foi dublado em inglês, obviamente, como a maioria das obras que lá chega, no entanto, a cena final tem diálogos que alternam repentinamente entre inglês e italiano. Jamais se explicou o motivo disso, foi um problema técnico que não teve sua origem elucidada.

Roberto previu a morte de Nina, decapitada não por espada, mas sim pelo impacto da batida que seu carro deu no caminhão. Esse acidente usa câmera lenta, levou a que doze carros diferentes fossem destruídos para obter o efeito que Dario Argento desejava.

Quatro Moscas no Veludo Cinza é bonito, não é tão violento, mas é insano em todas as suas insanidades. É uma obra que preveria tendências do gênero e do cinema de Argento, especialmente no encaixe das paranormalidades como efeito narrativo comum nesse tipo de filme criminal.

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