Crítica: Batman: Ano Um

Ler uma revista em quadrinhos é um exercício de imaginação. Você tem o texto e as imagens, mas é outro elemento narrativo que faz as HQs terem uma linguagem diferenciada: o espaço em branco entre um quadro e outro. É ali que o leitor monta em sua cabeça, partes da ação que o roteirista ou o desenhista não conseguiram mostrar. Por isso o ritmo de um gibi é completamente diferente do de um produto audiovisual. E exatamente por isso, Batman Ano Um, o mais recente longa-metragem animado lançado pela Warner, não cumpre seus objetivos.

A trama é a adaptação de uma das obras mais importantes já criadas sobre o Homem-Morcego. Escrita em 1987 por Frank Miller, com desenhos de David Mazzucchelli, e publicada originalmente entre os números 404 e 407 da revista Batman, a história mostra o primeiro ano de atuação do herói em Gotham City. Mais importante que isso, Miller conta a origem do Morcego ao mesmo tempo que faz um interessante estudo de personagem com o Tenente James Gordon, também em seus 12 meses iniciais como policial da cidade mais corrupta dos quadrinhos. Nisso, Ano Um, a animação, se sai bem. A passagem de uma mídia para outra é quase literal, com pouquíssimos momentos alterados ou retirados da história. Mas, por que, então, a nova produção de Bruce Timm não satisfaz?

A resposta está justamente na pergunta. Não houve adaptação, nem mesmo uma adequação de linguagem, mas uma tentativa de recriar tudo que está na HQ para uma mídia diferente. O resultado é um ritmo estranho, que não avança, mesmo com inúmeras cenas de ação. Boa parte da narrativa é construída através de monólogos, tanto do jovem Bruce Wayne, quanto de James Gordon (principalmente deste último), por meio de uma narração em off. Nos quadrinhos, a narração é importante. Faz o leitor parar a ação pra compreender o que o personagem está sentindo. Num filme, ela precisa ser muito bem escrita, pensada como elemento de interpretação pra não atrapalhar a experiência, já que o espectador não vai dar pausa pra digerir o que o protagonista acabou de pensar. E, como o texto em Ano Um quase não sofreu alterações, o que funcionava na HQ, passa longe de dar certo no vídeo, fazendo boa parte das cenas perder o timing, criando uma narrativa fria e sem emoção. Um bom exemplo disso são os saltos entre as datas. É a melhor forma de mostrar como os espaços em branco são importantes. Quando o leitor pula de um quadro para o outro, cria, ao mesmo tempo, uma ligação entre eles em sua mente. É isso que falta em Ano Um. Não há uma conexão forte o suficiente entre as datas que vão surgindo na tela, piorando ainda mais o sentimento de frieza do roteiro, que parece não se importar em estimular no espectador a menor reação.

Contribui para isso, também, o fato do trabalho de vozes ser pavoroso. Quem dubla o Batman é o ator Ben McKenzie, famoso por ser o protagonista do seriado The O.C. e do recente Southland. Sua voz não passa o mínimo de emoção e cria um Bruce Wayne apático, principalmente nas narrações. Já Bryan Cranston, de Breaking Bad, encarna bem o Ten. Gordon, mas sofre com o texto em off. O restante do elenco cumpre seu papel sem atrapalhar o andamento. Eliza Dushku como a voz de Selina Kyle/Mulher-Gato não compromete, mas como a personagem não tem um desfecho (mesmo no original), sua participação serve apenas como exemplo de como a aparição do Batman mudou a vida dos moradores de Gotham.

Por outro lado, nem tudo são espinhos e a qualidade técnica da animação é impecável. O filme é bem sucedido em recriar os traços limpos de Mazzucchelli e o clima noir imposto, tanto por seus desenhos, quanto pelo texto de Miller. Também é louvável não terem diminuido os temas adultos da HQ, como o caso extra-conjugal de Gordon com sua parceira Essen (com voz de Katee Sackhoff), a corrupção na polícial e, principalmente, a prostituição. Por outro lado, o traficante Skeevers não aparece usando drogas, mas aí também seria pedir demais.

No fim, a adaptação peca mesmo pela inaptidão de seus realizadores em dar sentido a sua existência. Não tem porquê simplesmente adaptar uma obra, da forma mais fiel possível, mas sem nenhuma relevância. Pra quem conhece a Graphic Novel, fica a certeza que sua leitura é insubstituível. E pra quem não conhece? Bem, fica a dica de leitura. Assista a animação apenas depois e entenda porque o maior pecado de seus roteiristas e diretora foi se esquecer da importância dos espaços em branco.

Mulher-Gato

Como extra do DVD e do Blu-ray de Batman Ano Um, o curta da Mulher-Gato é bem satisfatório. Com seus 15 minutos de duração, a trama, criada especialmente para o desenho, mostra a felina perseguindo o vilão Rough Cut. Com a inclusão de duas cenas de strip-tease (pouco reveladoras, mas não indicadas para crianças), a animação mantém o teor maduro do longa do Homem-Morcego e mostra a Mulher-Gato como a personagem fascinante que é.

 

Alexandre Luiz

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