Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental

Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidentalLady Snowblood: Vingança na Neve é um filme de ação e drama japonês que completou cinquenta anos em 2023, já que foi lançado no ano de 1973. Dirigido por Toshiya Fujita, o longa narra a história de uma mulher habilidosa nas artes marciais e no manejar de armas brancas, que vai atrás de vingança a pessoas que fizeram mal a gente do seu passado.

O tal acerto de contas envolve a personagem da cantora e atriz Meiko Kaji, que recentemente, voltou aos holofotes por fazer a velha Genkai em Yu Yu Hakusho da Netflix. É baseado no mangá Shurayuki-hime, um Seinen da editora Shueisha, escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Kazuo Kamimura.

O longa é produzido por Kikumaru Okuda, de Os Bravos Morrem Lutando e Com 007 Só se Vive Duas Vezes. Tem produção executiva de Robert J. Woodhead, que fez Samurai Assassino, Academia de Gênios e Lupin III: O Ouro da Babilônia.

O roteiro foi escrito por Norio Osada, da série Captain Ultra, Number 10 Blues Goodbye Saigon e Poderes Eróticos.

O filme faz parte do gênero Jidaigeki, estilo que retrata um drama de época, além de ser um filme de Chanbara, termo que remete a lutas de espadas. Foi filmado no Japão, foi distribuído pela Toho e financiado pela Tokyo Eiga, estúdio que fazia muitos filmes por ano e que entre suas obras mais famosas, estão As 4 Faces do Medo, Onibaba e A Face do Outro/O Rosto da Maldade, todos filmes de horror da década de 1960.

O nome original do longa é Shurayukihime ou Shura-yuki-hime, em atenção a Shirayuki hime que é o nome japonês de Branca de Neve e os Sete Anões. Na maioria dos países chama Lady Snowblood, pegando para si o nome adotado nos Estados Unidos.

O filme foi lançado na parte final de 1973, época em quem o mangá terminava de ser publicado no Japão. Entre as diferenças pontuais das duas mídias está a exploração da nudez e da sexualidade feminina, muito mais presente no quadrinho, já que ele foi uma publicação financiada pela revista Playboy. Era um Gekiga, um mangá voltado para o público adulto.

Kazuo Koike escreveu Ninja Assassino e Lobo Solitário, enquanto Kamimura fez A Sociedade da Espada junto a Koike também. São dois mangakás experientes, cujas obras foram bastante adaptadas para o cinema e mídias audiovisuais.

Fujita fez dezenas de filmes, dos quais os mais lembrados são Shinjuku outlaw: Buttobase em 1970, Hachigatsu no nureta suna de 1971 e o drama Kaerazaru hibi lançadom em 1978. Foi indicado a premiações do cinema japonês por sua atuação em Zigeunerweisen 1981.

Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental

A trama inicia em um estranho ambiente, com o choro de um bebê ao fundo. É um lugar escuro, onde se enxerga madeira, com breves espaços, onde mãos de pessoas são vistas entre os vãos.

Aquela é uma prisão de Tóquio, Hachioji, na prefeitura Kanagawa, no ano 7 da Era Meiji, no ano de 1874 segundo o calendário gregoriano. Nesse lugar somente mulheres estão instaladas e o pranto ouvido é a primeira manifestação vocal de uma criança recém-nascida.

O espectador é introduzido a história justamente no parto de sua protagonista. Não demora a aparecer um cenário de neve, onde a guerreira vivida por Kaji anda.

Nessa introdução toca "Shura no Hana/ The Flower of Carnage " música escrita por Kazuo Koike e Masaaki Hirao e interpretada pela própria protagonista e anti-heroína.

O interesse pela carreira musical de Kaji foi renovado justamente depois que essa canção foi revisitada no cinema, em Kill BIll Volume 1, fato que a inspirou a gravar e lançar novas músicas pela primeira vez em quase 30 anos.

Atualmente, a canção é lembrada especialmente por estar na trilha do filme de Quentin Tarantino. Ao longo do texto outros pontos de convergência serão apontados entre essa obra e o épico de vingança protagonizado por Uma Thurman.

Ela tem seu caminho cortado por um carro, onde está Shibayama Genzo (Hôsei Komatsu), o líder da gangue Asakura Senryo. Ela mostra seu poder letal e mata os capangas sem qualquer pudor, enfia a espada nos corpos dos homens manchando de vermelho o chão com neve.

A moça é bela, rápida e diz que seu nome é Vingança.

Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental

O roteiro mostra a personagem em processo de treinamento. Ela praticamente não para de se preparar, ou está lutando ou está treinando, inclusive em flashbacks, quando ela é criança ou adolescente.

O filme se passa em duas eras, com a primeira parte, antes do nascimento da protagonista, localizado na época de Edo, enquanto o grosso é ambientado durante o Período Meiji.

Outra questão pontual é que apesar de localizar no gênero de luta de espadas, ou Chanbara, foge do clichê de apresentar a história de um ex-samurai ou ronin errante.

O Período Meiji se dá entre 1868-1912 e dentro do Japão é lembrado por ser uma época de transição da sociedade feudal isolacionista para uma nação mais moderna e que por conta disso, terminou a ideia de xogunato. Essas ações ocorreram justamente por conta do imperador recém empossado, que queria demarcar as diferenças do seu governo para o outro.

Dessa forma, uma mulher forte e poderosa matando pessoas poderia ser encarado como um sinal de mudança dos tempos.

Quando a personagem interage com terceiros ela é chamada de Shurayuki. Isso ocorre especialmente quando ela chega na aldeia do senhor Matsuemon (Hitoshi Takagi), o líder do clã de pessoas em situação de ruas.

Sua personificação é diferenciada, ele usa muletas, tem problemas sérios de saúde, mas é poderoso, tanto que tenta ajudar ela a encontrar três alvos, que estão na aldeia Koichi, sua terra natal.

Tanto Matsuemon quanto outros acham ela incapaz de ferir uma mosca, a julgam por conta de ser uma menina de aparência bela, virginal e angelical. Ela de fato veste a máscara do anjo da morte, a vingança que se apresenta bela, mas que é cruel e mortal.

Lady Snowblood é uma das referências de Tarantino para formar ideias para Kill Bill. Ele pegou a música, já citada, mas não só isso. Ele também copia os anúncios dos alvos da Vingança, que são apresentados de maneira sensacional, com o nome em destaque de cada personagem.

Também há cenas animadas, tal qual ocorre a recapitulação da vida de O-Ren Ishii. A protagonista faz uma lista escrita à mão, das pessoas que devem morrer pelas ações da protagonista, tal qual Beatrix Kido faria nos dois filmes.

O enquadramento de quatro do quarteto de vilões também se parece com que é visto com os personagens de Lucy Liu, Michael Madsen, Vivica A. Fox e Daryl Hannah. A referência é óbvia, assumida, mas tem um significado e contexto diferente, como o diretor sempre gostou de fazer, já que pega uma imagem conhecida e coloca ela em outro contexto, referenciando e distorcendo tudo.

Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental

Os alvos de vingança são quatro pessoas, que mataram o pai da personagem central e machucaram bastante a sua mãe, Sayo Kashima Miyoko Akaza.

São eles Tsukamoto Gishirō (Eiji Okada), Kitashama Okono (Sanae Nakahara), Shokei Tokuichi (Takeo Chii) e Banzō Takemura (Noboru Nakaya). A mãe conseguiu matar um deles, mas acabou caindo, sendo presa justamente quando assassinou o sujeito.

A menina nasceu basicamente graças ao sentimento de revanche. Foi concebida com a missão de terminar o que sua mãe começou. Ela pede a suas colegas de cela para cuidar da criança e assume que seduziu todos os homens da prisão, para que transassem com ela, a fim de engravidar a mesma.

Depois de algum tempo se descobre o nome da personagem, Yuki Kashima, que aliás, é outra referência que Kill Bill Volume faz, só revelando o nome da Noiva posteriormente.

Também ocorre um severo treinamento. Com o mestre e reverendo, interpretado por Kō Nishimura, que era contumaz parceiro de Akira Kurosawa em obras como Homem Mau Dorme Bem, Yojimbo, O Guarda-Costas e Céu e Inferno.

Ao longo da jornada, alguns dos alvos pedem clemência, imploram perdão, mas Yuki não conhece esse sentimento. Diz que retribuirá com a morte, que é o salário do pecado. Sua lógica passa pelo pensamento de olho por olho.

Quando ela mata Takemura a sequência é agressiva e poética, tem o peito cortado, cai no mar e tinge e água de vermelho. O exagero do sangue é bonito, sensacionalista, como a manobra do cinematógrafo Masaki Tamura.

Um dos alvos, Gishiro supostamente morreu anos antes da chegada da moça, em uma viagem a América, três anos atrás. Ele era o líder dos quatro bandidos, mas a protagonista se recusava a acreditar nessa morte.

Já Okono é tratada como uma bruxa, uma mulher que faz feitiços, que deixa seus capangas morrerem sem qualquer sentimento de remorso e que não hesita em atirar na protagonista.

Ao longo da trama, uma das suspeitas de Yuki se mostra correta, Gishiro fingiu a própria morte, para não cumprir pena de prisão por tráfico. Não tinha nada a ver com a busca de vingança, mas sim por outros problemas.

É curioso também que a trajetória vingativa começa e termina rapidamente, se comparado a duração do longa-metragem, que é pouco superior a uma hora e meia.

Os personagens secundários Ryûrei Ashio (Toshio Kurosawa) e a estrutura da aventura conversam bem com os clichês dos faroestes clássicos da Europa, resultando em uma boa retribuição das referências que Sergio Leone em seus westerns spaghetti.

Meiko Kaji deveria originalmente dizer a palavra “lágrimas” no final, mas essa frase acabou sendo cortada, com ela terminando em silêncio sua vida e suas preces. Por mais que perca um pouco da força, o desfecho dessa forma ajuda a deixar o impacto de que uma vez executada a vingança, nada mais importa.

Lady Snowblood é um filme visualmente lindo, tem uma história simples, que trata a vingança como um sentimento que precisa ser nutrido. É uma obra de arte bela, pessimista, onírica e poética, mesmo sendo tão diferente do material base.

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