Wandinha 1ª Temporada: A versão mais coxinha da família Addams, pelo menos até agora

Wandinha 1ª Temporada: A versão mais coxinha da família Addams, pelo menos até agoraWandinha é uma série da Netflix que resgata os personagens clássicos das tiras de Charles Addams, vulgarmente conhecidos como Família Addams. O programa idealizado por Alfred Gough e Milles Millar é uma co-produção da MGM com o serviço de streaming e se vale demais do trabalho da nova queridinha dos fãs de filmes de horror, Jenna Ortega.

Além de todas as pessoas citadas, a série conta com a produção executiva, direção dos primeiros quatro episódios e concepção artística de Tim Burton, que por pouco não dirigiu o filme Família Addams que Barry Sonnenfeld conduziu em 1991. Junto a Burton veio seu fiel escudeiro, o compositor Danny Elfman, que mais uma vez brilha ao trazer uma nova versão musical a um personagem famoso.

A característica visão e referência gótica do diretor ajuda a temperar de forma adocicada essa versão, cujo roteiro lembra demais as versões sombrias/ suaves feitas para adolescentes alternativos que consomem produtos da Netflix, CW e Starz.

O início do piloto dirigido por Burton mostra Ortega desfilando por um colégio comum, em vestes escuras que destoam completamente do colorido do restante do visual.

O verbo que mais corretamente a define é o utilizado no parágrafo anterior: desfilar, já que os oito episódios miram exibir a sua protagonista como um bibelô, como uma figura admirável, fácil de simpatizar e de se identificar.

Isso soa curioso, porque é fácil admirar Wandinha mesmo que ela seja apresentada como uma excluída, uma moça inadequada estudando em um colégio que exibe orgulhosamente um busto da ex-primeira dama Nancy Regan na fachada, quando a moça que dá título ao seriado é o exato inverso do conservadorismo branco e estadunidense que Nancy representa.

Mas o que chama mais atenção é a extrema violência de sua reação. Para salvar o parente, a menina decide tacar piranhas, um peixe com dentes afiados, capaz de comer carne, numa piscina com outros menores de idade.

Wandinha 1ª Temporada: A versão mais coxinha da família Addams, pelo menos até agora

Nesse primeiro momento ela já mostra ser espirituosa, retribuindo os bullys enquanto eles jogam polo aquático.

É tudo arquitetado cuidadosamente para soar carismático e repleto de fofura. Ao salvar seu irmão mais novo, Wandinha demonstra super habilidades, parece ter um poder de telepatia e clarividência, uma capacidade premonitória sui generis, que aos poucos será melhor e mais abordada.

Além do apuro visual absurdo, especialmente no vestuário escuro da família, se percebe um cuidado também com a fidelidade as tirinhas de Charles Addams. Desde o Mercedes que o mordomo Tropeço (George Burcea) utiliza para levar as crianças a nova escola, até os figurinos e cenários.

Há um trabalho belo da direção de arte, a exemplo do que ocorre com o carro, feito sob medida, a partir das partes de dois carros separados, e inclinado para baixo no lado do motorista para fazer o mordomo monstro parecer maior e mais alto.

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Também se cuida para demonstrar que os Addams têm uma latinidade óbvia, já que parte da visão do autor era fazer uma paródia do mundo moderno dos Estados Unidos em contraste com as tradições católicas desse povo.

Dessa forma, além de macabra, a família é indubitavelmente estrangeira, com Catherine Zeta-Jones e Luiz Guzmán acertadíssimos como o casal Mortícia e Gomez, apesar de Zeta-Jones obviamente não ser uma atriz de origem hispânica como muito se pensa, uma vez que ela é natural do País de Gales, nação que compõe o Reino Unido.

A aura latina foi meio perdida na versão seriada dos anos 60. Já nos filmes foi lembrada através da presença do ator porto-riquenho Raul Julia, que fazia uma versão do amante sensual, icônico e ardente de origem ibérica, porém distante demais do personagem das tirinhas.

Guzman é baixinho, atarracado, amoroso e caricato, ou seja, parecidíssimo com a versão original.

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Outra característica modificada e bem encaixada é o fato dos pais serem protetores ao extremo, tanto que deixam a ótima coadjuvante Mãozinha com a protagonista, para auxiliá-la, supostamente.

Wandinha, por sua vez os considera manipuladores e maliciosos, obcecados por controle, como pais comuns. Essa crítica é interessante por mostrar que até em um parentesco diferenciado como é com os Addams, há a possibilidade de haver uma rebeldia teen típica, mas também acaba colocando o clã em uma bolha de normalidade que jamais foi o ideal da família, fosse qual versão fosse.

Vale lembrar que em nenhuma outra encarnação os Addams têm poderes. Os parentes fora do núcleo familiar principal tem algumas condições físicas que pode se enxergar como esquisitas, mas poderes de fato ninguém tem. Mesmo a vovó bruxa e o tio Chico tem habilidades moderadas, quase inexistentes, variando entre os feitiços de um e leves raios de choque do outro.

O diferencial dos personagens é a exploração do banal e do comum sob a ótica de uma família excluída, e que não é assim só por aparentar um caráter macabro, mas também por serem alienígenas, ou seja, estrangeiros em uma terra totalitária e imperialista.

Partindo disso, uma trama que mistura apocalipse e genocídio parece demais, um exagero que ao tentar ser grandioso, soa igual a tantas outras coisas comuns e atuais.

Logo a trama embica para a escola Nunca Mais, do original Nevermore, em uma referência ao conto O Corvo, do autor gótico Edgar Allan Poe, que termina com a ave falando exatamente isso, nunca mais.

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Na escola a síndrome de esquisitice de Wandinha se dilui, já que os alunos são todos ou estranhou ou poderosos, quase todos eles sendo monstruosos.

Quando a totalidade é anormal, não há mais espanto nenhum na postura soturna de Wandinha. A condição de solitária e indócil é então suavizada, inclusive pelas amizades que a cercam, especialmente pela aproximação da simpática colega de quarto Enid Sinclair (Emma Myers), que se torna sua colega fiel, funcionando quase como uma tutora.

A personagem que Ortega faz se difere das outras versões por ter problemas com sua mãe. Aqui ela mira sua dificuldade de socializar com a figura da boa esposa, e enxerga Mortícia como um alvo a evitar, igual a qualquer dona de casa.

Isso por si só é estranho, uma vez que a personagem adorava brincar de torturar o irmão nas outras versões. Ela puramente se revoltar contra algo que todo adolescente faz perde o sentido, se ela usasse roupas coloridas faria mais efeito, uma vez que discutiria o complexo de espelho que uma filha normalmente sofre com a mãe.

Há tramas de assassinatos, que a personagem trata de investigar, e até há uma certa violência gráfica, embora seja comedida.

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O roteiro também não é muito mirabolante, tem seus (chatos) desenrolares românticos adolescentes, triângulos e quadrados amorosos desimportantes, além de ter uma cidade "comum" próxima da escola, chamada Jericho, que abriga personagens como policiais, médicos, baristas, psicólogos, gente normal.

Entre o elenco coadjuvante de destacam a diretora Larissa Weems (Gwendoline Christie), o chefe policial Xerife Donovan Galpin (Jamie McShane) que tem uma história com os estranhos de Nunca Mais e alguns alunos tridimensionais, como Xavier Thorpe (Percy Hynes White) e Bianca Barclay (Joy Sunday).

De resto, há personagens que não acrescentam muito, como a professora Marilyn Thornhill de Christina Ricci, o interesse amoroso Tyler Galpin (Hunter Doohan) e outros mais simpáticos, como o apicultor Eugene (Moosa Mostafa), além da doutora terapeuta Valerie (Riki Lindjome). Esses, no entanto não apresentam camadas ou evolução, saem e entram da trama como sempre foram, diferente dos anteriormente citados.

O maior pecado de Wandinha reside no fato que os criadores parecem que não entenderam o diferencial das histórias dos personagens.

Os Addams conversam com clichês de filmes e livros de horror, são ligados ao macabro e tem sua riqueza explorada exatamente por ter contato com gente quadrada, os tais normies, que na série, tem os personagens da Jericho como avatar.

Isso faz com que eles pareçam mais divertidos e engraçados.

Uma vez que a protagonista vai para a escola de freaks e monstros, isso se perde, e nem a convivência com os comuns da cidade resgata essa condição.

Quando se abre mão de algo tão essencial, fica difícil levar a sério, até porque nada chamativo é colocado no lugar. A aposta é basicamente em rotinas de personagens juvenis geniais, em investigações mega elaboradas e inverossímeis, afinal, são apenas garotos e garotas procurando pistas.

A obsessão de Wandinha flerta com a condição de menina entediada que acha um hobby, mas abraça a questão heroica, já que ela pensa em salvar inocentes. Logo ela, que sempre foi uma criança com tendência a psicopatia.

Um dos pontos positivos é relação que o pai interpretado por Guzman tem com Wandinha, imitando as clássicas tirinhas de Charles Addams, onde eles sempre brincavam juntos.

Colocar o pai da família como alguém bonachão e cheio de docilidade ao invés da máquina de sexo anteriormente visto é uma boa saída, embora ele também tenha pouco tempo de tela.

Até sua versão mais moça, interpretada por Lucius Hoyos tem mais destaque que Guzman.

De resto, os bons tentos da série têm a ver com Burton, como o cenário do quarto de Enid e Wandinha, que lembra de leve o covil de Duas Caras em Batman Eternamente, com dois lados distintos mostrando as personalidades que ali habitam.

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Há uma tentativa de misturar o barroco da filmografia do diretor de cinema com o lado fofo de seriados como SuburgatoryPushing Dasies, sobretudo nas cenas no consultório da doutora Kinbott.

Ainda na parte das boas sacadas, há a explicação do porquê a personagem não se abre para relacionamentos, desde que bloqueou lágrimas e sentimentos quando mataram um escorpião chamado Nero, que era seu animal de estimação.

Isso ajuda a explicar seu semblante sisudo e sua condição tão entediada, que a faz ir atrás de encontrar o assassino monstruoso que ataca a escola.

Ortega tem um desempenho ótimo, para além do anedótico fato dela não piscar em cena. A atriz se dedicou ao papel, imprimiu até uma coreografia própria.

Sua versão de Wandinha tem identidade, conta com elementos das versões anteriores, mas tem uma postura singular, misantrópica, que não liga para (quase) ninguém, entediada com a vida e quase depressiva.

A partir do quinto episódio Burton não mais dirige e o que se vê é uma condução ainda competente, ainda que seja mais ligada ao comum televisivo e não cinematográfico. Gandja Monteiro faz os episódios 5 e 6, enquanto o 7º e 8º são de James Marshall.

O grande problema dessa segunda metade é o fato de não saber exatamente o que quer ser, uma vez que a trama dos assassinatos é genérica e cheia de furos, não acertando esse alvo, claro, mas também não acerta em mostrar seus personagens com camadas.

Alguns deles, como alguns alunos, até parecem tridimensionais - o que dentro da patuleia das séries da Netflix, já é algo louvável - mas a maioria é apenas estética pela estética.

Gough e Milla miram o alternativo, mas apresentam algo igual a tudo que foi exibido antes na plataforma. Os dois que marcaram tendência em Smallville aqui fazem mais do mesmo, acertam claro em referências e easter eggs, mas trazem uma história que tenta ser tão grandiosa que mais parece uma quarta-feira morna, com o perdão do trocadilho.

A pergunta que fica sem resposta nos últimos capítulos de Wandinha é porque abriram mão do tom de humor. A versão escolhida aposta demais em ser uma alternativa sombria e pop do clássico, mas soa vazia tanto por suas conveniências quanto pelo clichê tolo de escolhido, sendo zerada de significado, com alguns bons tentos do elenco, mas sem grandes implicações.

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