O Novo Pesadelo: O Retorno de Wes Craven ou como terminar a história de Freddy Krueger

A franquia do assassino dos sonhos Freddy Krueger passou por maus bocados desde 1984 com A Hora do Pesadelo, depois de cinco continuações, seu criador Wes Craven voltou a direção, em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, um filme que funciona como exercício metalinguístico a respeito das dificuldades de fazer cinema, do receio artístico e pessoal de seguir em frente, com uma ressignificação do assassino monstruoso executado por Robert Englund.

O grande diferencial desta sétima parte é que o mal "inevitável" ataca também na realidade, com a saga de matança se expandindo para além dos sonhos, em uma narrativa que envolve o próprio Craven, atores como Heather Langenkamp e até gente dos estúdios, como o produtor Robert Shaye.

Produzir novas histórias para cineséries longas é difícil, e parte da premissa do filme é o comentário de como a New Line tentava encontrar uma nova trama para o seu personagem mais importante e famoso, trazendo o espectador para dentro desse odisseia criativa.

Craven repete a parceria com Langenkamp, que está se preparando para reprisar a sua Nancy Thompson, mas é apresentada como a própria atriz, que se afastou das obras de terror após ser perseguida por um fã stalker da franquia de terror da Rua Elm.

Heather está em nova fase, trabalhando em seriados como Just the Ten of Us e Tudo em Família, e esse seria o seu retorno a papeis no cinema. A essa altura é uma mãe de família, bastante preocupada com seu filho, o pequeno Dylan, interpretado por Miko Hughes, que anos antes, havia feito o bebê zumbi Gage Creed em Cemitério Maldito, clássico trash que adapta um romance de Stephen King.

Parte de sua mentalidade é preocupada não só com seus rumos profissionais, mas também em como estar em fitas violentas influencia a criação de seu herdeiro.

O roteiro de Craven é esperto ao referenciar o pensamento lugar comum de boa parte dos detratores do gênero terror, que normalmente, é conhecido  por culpar a cultura popular pelas mazelas sociais e pela violência que predomina as ruas das grandes cidades.

1994 in Film: Wes Craven's New Nightmare and the Effect of Horror on Creators - Filmotomy

Além de Heather, antigos participantes dsaga retornam, também como os artistas e não os personagens. Entre eles, se destaca  Robert Englund, que colhe os frutos da popularidade de Krueger depois de seis filmes aterrorizando jovens e é apresentado como um homem doce e compreensivo.

Também retorna John Saxon , que fez o pai da protagonista no primeiro filme. Isso faz pensar que os eventos de A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos seriam ignorados no filme que seria rodado, uma vez que ele e Heather faleceram na antiga continuação.

In Memoriam of John Saxon: The Evolution of His 'Nightmare on Elm Street' Character Lt. Thompson & Why He Was Actually a Good Dad - KILLER HORROR CRITIC

Apesar da franquia ter gerado muito dinheiro, grandes bilheterias, um seriado derivado, muita memorabilia e uma carreira de estúdio de sucesso para a New Line, os roteiros tornaram uma continuidade mais séria em algo inviável.

Entre fazer um retcon na história pregressa de um abusador que morreu por justiçamento de uma pequena comunidade, valia mais a pena reinventar Freddy, e a escolha por trazê-lo até o mundo onde ele é conhecido como uma figura cultural é bem pensada.

O uso do conceito de quebra da quarta parede hoje é bastante utilizado até em filmes de terror, vide a boa franquia A Morte te Dá Parabéns e o jovem clássico O Segredo da Cabana, mas aqui Craven faz um movimento semelhante ao exercício de José Mojica Marins, que lidou com seu alter ego Zé do Caixão no belo Exorcismo Negro vinte anos antes, em 1974. Aqui no entanto, a preocupação é em debater a glorificação da violência, claro, investindo em muito gore e sanguinolência, já que é uma das marcas do cineasta.

Wes Craven's New Nightmare | Spectrum On Demand

Estabelecer uma cisão com o que vinha sendo contado na saga Krueger era necessário, uma vez que ajuda a colocar ordem na casa, além de acalmar os investidores do estúdio, que em 1994 tinha dificuldades de viabilizar o confronto Freddy vs Jason, que só chegaria aos cinemas quase uma década depois em 2003.

Apesar da ideia soar esperta a narrativa em si é bem comum, uma vez que explora as agruras de Heather com o seu casamento Chase, personagem de David Newson, um especialista em efeitos especiais de obras de terror, como se o destino determina-se que os filmes de susto são inexoravelmente ligadas a sua própria historia.

Seus dias são preenchidos mais por ataques de ansiedade do que por esforço dramático, e a coisapiora ao se somar a onda de tremores sísmicos que assolam a cidade que serve de locação para as filmagens.

Esses mini terremotos servem de símbolo para uma realidade que é rasgada por uma entidade monstruosa, parecida com as que aterrorizavam os slasher movies.

Esse novo Freddy parece mais implacável do que os vistos anteriormente, ainda mais mortal e com obsessões sobrenaturais, sobre humanas.

New Nightmare (1994) - IMDb

Todo esse comentário faz o drama dela se assemelhar ao método de atuação de de Constantin Stalinavski, onde para entrar no papel, o ator se torna o personagem. Aqui, isso faz sentido, e é culpa obviamente da entrega de Langenkamp e a delicadeza da direção de Craven, que faz crescer tensão e o suspense ao longo do desenrolar dos fatos.

Outro aspecto que facilita o caráter dubio é a fotografia de Mark Irwin, que havia trabalhado com David Cronenberg em Videodrome. A utilização da fumaça e neblina é uma das boas escolhas da produção para não deixar claro se toda a epopeia de sustos ocorre de verdade ou não.

Se Freddy não ataca mais nos sonhos, a realidade se perverte a esse aspecto. As paredes parecem frágeis, se rasgam fáceis, como se o mundo fosse fácil de ser consumido por uma força do mal. Isso além de fazer esse novo Freddy parecer mais forte, ainda louva o clássico Repulsa ao Sexo de Roman Polanski, outro filme que lida com a sexualidade feminina sendo atacada.

Freddy atacava as crianças e os adolescentes com a sexualidade efervescente, e agora persegue Heather com um cunho pessoal, mas também por que ousou transar, procriar e viver como um  adulto funcional.

New Nightmare (1994)

O filme não foi um sucesso de bilheteria, o que é uma pena, pois a tentativa de Craven em fazer um meta-filme de horror foi bem pensada e executada. Ao menos ele conseguiria concluir isso junto a Kevin Williamson na saga Pânico, iniciada em 1996.

O terror aumenta a medida que a hora de gravar o novo filme se aproxima. Normalmente grandes cineastas não produzem seus filmes até ter um roteiro sólido e o cineasta não tem receio de colocar isso como um comentário, demonstrando a insegurança que é retornar uma produção que lhe deu muito sucesso no passado.

Por mais que não haja ataque em pesadelos os sonhos são inspirados, gerando receio em quem vê. A fusão entre mundos tem ótimos momentos, como a clarividência que Englund tem, através de suas pinturas.

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Mas é na realidade que mora o terror, o comentário da psiquiatra/médica
Dra Heffner (Fran Bennett) sobre a ultra violência dos filmes de matança serve como a representação da postura da MPA  (Motion Picture Association), sistema que indicava a idade do público para cada obra, e que era criticado pelos conservadores por ser complacente com obras de horror, e pelos liberais por censurar ou restringir a liberdade de artísticas de obras mais autorais.

Possivelmente, esse amontoado de assuntos ajudou o filme a se tornar menos palatável para o grande público, pois se critica a MPA, se estabelece um novo vilão, e ainda tem outras tramas que tornam o roteiro denso, diferente do desejado por quem só quer ver um terror pipoca com um assassino empilhando corpos.

Certamente o que mais amedronta é a reflexão que a Heather real tem em perceber que um ente querido seu sofre com a possibilidade de esquizofrenia, alucinações e epilepsia.

A ruína de sua família parece algo mais aterrador do que ter um sujeito de carne putrefata e desejo assassino em seu encalço, e esse tipo de condenação é dura. Craven faz a moça refletir em última análise, não só sobre sua carreira mas também sobre a sua rotina, utilizando a fina distância entre o idealizado e o tangente para mostrar que ela deve ser grata ao que a fez ser capaz de sustentar o sonho de ter uma vida comum e ordinária.

É realmente uma pena que O Novo Pesadelo não tenha sido compreendido tão bem nesse esforço.

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