A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoia

A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoiaA Profecia é um filme de horror e suspense cujo foco narrativo é uma história sobre o nascimento do Anticristo. Lançado em 1976, é considerado um clássico do gênero, graças não só a direção de Richard Donner, mas também a presença do astro Gregory Peck, no elenco e também graças a uma trilha sonora que foi vencedora do Oscar.

Baseado no texto de David Seltzer, que escreveu tanto o roteiro desse quanto o livro A Profecia, a história conta a jornada de Robert Thorn, um embaixador estadunidense, que adota um menino órfão, cuja origem é um mistério, a fim de remediar uma questão familiar que poderia ser traumática.

A carreira do sujeito está viés de subida, Robert ganha cada vez mais poder e influência justamente depois que adota o pequeno Damien, acontecendo assim uma estranha coincidência de ascensão profissão junto ao crescimento do menino.

Aparentemente o crescimento dos dois aspectos não tem uma ligação real entre eles, embora pareça, sensação essa reforçada pelo caráter paranoico da obra. Sensações de tensão, suspense e teoria da conspiração são bastante presentes, uma vez que a trama lida com a profecia apocalíptica de que uma versão malvada de Jesus Cristo um dia chegaria a Terra.

Aqui a história gira em torno desse fenômeno, ainda que mire um aspecto bem diferenciado, já que a ideia é mostrar como mundo reagiria a essa presença malévola enquanto a Besta ainda era criança, pervertendo assim a questão da inocência típica infantil, colocando em cheque esse clichê.

Essa foi uma coprodução entre Reino Unido e Estados Unidos, produzida por Harvey Bernhard, tem produção executiva de Mace Neufeld. A ideia original veio de Robert Munger ou Bob Munger, foi ele quem sugeriu fazer um filme sobre o Anticristo ainda criança.

Depois que ele apresentou a ideia a Bernhard, o sujeito foi para casa e escreveu imediatamente um tratamento de 10 páginas, para tentar emplacar junto a algum estúdio. Munger acabou sendo creditado aqui como conselheiro religioso, em alguns documentários acessórios.

É dito que ele recusou ser apontado como construtor do texto, embora essa questão seja discutível, visto que o especial em que ele fala isso tem um cunho bastante sensacionalista.

Bernhard procurou o Seltzer, que vinha do sucesso de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ele escreveu o livro sob encomenda dos produtores e redigiu ambos de maneira quase simultânea.

A procura por estúdios foi grande. A 20th Century Fox originalmente rejeitou a obra, abrindo espaço assim para A Warner Brothers, que ao entrar no projeto, desejava que a direção fosse de Charles Bail (ou Chuck Bail) de Cleópatra Jones e o Cassino de Ouro. A ideia seria trazer Oliver Reed como ator principal, mas os planos mudaram, quando os estúdios optaram por fazer O Exorcista II: O Herege, que sairia em 1977.

A Profecia acabou retornando a Fox e Mike Hodges teve a chance de dirigir o filme. Ele recusou, mas dirigiu três semanas de A Profecia II, de 1978, antes de ser demitido por diferenças criativas.

Foi Alan Ladd Jr, então chefe da Twentieth Century Fox que deu forças para que o até então novato Richard Donner se juntasse à produção como diretor. Ele vinha trabalhando como diretor de TV, em Pretrocelli, Kojak, Bronk e o telefilme A Garota Viciada.

A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoia

Depois desse filme, Donner se tornou um profissional requisitado, fez Superman: O Filme, Os Goonies, Máquina Mortífera e suas continuações, Radio Flyer entre outras para o cinema.

No entanto a figura mais importante para que o filme ocorresse certamente foi Gregory Peck. O ator estava praticamente aposentado, desde Matando Sem Compaixão. Ao saber da premissa achou que seria bom para fazer o filme. Sua presença gerou um interesse da parte da indústria e a verba para a realização acabou sendo viabilizada. De certa forma, Peck foi um produtor executivo não oficial.

O interesse por fazer um pai em conflito, que enxergaria seu filho como um potencial ser de índole má conflitou com sua vida pessoal, já que após aceitar o papel, um de seus filhos, Jonathan acabou morrendo em 1975, de maneira trágica, via suicídio.

Isso obviamente abalou o interprete, mas ele não desistiu da obra. Esse é um dos muitos motivos levantados para considerar esse um filme amaldiçoado.

Outros atores cogitados para o papel de Robert Thorn foram Charlton Heston, Roy Scheider, Dick Van Dyke e William Holden.

Peck estrelaria outro filme sobre a ascensão de um menino como figura do Anticristo em Meninos do Brasil de 1978, cujo desfecho é parecido com o desse, embora aquele menino fosse um clone de Hitler, não o filho do diabo.

De acordo com uma das biografias de Peck, ele assumiu o papel com um corte no salário, abrindo mão do cachê fixo para garantir uma porcentagem da bilheteria bruta do filme.

Como a obra arrecadou mais de US$ 60 milhões nos EUA, esse acabou sendo o papel mais bem pago da carreira do ator.

A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoia

A relação dele com Donner foi amistosa, mas não era incomum o diretor ser obrigado a refilmar close-ups, especialmente quando o ator aparecia com queixo duplo, já que estava ligeiramente acima do peso na época das gravações.

A contratação do compositor Jerry Goldsmith só ocorreu por conta de Donner e Bernhard pediram a Ladd Jr. diretamente. A verba foi cobrada além do orçamento inicial. Produtor e diretor sentiram que a música dele era certa para o filme depois de vê-lo fazer um show ao vivo no Hollywood Bowl, em Los Angeles.

O investimento valeu a pena, afinal, a trilha ficou tão marcada que venceu o Oscar, o único prêmio de Goldsmith. Donner já afirmou em público que o sucesso de A Profecia se deu graças a música original, que colaborou imensamente para aumentar a tensão e o medo presente na obra.

A canção Ave Satani continua sendo a única indicada ao Oscar de Melhor Canção Original por um filme de terror e a única em todos os gêneros do cinema que foi escrita e cantada em latim.

O compositor não acreditava tanto na canção, tanto que quase não compareceu ao Oscar daquele ano, pois já havia perdido várias vezes.

Ele já havia sido indicado por Freud: Além da Alma, Quando Só o Coração Vê, O Canhoneiro do Yang-Tsé, O Planeta dos Macacos, Patton, Rebelde ou Herói?, Papillon, Chinatown e O Vento e o Leão. Ele não queria passar pela provação de perder novamente.

Goldsmith ficou tão nervoso durante a cerimônia que fumava dois cigarros por vez.

O filme se chama The Omen, no original, mas se pensou também em ser mais literal e óbvio, como The Anti-Christ. Quando os chefes do estúdio sugeriram algo sutil, eles se iriam usar o título The Birthmark, em atenção ao conto de 1843 do escritor Nathaniel Hawthorne, mas optaram pelo nome que ficou.

Na Argentina é La profecía, na Austria Das Omen, na Itália foi lançado em DVD como Il presagio ou Omen - Il presagio. Em Portugal foi batizado de O Gênio do Mal.

O filme teve gravações na Inglaterra, Itália e Israel, com locações na Catedral de Guildford, Pyrford Court, American Military Cemetery ou Brookwood Cemetery - Woking. A cena do cemitério foi feita em Littleton House nos Shepperton Studios em Surrey.

Teve cenas também em Windsor Safari Park - St. Leonards Hill em Berkshire, vários momentos em Londres em Bishops Park, All Saints Church, em Fulham, Parliament Square em Westminster, Parliament Hill Fields, Grosvenor Square – Mayfair e The Garden Museum, Lambeth Palace Road em Lambeth.

Ainda no Reino Unido, houveram cenas em Northwick Park Hospital, South Hill Park em Berkshire, Windsor Rugby Club em Berkshire e St. Peter's Church em Staines-upon-Thames. A cena de abertura foi em Lazio, na capital romana, também na Mincio Square, além de gravações na Jerusalém israelita.

Seltzer lançou o livro duas semanas antes do filme estrear. O autor demorou um ano para escrever o script. Na hora de construir o texto, o diretor pediu para diminuir as referências óbvias ao demônio e ao sobrenatural. A ideia seria fazer um retrato realista de uma família em crise, a ponto de a insanidade assumir brevemente o controle, fazendo eles acreditarem estar sofrendo uma manipulação diabólica.

A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoia

A regra de ouro era que não deveria ter no roteiro nada que não pudesse acontecer na vida real, As mortes deveriam parecer estranhas, porém, deveria registrar a dúvida se elas foram acidentais ou causadas por uma força externa.

Seltzer só escreveu o roteiro porque precisava de dinheiro. Ele também afirmou que o ambientou em Londres porque pretendia uma viagem à Inglaterra. Considerava que a crença em uma versão malvada do Messias era uma bobagem, mas anos depois ele reviu isso, claro, fazia isso também para vender livros.

Antes desse ele escreveu A Crônica de Hellstrom, A Fantástica Fábrica de Chocolate e O Rei, A Rainha e.... Fez depois A Semente do Diabo, Alta Tensão e Uma Luz na Escuridão

Já Bernhard trabalhou em Ascensão e Queda do Terceiro Reich, como produtor associado. Fez depois A Profecia II, A Profecia III, Os Goonies, Os Garotos Perdidos e A Profecia IV.

Neufeld fez antes o telefilme The Owl and the Pussycat, depois começou a trabalhar em vários filmes e séries, entre eles, algumas adaptações de livros de Tom Clancy. Ajudou a realizar A Caçada ao Outubro Vermelho, Intruder A-6: Um Vêo Para o Inferno, Jogos Patrióticos, Perigo Real e Imediato, A Soma de Todos os Medos, Operação Sombra: Jack Ryan e a série Jack Ryan. Também foi produtor executivo do segundo e quarto filmes de The Omen.

A campanha publicitária destacava a importância dos "três seis" como O Sinal de Satanás. Ela é comumente considerada a obra que popularizou esse como um número cabalístico ligado ao Diabo.

A pré-estreia nos EUA foi em 6 de junho de 1976, afixarem em cartazes declarando:

Hoje é o SEXTO dia do SEXTO mês de mil novecentos e setenta e seis!

Por mais piegas que fosse, o artificio funcionou , já que muitos patronos de cinemas literalmente “surtaram” ao ver aqueles pôsteres ao saírem das prévias.

A Profecia foi o quinto filme de maior bilheteria de seu ano. Também ajudou o boca-a-boca e a boataria de que o Vaticano se opôs veementemente à realização dele, alegando que a obra estava sendo feita apenas para fins absolutamente consumistas e econômicos. Não seria esse o intuito do cinema em geral?

Dito isso, jamais foi comprovada qualquer reprimenda do Vaticano. Provavelmente isso foi apenas boataria e marketing.

De acordo com o diretor Richard Donner, ele convenceu o famoso diretor de fotografia Gilbert Taylor a sair da aposentadoria para filmar este filme. O cinematógrafo por sua vez encorajou Donner a rodar o filme em Panavision, fato que ajudou a encarecer o orçamento, que praticamente dobrou, ainda que claramente isso tenha ocorrido pelo acréscimo de verba em publicidade, que alertava os cidadãos para prestarem atenção especial a quaisquer ocorrências estranhas que acontecessem ao seu redor.

Os créditos iniciais tocam Ave Satani, acompanhados de um pôster com uma criança, cuja sombra parece uma cruz de cabeça para baixo. Logo depois a trama vai para uma viagem de carro, no dia 6 de junho, em Roma.

A Profecia : Uma história de paternidade trágica e paranoia

Peck atua quase sem falar no início. Ele está preocupado, sente culpa e pesar ao descobrir que seu filho biológico faleceu.

Esse trecho é frenético e confuso, o drama se desenrola de modo rápido, fato que atrapalha até um pouco do entendimento da questão.

O padre Spiletto, de Martin Benson, sugere que ele aceite uma criança cabeluda, que nasceu naquele mesmo dia. Culpado por ter fracassado mais uma vez em conceber uma criança saudável, ele aceita a sugestão do homem misterioso e pega a criança para si.

Em menos de dez minutos é estabelecido o estado familiar, onde a Kathy de Lee Remick lida com o pequeno Damien, enquanto o mesmo é carinhoso com sua parente. Os dois parecem se amar profundamente, mesmo sem saber que não tem qualquer parentesco.

Não demora até que Robert chegue com a notícia de que se mudarão da Itália, para Grã-Bretanha, onde ele será um embaixador.

O menino se chamaria Domlin, em algum ponto da confecção da história, porque Seltzer tinha um amigo cujo filho desagradável se chamava assim. A esposa do escritor o convenceu a mudar o nome e fez isso tão bem que muita gente acredita que esse era uma citação real na Bíblia.

Damien vem da palavra grega Dama, que significa superar, dominar ou domar, não tem qualquer ligação com o famoso Damião ligado cristianismo, o São Damião de Molokai, que foi martirizado em 287 d.C.

Antes de conhecer Harvey Stephens, Donner estava pensando em escalar uma garota para o papel, já que o processo de escolha estava se mostrando muito difícil com os meninos. O ator mirim convenceu o diretor graças ao ataque que fez a ele.

Donner havia pedido a todos os meninos viessem até ele em fúria, imitando a cena de briga física com Katherine Thorn. Nisso, Stephens gritou e arranhou o rosto de Donner e chutou-o na virilha durante o teste, então o diretor o empurro para longe e decidiu por ele, pedindo a única mudança de tingir o cabelo do do garoto, já que ele era louro e precisa ter a cor preta nas madeixas.

Como Stephens era muito jovem, Donner descobriu que a melhor maneira de dirigi-lo era provocar reações atrás das câmeras, para reverberar na frente delas. Quando Damien protagoniza a cenada igreja, Donner ficou gritando para Stephens fora das câmeras: "O que você está olhando, seu desgraçado? Vou dar uma surra em você", por isso ele reagiu daquele modo.

Depois de A Profecia o rapaz quase não trabalhou mais, atuou em uma série chamada A Mente Selvagem, em 1980, mas teve uma participação especial como jornalista de tabloide em A Profecia de 2006.

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A mansão que os Thorn usam como lar em Pereford é grande demais, bonita, de arquitetura clássica, quase uma fortaleza. O casal é feliz, se beija de maneira apaixonada, a carreira do homem só sobe, tanto que ele chega a citar que não pensa na Casa Branca nesse ponto.

O novo lar é opulento era propriedade da famosa família Guinness. Era uma mansão de estilo georgiano tornou-se uma casa de repouso por alguns anos, logo após a conclusão das filmagens, antes de ser reformada e transformada novamente em uma casa particular.

Ela apareceu no segmento Wish You Were Here do filme de terror da Amicus Productions, Contos do Além de 1972.

Em A Profecia III: O Conflito Final a casa em que Damien adulto está morando essa é a mesma, embora não fique claro. A novelização do filme afirma que se trata da mesma casa, mantida pelo tio de Damien, Richard Thorn, como parte de sua herança.

Robert, Kathy e Damien vivem passeando pelas partes florestais da proprieda, em torno do casarão, quase não tem preocupações, tirando um ou outro susto com Damien, que foge da vista do casal.

Esse é obviamente um susto falso, mas fica claro desde já a preocupação dos dois em relação a integridade física do pequeno.

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Eles são acompanhados de uma moça, que estava com eles desde a Itália, chamada Holly, interpretada por Holly Palance, que foi escalada graças a amizade do cineasta com Jack Palance, depois que fizeram juntos Bronk.

Palance incentivou o diretor a procurar sua filha, já que, segundo o próprio, a menina era uma grande atriz. Ela era uma pessoa carinhosa, gostava da criança, era boa com ela, agia normalmente até o evento de um aniversário do menino, em um futuro breve.

A cena dela se jogando é violenta e bizarra. A preparação para tal já era agressiva, começando quando ela se deparou com um grande cachorro, um Rottweiler. Nesse ponto, ninguém mais lidou com o cão, a segunda pessoa a travar é Damien, que acena para ele com ternura.

Apesar da má fama da raça, a espécie foi criada para trabalho no campo, por açougueiros da região de Rottweiler, a fim de trabalhar com gado. Com o tempo, os animais dessa raça se tornaram cães eficientes de guarda e de tração. Devido à sua utilidade, tornou-se popular em todo o mundo ao decorrer do século XX.

É nessa festa que é mostrado pela primeira vez o fotógrafo Keith Jennings, de David Warner. O estava sofrendo da doença epitelial psoríase durante as filmagens, a ponto de Gregory Peck ter pena dele e pagar para que ele voasse para a Suíça para tratamento.

Junto a forte cena de morte da babá, ocorre outro momento estranho que é o assédio do padre Brennan, de Patrick Troughton, junto ao embaixador. Jennings também é apresentado diretamente ao personagem central, embora esse último sofra um susto, não provocando um no embaixador, como fez o padre. As coisas acontecem muito rápido.

Da mesma forma é apresentada a senhora Baylock, de Billie Whitelaw, uma nova babá que se apresenta para a família Thorn. A aparição dela é conveniente demais, mas ninguém suspeita disso.

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A personagem foi escrita como uma babá irlandesa calorosa e efusiva, mas Whitelaw usou outra abordagem em sua audição, criando um personagem frio, assustador e ligeiramente sinistro, tão bem feito que Donner deixou assim no filme.

Os produtores e o diretor ficaram na dúvida sobre manter a personagem, já que ela quebra a sutileza ambígua que o filme até então mantinha, mas Donner gostou tanto do desempenho de Whitelaw que optou por manter a caracterização da atriz.

Baylock tem pressa em falar com o menino, diz que está lá para proteger ele, sendo ainda mais servil que Holly. Sua imediata ação é a de contestar a patroa, quanto a levar o menino pata a igreja.

No caminho toca a música de Goldmsith, que aumenta em meio a viagem. A família. Aqui praticamente não se fala nada. O máximo de conversa ocorre entre Kathy e Damien, já que ela nota que ele está quente, provavelmente ardendo em febre, além de estar tremendo.

Notável que desde que Baylock chegou, as coisas mudaram. A criada simplesmente coloca um cão enorme, dentro de casa, como se fosse ele um cachorro de porte pequeno. O animal aliás foi um problema para a produção, já que era dócil, gostava de lamber e brincar com todos os seus colegas de elenco. Não era ameaçador.

A popularidade dos Rottweilers aumentou depois que o filme foi lançado.

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O animal é tão corpulento que assusta o embaixador. Ele pede para que ela se livre dele, ordem essa que é uma das tantas que ela ignora. Também é notável que o quarto da governanta é ao lado de onde o menino dorme, com ela servindo de guarda da segurança do rapaz.

Se avolumam indícios nada sutis de que há algo estranho com o menino, já que no zoológico as girafas de afastam da grade quando ele está próximo, além de haver um surto de babuínos, que pulam no carro, na parte em que a visita se torna um safári.

Durante as filmagens os animais não queriam atacar o carro. Se diz então que colocaram um filhote, no banco de trás, com um funcionário do zoológico e então ocorreu o ataque. O boato que corria na época é que não alimentaram os bicho, para fazer com que ficassem nervosos, mas isso não foi confirmado.

O padre stalker pede para encontrar o político reservadamente, na Praça Bishop, por apenas cinco minutos. O embaixador se assusta, mas consegue manter sua reação comedida ao encontrar ele. Na reunião, o padre diz coisas desconexas, cita a Bíblia Sagrada, deixa Thorn nervoso em um primeiro momento e o assusta ainda mais quando afirma que a criança vai matar a esposa dele e o feto que ela carrega, sendo que Robert sequer sabia que a esposa estava grávida.

O padre anda por um parque cheio de árvores, enfrenta uma ventania inesperada. Nesse ponto há uma belíssima cena, quando um raio cai sobre uma árvore, pondo fogo nela. Apesar do exagero das forças da natureza, que lançam raios por onde o sujeito anda, a sequência é emocionante, terminando com o personagem empalado acidentalmente, de forma tão conveniente que assusta.

Enquanto os críticos atacaram O Exorcista por ser muito gratuitamente sangrento, este filme foi elogiado por seu uso discreto de sangue.

Embora haja mortes violentas, quase não há derramamento de sangue, mas as mortes acontecem diante dos olhos do público, especialmente essa, que é exposta de forma explícita para criar e aumentar uma atmosfera de terror.

Há um número de óbitos bem criativos, incluindo enforcamento, empalamento, queda de um andar alto de um edifício, esfaqueamento e decapitação. Curiosamente, o único morto por arma de fogo não é mostrado, sendo um homicídio apenas sugerido. Isso não o impediu de quase receber uma classificação X devido à cena de decapitação.

A ideia de morte acidental, conduzida pelo acaso espiritual se tornou uma moda no cinema, replicada em diversos filmes de horror, como em Reencarnação (1980) e foi a base da franquia de terror posterior Premonição que inclusive remetiam a questão das fotos premonitórias, que Jennings utiliza aqui.

A mudança de humor de Kathy é súbita. Ela simplesmente não quer ter mais filhos, depois dos incidentes com Damien. Parece triste, mas não tem um sentimento depressivo tão marcado, como é por exemplo no romance. Aqui ela é mais preocupada consigo mesma e menos com a relação maternal.

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Apesar do bom desempenho da atriz, esse trecho é mal construído e não por falta de material base, já que o livro insere mais questões, como os ciúmes entre a dona da casa e a babá/governanta, além de um distanciamento emocional de Damien, mas sim por escolha narrativa de Donner.

Aqui a criança é absolutamente carinhosa com os pais e não só com a babá, enquanto no livro, ele é distante da mãe adotiva.

Se Kathy tem sua paranoia mal trabalhada, o mesmo não pode se dizer de Thorn. Peck brilha demais, é a reserva moral do filme.

Embora parte de sua retórica tenha haver com o que rolou com o padre e com a capa de jornal completamente irreal, do empalhamento. É dado que nenhum jornal britânico, nem mesmo tabloide, exibiria na capa (ou em qualquer página) algo tão gráfico, tanto naquela época quanto na atualidade, especialmente o jornal em destaque, o conservador Daily Mail.

Um dos bons momentos do filme é a cena da queda, precedida pela derrubada do aquário com peixes dourados, que na verdade, eram sardinhas pintadas, já que Donner se recusou a matar peixes.

Há alguns problemas de concepção, já que o cair lento de Remick, quase em câmera lenta, forçadamente virando no ar, para cair com a barriga para baixo.

Em O Exorcista, Ellen Burstyn hesitou em realizar uma cena em que seria arremessada contra a parede. Ela acabou dizendo ao diretor, William Friedkin, que faria a sequência, mas pediu que o dublê não puxasse a corda à qual ela estava amarrada. Na manobra, ela se machucou e culpou o diretor por isso.

Talvez por conta desse momento foi que Lee Remick se recusou a fazer algo semelhante, onde seria derrubada do segundo andar de sua casa pela criança. Donner optou por uma ilusão de ótica, que fazia a personagem parecer estar caindo, obviamente ninguém ficou ferido.

Depois do incidente, a esposa suplica para que Robert não deixe que a matem, verbaliza que a culpa não foi sua, afasta de pronto a possibilidade de ter tentado cometer autoflagelo, mas seus pedidos não são atendidos, em outra construção tola do roteiro, já que os personagens parecem sempre muito crédulos de que nada de ruim ocorrerá com família, sobretudo Robert, que parece confiante demais.

Antes do embaixador decidir ir até o fotógrafo, ele repara que o cão que já o havia assustado, agora dormia entre os brinquedos da criança. Sua bronca para a babá é tímida, mas ainda assim é falada. Um pai desesperado jamais agiria de maneira tão calma quanto ele fez, nesse ponto é difícil defender o filme.

Jennings enfim mostra as estranhas fotos com prenúncios, que lembram não só o já citado Premonição, mas também Espiritos: A Morte Está do Seu Lado.

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Segundo o fotógrafo, Brennan estava em estado terminal, se drogava de morfina sempre, para conseguir conviver com as dores oriundas do câncer avançado que enfrentava.

O fotógrafo descobre também que pode estar condenado, por isso procurou o embaixador, já que se preocupa de ser um alvo de toda essa trama macabra, seja ela qual for.

Robert prepara tudo, isola a esposa no hospital, planeja deixar Damien com a sra Horton (que é a funcionária que veio com ele desde a Itália), mas ao chegar lá, percebe que a empregada e o seu marido (o chofer) saíram, deixando uma carta de despedida dos serviços, sem nada falar com os patrões em si.

Na mansão ficou só Baylock e a criança. Robert até faz menção de parar os planos, mas não, decide seguir, também por conta da governanta ter dito que o cão foi levado embora.

Ele nem confere, como também não conferiu no início do filme com a agência de babás.

Na viagem para Roma, eles tomam um táxi, com um ator que era usava um grande curativo no polegar - isso porque Gregory Peck bateu acidentalmente a porta de um carro em sua mão, quase arrancando o dedo.

As investigações não resultam em quase nada, já que houve um incêndio que consumiu o lugar e os papéis documentais, que mostrariam a origem de Damien. A única pista que restou é que o padre Spiletto, estava em Frosinone, no monastério de São Tomé.

A maquiagem de queimadura do personagem é péssima, aliás, esse final é todo bem confuso, também por conta das desgraças acumuladas em uma só pessoa. O pacto com o Diabo fez a figura sofrer mais que Jó, ele perdeu a visão, só mexe a mão esquerda, resumia sua ação em escrever 666 com carvão no chão.

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Ao menos a misancene do personagem desenhando as pitas é bem encaixada, com sinos badalado ao fundo. Mais uma vez os personagens decidem ir até outro ponto no mapa, a Cerveri, nas sepulturas dos etruscos.

A visita ao cemitério é emocionante e estranha, especialmente por associar que Damien é filho de um chacal. Ela também foi feita em estúdio.

Os cães, rotweillers cercam o fotografo. Os dois tentam se convencer que os animais estão ali apenas graças ao cheiro das covas. São brutalmente atacados, mordidos e arranhados pelos bichos.

Como nos gialli, o personagem lembra de detalhes, do nome Bugenhagen, da localização de Megido ou cidade de Jezreel, lugar arenoso, isolado, entre cavernas e desertos.

O local utilizado para a pesquisa arqueológica é uma escavação real, mas não em Megido. Está localizado na Cidade Velha de Jerusalém, no extremo sul do Monte do Templo.

O final é repleto de mortes trágicas, algumas, feitas de maneira proposital, como a de sua esposa, outras, acidentais, como com Jennings.

Peck e Donner tiveram uma discussão sobre a reação de Robert ao saber da morte da esposa. O ator queria quebrar coisas, movido pela raiva de saber que sua esposa faleceu, mas Donner não queria. Apesar de discordar, Peck seguiu as ordens do cineasta, reconhecendo a autoridade dele dentro do set. Anos depois ele assumiu que Richard tinha razão sobre a reação, considerando a escolha mais sábia.

Era intenção de Richard Donner filmar e editar a cena em que Jennings é decapitado de tal forma que o público, tendo fechado os olhos no início da cena, os abrisse apenas para ver a cabeça ainda flutuando no ar. Para isso ele deixou que a cena transcorresse bem lentamente, fato que pode fazer parecer brega atualmente, mas teve um grande impacto na época.

David Warner decidiu não assistir a cena de sua decapitação, no entanto, guardou a prótese de sua cabeça decepada durante anos, até seu divórcio, quando sua ex-mulher obteve a custódia dela.

Os trechos finais na mansão de Pereford são confusos. Baylock age como um animal, urra, ódio no olhar, quase sorri quando está atacando seu patrão. Donner e o editor Stuart Baird reduziram bastante a cena final da luta de Gregory Peck e Billie Whitelaw, pois consideraram que era excessiva. A polícia vai atrás do motorista, sem saber que ele é um político importante, até por conta de ele sair de maneira desesperada e rápida da propriedade.

Curioso é que se ele fosse frio, não precisaria disso, poderia esperar, esconder o corpo da governanta, já que não havia ninguém ali.

Ele foi o culpado por alertar a polícia, pela direção perigosa, pela pressa, pela falta de tato e principalmente por ter segurado ainda o punhal mesmo sob a mira de uma arma. Ainda houve uma clara referência a Tara Maldita, obra de 1956 que deu início ao subgênero de filmes de terror com crianças malvadas.

Também se pensou em um final onde Robert mataria Damien na igreja, com o bem triunfando, No entanto, a MPAA disse que esta cena era muito chocante, o que ironicamente resultou no final em que Robert leva um tiro e o diabo vence.

Enterrado com honrarias, as autoridades simplesmente abafaram o caso. Há quem aponte isso como um erro, mas é o inverso, afinal, o mundo dos homens certamente seria pouco sábio e ganancioso no sentido de manter o curso do status quo. Um homem próximo do presidente, ser tratado como um quase assassino de seu filho seria um escândalo tremendo.

A equipe de relações públicas do filme aproveitou algumas estranhas coincidências e acidentes associados à produção para propagar que esse era um filme maldito, tal qual ocorreu com O Exorcista e com o Poltergeist: O Fenômeno de 1982.

Entre os fatos estranhos, os aviões de Seltzer e Peck foram atingidos por raios pouco depois deles desembarcarem, o hotel onde o diretor estava hospedado foi bombardeado pelo IRA, Donner foi atropelado por um carro. Depois que Peck cancelou um outro voo, para Israel e o avião que ele fretaria acabou caindo, matando todos a bordo.

No primeiro dia de filmagem, vários membros principais da equipe sobreviveram a um acidente de carro, o artista de efeitos especiais John Richardson foi ferido e sua namorada decapitada em um acidente no set de Uma Ponte Longe Demais em 1977.

É evidente que esses fatos todos são coincidências reunidas, que tem mais valor de curiosidade do que comprovação de ação sobrenatural, mas uma análise não ficaria completa sem citar essas bobagens.

O filme de Donner é um belo acréscimo ao rol de crianças macabras no cinema de gênero, junto a Tara Maldita, Aldeia dos Amaldiçoados, sua sequência Estirpe dos Malditos, o remake Cidade dos Amaldiçoados, Anjo Mau, A Órfã, etc.

A Profecia é direto, possui um charme essencial, mas padece de problemas de conveniências, para manter a sua dubiedade. É sem dúvida um clássico não só do cinema, mas da cultura como um todo, além de trazer à tona um dos personagens imortais do cinema de horror moderno, além de ser detentor de uma das trilhas mais macabras do cinema mainstream.

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