Deathgasm: Rock, Satanismo e Curtição

Deathgasm é um filme neozelandês de horror e comédia, um experimento divertido que mistura terror satânico com as raízes do Heavy Metal e toda a sua iconografia. Dirigido por Jason Lei Howden, o longa deixa claro em sua abertura animada as referências as diversas classificações dentro do espectro do metal, especialmente o "rock de tanga" do Manowar, com caveiras, espíritos demoníacos desenhados, invocação satânica e claro, riffs de guitarra.

A história é simples, mostra alguns adolescentes que vivem um lugar qualquer no meio do nada.

Greypoint é o palco perfeito para a revolta juvenil de Brodie (Milo Cawthorn), que chega para morar com seus tios e com seu primo David (Nick Hoskins-Smith), um garoto problemático, que o maltrata e o humilha basicamente porque pode.

Ao chegar na cidade e entrar na escola, ele encontra um rapaz nerd, fanático por Dungeons & Dragons, chamado Dion (Sam Berkley) e aos poucos, ele vai se aproximando de outros meninos excluídos, como o desbocado Giles (Daniel Cresswell), e mais tarde encontra o bad boy cabeludo Zakk, feito por James Joshua Blake.

Os quatro se reúnem para jogar RPG, mas também para tocar juntos, formando a banda com Zakk na voz e baixo, Brodie na guitarra, Giles na batera e Dion no teclado.

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O modo como Deathgasm foi financiado é uma história boa por si só. Howden ganhou um concurso cujo prêmio seria o dinheiro para financiar a produção de um longa-metragem, e para isso, foi premiada a obra que tinha a melhor premissa e melhor pôster, que é justamente este com a mão vermelha fazendo sinal no início da postagem.

Como bom filme baseado em experiência juvenil, esse também tem compromissos apenas com o que importa para garotos: atingir o sexo oposto.

Para isso, é apresentada a jovem e linda Medina Darcy, de Kimberly Crossman, que é interesse romântico de pelo menos três dos rapazes apresentados.

Seu personagem é construído não só como a bela garota ao lado, mas também é uma pessoa bastante ativa na trama, especialmente da metade para o final, onde ganha personalidade própria, falas pontuais e participações dentro da violência explícita do filme.

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A obra é obviamente muito bem-humorada, e além de fazer muita troça com os clichês do Heavy Metal, também se apela para o escracho, com piadas infantis, típicas de "quinta série", com referências a escatologias e a posições sexuais das mais bobas possíveis.

Algumas dessas piadas funcionam e outras não, mas até as ruins ajudam a estabelecer o caráter da obra, que se demonstra gaiata e descompromissada com qualquer seriedade.

Outro bom aspecto é a exploração de lendas do rock particulares. Zakk e Dion miram ser iguais a banda local famosa Haxan Swords, conjunto liderado por Rikki Daggers, que segundo relatos, utilizavam o palco para matar coelhinhos no meio dos shows.

Ao mesmo tempo que se zomba das lendas urbanas do Rock poser das décadas passadas - dizia-se que o Kiss matava pintinhos amarelos com os saltos plataformas no palco - também se registra isso como algo icônico, como parte da história que aconteceu e que não pode mudar.

Essas referências fazem lembrar que o maior dos temores dentro da lógica do filme é se tornar alguém catequisado, alguém normal, tal qual a família do tio Albert. Para os meninos, abrir brecha para um artefato diabólico não parece ser algo tão ruim, diante dessa perspectiva.

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Mesmo que a história não se leve a sério, há ainda outros tantos elementos tipicamente associados aos fãs de Metal e de Rock em geral, como as teorias da conspiração, mas até isso é apresentada com um bom tempero de humor negro.

Howden dirigiu poucos filmes, até agora esse e Armas em Jogo, sua expertise são os efeitos especiais, tendo trabalhado nos filmes de Peter Jackson na trilogia Senhor dos Anéis e O Hobbit, também em Homem de Aço, Vingadores e até Prometheus. Seu estilo visual lembra demais o que Edgar Wright, faz em seus filmes menos comerciais.

Entre as características comuns entre os dois cinemas, há o estilo de mostrar coisas gráficas no centro da tela para depois pular essas mesmas para fora de quadro.

Howden também faz bom uso da música, como elemento narrativo, inserindo-a diegeticamente vez por outra, acrescentando assim mais sabor e personalidade ao seu modo de contar a história.

CRYPTIC CELLULOID — DEATHGASM

Para o aficionado por metal, há elementos bem legais que são introduzidos e não são explicados de forma didática. A banda usa Corpse Paint tal qual alguns conjuntos de Black Metal, mas também referencia as pinturas de bandas mais famosas, como Kiss e Misfits .

Há cenas que seriam constrangedoras em qualquer obra, onde um metaleiro trevoso flerta com uma patricinha de rosa. Enquanto ela está bela e enfeitada, ele está paramentado, pintado, cheio de espinhos que não combinam com o sorvete delicado que ele chupa.

Aqui o quadro fica perfeito, pois resume bem a ideia do filme, especialmente no que tange a história antes do ponto de virada, antes do ataque das forças maléficas.

A música proibida mexe com os adultos, prioritariamente, que vomitam, sangram e se tornam como os possuídos do clássico Evil Dead de Sam Raimi.

Os vitimados passam a agir como zumbis com um visual simples e funcional, com uma caracterização que naturaliza a violência e momentos de matança que ocorrem com eles. Esses trechos são bem agressivos, o sangue falso jorra solto, normalmente causado por estranhas "armas", incluindo acessórios fálicos e eróticos dos personagens mais velhos.

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Nem nesse momento o filme se leva a sério, nem mesmo com o cenário dantesco. Em meio a um Apocalipse, Zakk afirma que o modo como seu pai pereceu é como ele gostaria de ter morrido, ao passo que Dion verbaliza o modo da morte: com a face toda lixada, olhos arrancados e crânio esmagado por um motor de carro.

Há referências a figuras satânicas, mas obviamente é apresentado para ser mais uma tirada de humor, entre as dezenas. Fato é que os personagens são muito divertidos e carismáticos, especialmente o duo Dion e Zakk, diferentes entre si e complementares.

Suas sacadas justificando toda a exploração sanguinolenta que Howden traz, faz simpatizar mesmo que ambos cometam dezenas de pecados morais.

O final de Deathgasm cai um pouco na pieguice, mas isso se releva, já que seus momentos mais toscos fazem com que ele seja uma obra certeira, tanto para o fã da música do Diabo, quanto para o aficionado pelo horror. Há uma boa cena pós crédito, que referencia uma possível continuação que seria muita bem-vinda e está em fase de pré-produção. Vale demais assisti-lo, e merece ser visto e descoberto pelos fãs do gênero cinematográfico e da música no geral.

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